30/04/2010

Início do segundo dia


A noite acabou passando ligeiro. Eu consegui dormir bem, mas o Rafael disse que passou muito calor no início, quando estava com muita roupa, e muito frio depois, quando tirou algumas cobertas. Eu só me acordei para ir ao banheiro no meio da madrugada – efeito do vinho – e pelas 5 da manhã, quando o Diego, com o celular ainda no fuso horário brasileiro, nos acordou já pronto para sair achando que estava na hora certa. Foi só convencê-lo de que ainda tínhamos algum tempo a mais para dormir que voltamos ao sono.

Como me preparei bem – e isso é importante nessa viagem – não passei desconforto. Dormi com aquela malha de underwear polar por baixo de tudo, com calça e um casaco, além da coberta do alojamento. Deixei as pilhas da máquina fotográfica junto ao travesseiro, para que não estivessem “paradas” no início da manhã. Ao acordar, só troquei a parte de cima da roupa, colocando o casacão, o cachecol e as luvas, e reacomodei as baterias na câmera. A mochila já estava quase pronta para voltar à caminhonete.

Do lado de fora, quando saímos para o café da manhã, o ambiente era inóspito. Não tínhamos visto nada do lugar na noite anterior, pois quando chegamos já estava escuro. Mas vimos que não perdemos nada. O que existis ali era apenas casas com aparência de quase abandonadas, bem afastadas umas das outras, com muros bem baixinhos marcando a divisa dos terrenos e um aspecto de deserto ou de Velho Oeste, como queiram. Para que os telhados não sejam arrancados com a força do vento é comum encher de pedras a parte de cima das casas, outra característica típica da região andina inteira.

No café da manhã, comemos pães, biscoitos, tomamos chá e café. Não tivemos do que reclamar, dentro do que se propunha o alojamento.

Por volta das 8h, já estávamos com a caminhonete carregada novamente e pudemos recomeçar a viagem. Eu, que estava na parte bem de trás do veículo, senti bastante a estrada com muitas pedras que pegamos no primeiro trecho da viagem, que não tem nenhuma atração turística em especial.
Por cerca de uma hora e meia, só o que fizemos foi andar em direção à fronteira com o Chile, na cidadezinha de Avaroa, onde termina uma linha férrea que vem de Uyuni, e onde só chega um trem por semana. Passamos por um posto de controle militar e começamos a enxergar, ao longe, o vulcão Ollague. Naquele vialrejo, a melhor descrição possível seria o cenário do filme Mad Max.
Andamos mais um tanto e chegamos no que é tido como o melhor mirante do topo do vulcão Ollague, que tem neves eternas no cume, mas que parece meio acinzentado para quem olha. O lugar é muito seco e inóspito, mas bonito. Começam a aparecer formações rochosas que nos acompanhariam ao longo de todo aquele segundo dia de tour.
Ficamos uma meia hora por ali, subindo e descendo de pedras tirando fotos aqui e ali e seguimos viagem, agora para um dos lugares mais bonitos que já vi na vida.

Troquei de lugar com o pessoal, porque realmente senti muita dor nas costas no primeiro trecho do dia. Estava bem na frente da caminhonete quando começamos a nos aproximar da primeira das lagunas altiplânicas pelas quais passaríamos.

Laguna Cañapa era o nome dela. Linda. Azul, com bordas brancas de gelo e de bórax, salpicada pelo vento. Os pontinhos cor-de-rosa que se viam de longe eram os famosos flamingos do altiplano. As montanhas quase sem vegetação ao redor serviam de moldura para aquele oásis gelado no meio do deserto. Foi uma das imagens mais impactantes que já tive na vida, repito.

Estacionamos num cantinho da lagoa e quando descemos logo pudemos ver a força e o frio do vento que soprava ali. Fomos caminhando pelas margens até o ponto onde se concentravam os flamingos, muitos deles imóveis, paradinhos com uma perna só na água rasa da lagoa.
A várzea da lagoa guardava algumas surpresas. Às vezes, o que parecia um lugar bom para se pisar na verdade era gelo fino com barro embaixo. Ficamos rindo da cara dos que conseguiram se sujar (e quase congelar) quebrando essa capinha de gelo com o pé.

Creio que tenhamos ficado quase uma hora ali ao redor da lagoa, só admirando a paisagem, tirando fotos e tentando chegar perto dos flamingos, que às vezes saiam voando em debandada. Muito bonito mesmo; só não dá vontade de ficar mais por causa do frio, senão o bom seria caminhar ao redor de toda ela – coisa que deve tomar umas duas horas.

29/04/2010

Primeira noite no tour

Deviam ser umas 16hs quando deixamos a ilha do pescado, depois de várias tentativas de fazer fotos engraçadinhas brincando no salar.

A saída da ilha do Pescado se faz em direção à margem sudeste do salar de Uyuni, que fica relativamente mais próxima da ilha do que a margem nordeste, por onde havíamos entrado pela manhã, no início do tour.

Assim que saímos do salar, começamos a andar por estradas de chão que, embora pareçam mais trilhas de aventureiros no meio do deserto, são as únicas estradas que existem na região quase totalmente desabitada. Aqui, a paisagem é árida e poeirenta, ao contrário do salar, que tinha pouco pó no ar e até evocava algo de praia.

No caminho, lembro de termos passado por dois sustos. O primeiro foi que uma mulher boliviana, vestida a caráter, apareceu do nada do meio da estrada fazendo sinal para que o motorista parasse, toda esbaforida. Eles trocaram algo num espanhol bem rudimentar, incompreensível para nós, que depois foi explicado como sendo um pedido para que conseguíssemos ajuda para outro veículo que tinha quebrado numa estrada paralela. Não entendemos muito bem se o motorista repassou a responsabilidade à outra caminhonete que vinha logo atrás ou o quê, mas sei que não perdemos muito tempo ali e nem vimos o que tinha de fato acontecido com o outro carro.
O segundo susto foi quando freamos subitamente no meio da estrada, pelo fato de o motorista ter visto quase em cima da hora que havia um fio de luz caído entre dois postes meio tortos, atravessando a estrada. Se o fio fosse resistente e tivéssemos nos chocado, o estrago seria grande, bem na altura do radiador do veículo.

Os estragos na estrada se deviam, em boa parte, aos temporais que tinham acontecido alguns dias antes do nosso passeio. Alojamentos haviam sido destelhados, nuvens de areia e poeira tinham tirado toda a visibilidade e passeios tiveram que ser cancelados pouco antes de chegarmos a Uyuni.

O dia foi escurecendo e já eram mais de 19h30 quando chegamos ao alojamento em um lugarejo identificado com San Juan. Embora fosse um povoado com gente morando – não mais do que umas centenas – esse foi o lugar mais, qual seria a palavra, remoto em que eu já passei a noite. A impressão era de algo totalmente no meio do nada, longe de tudo e de todos – ainda mais do que no alojamento da noite seguinte, nas margens da laguna Colorada.

O alojamento era um prediozinho comprido, de um andar térreo só, com uns 10 ou 12 quartos com tamanho suficiente para duas camas (embora alguns tivessem três), um ao lado do outro, com um corredor na frente e uma única portinha para o pátio de entrada. No final do corredor, havia um banheiro, unissex, com dois vasos sanitários e um chuveiro, além de duas pias.

Graças à tecnologia e à engenhosidade humana, o lugar contava com um grande conforto da vida moderna: aquecimento do chuveiro a gás, pela módica contribuição de 5 bolivianos, por fora do preço da hospedagem, a ser pago ao dono do local, que mora com a família numa casa ao lado, onde também é servida a janta e o café da manhã. Outra possibilidade para o melhor conforto dos hóspedes era pagar mais 5 bolivianos para usar uma tomada de energia elétrica na casa do proprietário e carregar baterias de câmeras digitais ou filmadoras – algo essencial devido ao fato de que o frio extremo faz as baterias descarregarem mais rapidamente.

A preocupação do guia com a hospedagem acabou não fazendo sentido algum naquela noite. Fomos o primeiro grupo a chegar no alojamento e, até umas 23hs, o único. Pudemos escolher os quartos e tomar banho com tranqüilidade, antes da janta. Até emprestamos papel higiênico e mais algumas coisas aos holandeses, que estavam totalmente despreparados para passar a noite num lugar sem aquecimento que chegava a temperaturas de -10°C no meio da madrugada.

A janta foi servida depois de um chá com bolinhos de entrada. Havia milho cozido e uma galinhada. Por fora da janta incluída no passeio, ainda pedimos umas garrafas de vinho, surpreendentemente uns Concha y Toro muito bons em garrafas de litro, maiores do que as usuais de 750ml. O preço, como tudo na Bolívia, era uma barbada.
Houve uma surpresa no meio da janta. Do nada, apareceram três menininhos com instrumentos musicais de sopro e percussão, para tocar e cantar músicas folclóricas ao melhor estilo “índio peruano pedindo dinheiro na praça”. Perguntamos as idades, dada a cara de criancinhas muito pequenas, e nos surpreendemos como eram pequenos e infantis para crianças com idades entre 8 e 12 anos de idade. Até tentamos participar e acompanhar o show particular, mas nem eles e nem nós estávamos com muita vontade de curtir as musiquinhas que tinham como único objetivo nos arrancar alguns trocados. Uns 15 minutos depois eles já estavam indo embora com seu dever cumprido.
Ficamos conversando com o guia, com os holandeses e com a guria de Porto Alegre que formavam o nosso grupo, e até tentamos uma interação com os tímidos donos da casa que serviam a retiravam os pratos. Matamos umas três garrafas de vinho e fomos dormir, tomando coragem para suportar o frio de uma noite que estava com o céu totalmente estrelado, indicativo de ainda mais gelo.

27/04/2010

Isla del Pescado

O trecho entre o hotel de sal e a Isla del Pescado, se bem me lembro, é o mais longo que se anda por dentro do salar. Ali sim se tem a noção de estar no meio do nada, indo para lugar nenhum, já que a vista nos 360° ao redor do veículo é basicamente igual: um mar branco sem fim, com montanhas ao longe, tudo coberto por um céu azul.

Como eu já fiz questão de destacar num dos posts sobre a preparação da viagem, é essencial levar óculos escuros, de preferência polarizados, para não perder essa vista toda. A claridade é muito forte e uma dor de cabeça acaba se tornando algo quase inevitável se a pessoa não levar um óculos.

Chegamos à Ilha do Pescado um pouco depois das 13h. O guia e motorista “Edson” estava preocupado em não chegar muito depois dos demais veículos, porque dizia que à noite quem chegava primeiro garantia as melhores acomodações nos alojamentos noturnos em San Juan, enquanto que os últimos podiam até mesmo ficar sem alojamento, tendo que dormir na caminhonete. O almoço era sua referência sobre a posição que estava nessa “corrida”.

Assim que aportamos, ele pediu que esperássemos ao redor do veículo para que ele arrumasse a mesa para o almoço, que já estava pronto em potinhos de plástico. O passeio seria livre após a refeição.

Realmente, não levou mais do que 10 minutos para que as mesinhas estivessem armadas bem ao lado dos barrancos da “praia” da ilha do Pescado, com pelo menos umas quatro variedades de comida para o almoço, além de refrigerantes. Havia tomate em pedaços como salada, quinoa (substituindo o arroz como guarnição), pedaços de frango e bifes empanados de lhama para comer. A memória não está me ajudando, mas havia mais alguma coisa ainda.

Fizemos a refeição todos juntos e até tiramos algumas fotos. Logo depois, tratamos de pagar a entrada no parque nacional que representa a ilha (cerca de 15 bolivianos) e de começar o passeio pelas trilhas entre os cactus. Os únicos banheiros da ilha estão logo ao lado da bilheteria.
As trilhas a serem feitas estão todas sinalizadas, coisa rara na Bolívia. Basicamente conduzem a pontos mais altos da ilha no meio do sal, de onde se tem vistas interessantes do conjunto formado pelo mar branco, pela ilha crivada de cactus e pelo céu azul. Alguns cactus mais antigos até trazem placas indicando sua idade aproximada. Muitos são centenários e já estão mortos, conservando apenas uma casca seca prestes a cair a qualquer hora.

A maioria dos cactus é de tamanho grande, sendo mais altos que as pessoas ao seu redor. Os formatos não variam tanto, já que são quase da mesma espécie, mas cá e lá se vê algum turista brincando com a forma mais ou menos fálica de alguns ramos dos cactus.

No ponto mais alto, acaba se concentrando a maior parte do pessoal. É de onde se tem a vista de 360° da ilha. Há algumas pedrinhas amontoadas, como se faz em montanhas, e placas pedindo silêncio e respeito em homenagem aos deuses dos povos tradicionais.
Pequenas grutas e até algumas pontes de pedra formam as demais atrações que vão surgindo ao longo da trilha. O percurso todo leva algo em torno de uma hora, dependendo, é claro, da pressa do sujeito – na verdade todo mundo está ansioso para descer e tirar mais fotos brincando com a falta de noção de proporção que o salar dá, como naquele post de título surreal postado há algumas semanas.

24/04/2010

Nem tudo são flores no Salar

Segue reportagem publicada no Zero Hora dominical desse final de semana, relatando o caso de brasileiros que foram feitos reféns de manifestantes bolivianos enquanto faziam o tour pelo sudoeste boliviano, o mesmo que estou contando aqui no blog:

"Foi um dos piores dias da minha vida", relata jornalista feito refém na Bolívia
Com outros turistas, jornalista de ZH foi retido e ameaçado por nove horas na fronteira com o Chile
Luciano Peres | luciano.peres@zerohora.com.br

Foi, sem dúvida alguma, um dos piores dias da minha vida. Por nove horas, na última terça-feira, eu e outros 90 turistas estrangeirosviramos reféns de manifestantes, sofremos ameaças, passamos fome e frio e nos defrontamos com a intolerância e o desrespeito aos direitos do próximo, em um episódio que expõe a insegurança e a ausência do Estado na Bolívia do presidente Evo Morales.

– Foi aterrorizante – resumiu um companheiro de infortúnio, o moçambicano Ricardo Pereira, 24 anos, que, com a namorada, a portuguesa Pia Carona, 25 anos, viaja do Uruguai ao México e não pretende voltar tão cedo à Bolívia – possivelmente, jamais retornará.

O drama da terça-feira começou às 14h, no segundo de quatro dias de uma excursão pelo altiplano do sul da Bolívia, cujo ápice seria a visita ao magnífico salar de Uyuni. Em um Toyota Land Cruiser branco da agência de turismo Estrella del Sur, eu e mais cinco turistas havíamos acabado de deixar a lagoa Hedionda – como indica o nome em espanhol, bastante fedorenta, devido ao enxofre –, em cujas margens havíamos almoçado, quando deparamos com um bloqueio de manifestantes na estrada de terra.

Rapidamente, dezenas de metros atrás, outro grupo desceu de uma caminhonete e espalhou pedras pela rodovia, bloqueando o nosso e outros veículos lotados de turistas. Não parecia preocupante. Sabíamos que a região era palco desses bloqueios, mas as agências garantiam que os guias seriam capazes de evitá-los, usando desvios. Além disso, imaginávamos que seríamos liberados com rapidez.

Impotência

Bem, nada disso aconteceu. Depois de muita discussão com os manifestantes, os motoristas dos veículos se deslocaram para Abaroa, lugarejo paupérrimo na fronteira com o Chile. Lá, onde chegamos pouco depois das 15h, deveríamos ficar no máximo 15 minutos, segundo promessa dos sequestradores. Ficamos quase oito horas, em um crescendo de desconforto, impotência e tensão.

Foram retidos 17 Toyotas com turistas, incluindo pelo menos sete brasileiros – dois gaúchos (eu e um amigo, o porto-alegrense Claudio Creitchmann), quatro paranaenses e uma mineira.

Em um ponto da estrada, armados com pedras e paus, mais manifestantes nos aguardavam, e um vigia foi estrategicamente posicionado na capota de cada carro.

Desespero

Em determinado momento, o motorista do Toyota que levava os paranaenses tentou fugir do cerco, usando estrada secundária. Foi perseguido e bloqueado. À distância, pude ver seus ocupantes serem ameaçados com pedras. Um dos passageiros, Diogo dos Reis Ruiz, teria horas mais tarde papel importante no drama.

Alçado à condição de porta-voz improvisado dos reféns, deu uma entrevista em bom espanhol a um jornalista da emissora de TV ATB Canal 11, de Potosí, na qual disse o que todos pensavam: manifestávamos até alguma simpatia pelas reivindicações do grupo que nos sequestrou, mas não tínhamos responsabilidade por seus problemas – pelo contrário, estávamos ajudando o país, ao gastar nossos dólares na Bolívia e promover a imagem do país. Infelizmente, de nada adiantou.

Tensão

Por volta das 19h30min, já com o sol desaparecido e a temperatura em queda rumo a OºC, o drama parecia que ia acabar. A reunião dos manifestantes acabou, os motoristas foram informados de que, após terem pago 50 bolivianos (R$ 12,50) por carro, poderiam ir embora, e sequestradores gritavam “que se vayan”.

Apressadamente, os turistas subiram nos Toyotas para deixar o local. Acabou sendo o momento mais tenso. Uma facção mais radical não aceitou a decisão da maioria e montou uma barreira humana para impedir a saída. Nosso carro foi cercado pela turba. De algum lugar na escuridão, uma pedra foi lançada contra nosso veículo, arrancando um grito de susto da portuguesa Pia – mas sem machucar ninguém. A seguir, passaram a balançar o Toyota, até serem detidos pelos mais moderados. Fomos orientados a dar marcha à ré e voltamos ao ponto de partida.

A maioria, eu inclusive, já acreditava que passaríamos a noite sentados nos carros. O território chileno – as luzes do posto fronteiriço de Oyahue eram vistas à distância – parecia cada vez mais convidativo, mas o frio e os 10 quilômetros de caminhada no escuro tornavam impraticável uma fuga. Acabaram nos liberando, às 23h. Mas a tensão persistiu pelas horas e dias seguintes – atrás de cada curva parecia haver manifestantes prestes a nos sequestrar.

ZERO HORA