29/09/2010

Albergue de Mostar e despedida

Na hora de procurar albergue para ficar em Mostar, por tudo que li nos guias e pesquisei no site do Hostelworld, a melhor opção indicada era o Majda's Hostel (antigamente chamado de Majda's Rooms).

Todos os comentários acerca do albergue faziam especial referência à pessoa da dona do lugar e de seu marido, que seria muito atenciosos. Outra questão que se repetia nesses comentários era a necessidade de se fazer o tour pela região promovido pelo albergue, que seria imperdível e que faria todos quererem ficar mais tempo na cidade do que tinham previsto.

Esse clima todo de "é muito bom, não dá para perder" se repetiu logo que chegamos na cidade e conhecemos uma americana que estava voltando a Mostar, depois de uma semana viajando pela Croácia, de tanto que tinha gostado do pessoal do albergue.

De fato, eles são atenciosos... Só que em nossa opinião até demais. Assim que chegamos, estavam nos esperando na rodoviária e nos levaram até o dito albergue. Logo entendemos por que eles fazem questão de levar: seria quase impossível achar e muito cansativo desde a rodoviária.

O albergue, na verdade, é um apartamento de família com três quartos, com três beliches em cada um, num prédio residencial fora do centro da cidade, no lado ocidental da cidade (fica mais ou menos a quatro quadras da catedral franciscana recém reconstruída). Como a maioria dos lugares de Mostar, o prédio tem várias marcas de tiro nas paredes externas e até mesmo na escadaria de entrada.

O lugar não tem nada demais, a não ser pelo fato de parecer uma casa normal. Há apenas um banheiro, com uma máquina de lavar e secar gigante dentro, que o deixa insuportavelmente quente (embora a água do chuveiro seja fria).

Logo que cheguei, fui direto para o banho (fazia uns 35° na rua e eu estava completamente suado), mas os guris foram "sequestrados" pela Majda e levados para a sacada, onde serviu-se um chá e começou-se a "doutriná-los" acerca das normas da casa e do que havia para fazer na região. Cada hóspede foi "convidado" a desenhar a bandeira de seu país, escrever seu nome e colar na lateral da cama para indicar quem a estava ocupando (no check out a bandeirinha iria para um mural na sala de uso comum).

Quando saí do banho, senti toda a raiva contida da Majda contra a minha atitude de não comparecer à sua "preleção" e preferir ir direto ao banho. É claro que, por ser uma pessoa com um visual meio hippie e querer passar a ideia de tranquilidade o tempo todo (ela fica pedindo para que falem mais devagar, para que tenham mais calma), não seria bom para sua imagem se estressar comigo, mas a rispidez com que ela me tratou por não ter me submetido "às regras da casa" foi bem visível.

Assim que quisemos sair para almoçar e começar a passear, ainda tivemos de fazer o "treinamento" de como abrir as travas de segurança da porta da casa e só então fomos liberados.

À noite, quando voltamos dos passeios, falamos que sairíamos bem cedo da manhã (compramos passagens para o ônibus das 7h, para Dubrovnik) e tivemos de escutar que era cedo demais. Perguntamos se havia táxi e ela em princípio disse que veria o que podia fazer.

Demos mais uma saída e voltamos lá pelas 2 da manhã, e foi quando a encontramos já com uma roupa de dormir dizendo que tinha conseguido um táxi para a hora que precisávamos e que era para irmos dormir em silêncio, pois ela estava "very, very tired".

Enfim, ela não foi com a nossa cara e nós não nos submetemos a ela, por isso o conflito. No dia seguinte, porém, ficamos sabendo que ela também tinha sido ríspida com outra mochileira turca, que pediu para ficar mais um dia e simplesmente foi conduzida para fora do albergue. Acho que não era um dia bom para a Majda...

E a despedida de Mostar ocorreu às 7h da manhã. Lá pelas 6h e pouco, nossa "carona" à rodoviária apareceu e, numa das situações mais inusitadas da viagem, não falava nem inglês, nem alemão nem qualquer língua que não servo-croata. Na base da mímica, nos entendemos e conseguir chegar tranquilos na rodoviária, a tempo de tomar um café e embarcar.

27/09/2010

Mais sobre Mostar


Mostar não é só desgraça, como pode ter ficado parecendo depois dos posts anteriores. A cidade é realmente a mais interessante de toda a Bósnia Herzegovina, segundo a maioria dos guias, dos mochileiros e na nossa humilde opinião, e também uma das mais bonitas.

Como é um lugar pequeno, não espere muita coisa para ver e fazer na própria cidade. Entretanto, se a ideia é relaxar e curtir por dentro uma cidadezinha com cara de medieval, conhecer mesquitas e mesmo ouvir as histórias que os sobreviventes têm para contar – ou, ainda, quem sabe até se arriscar num banho gelado nas águas do Neretva – não há do que se queixar.
O centrinho está cheio de lojas, bancas e antiquários vendendo bastante bugigangas, souvenires e alguns itens legais do tempo do comunismo e das guerras. Como em todo o país, os preços são menores do que na maioria da Europa, mas por causa do turismo crescente essa barateza tende a cada vez mais diminuir.

Come-se muito bem em Mostar. Experimentamos coisas bem diferentes, como pernas de rã fritas, risotos de frutos do mar, pratos com carne de carneiro. Mesmo os restaurantes no lugares mais legais, na beira do rio e de frente para a Ponte Velha, têm preços acessíveis, por isso vale a pena pegar uma mesa num lugar bacana. As garçonetes atraem os transeuntes na rua principal, principalmente na margem ocidental do rio.
À noite, para nossa surpresa, a cidade tem opções bem legais de bares e até de lugares com cara de boate. Mesmo numa segunda-feira, como foi o nosso caso, havia vários bares cheios, principalmente de turistas. Um dos lugares em que estivemos mais cedo da noite e que pareceu o mais legal fica logo à direita da rua Gupca Onescukova, umas duas quadras antes da Ponte, do lado ocidental do rio. Há vários bares com mesas numa área comum a céu aberto, quase do tamanho de uma quadra. Não tem como errar. Outro, para ir mais tarde, é a caverna natural transformada em lounge de um bar no lado oriental do rio, a cerca de uma quadra da Ponte – também não tem como errar.

24/09/2010

Mostar - Franco-atiradores


Um dos pontos altos de nossa passagem por Mostar foi uma "atração" tecnicamente fechada para turistas: o prédio mais alto da cidade, que nunca chegou a ser completamente terminado, e que foi utilizado por franco-atiradores bósnios croatas no conflito com os bósnios muçulmanos.

O prédio tem cerca de 8 andares, contando a cobertura, e era totalmente revestido de janelões de vidro. Foi feito para ser um banco, e por isso até hoje é referido em inglês como o "Glass Bank".A vista que se tem lá de cima é privilegiada: quase 360°, bem no centro novo da cidade. Isso foi um chamariz irresistível para que fosse ocupado durante a guerra e passasse a servir de ponto de apoio para franco-atiradores que miravam nos cidadãos passando lá embaixo.

As balas iam e vinham do prédio - ele também era alvo de pistolas e metralhadoras, por isso foi completamente destruído em sua fachada exterior.
O prédio está abandonado desde aquela época, embora haja estudos para aproveitar sua estrutura e restaurá-lo.O andar térreo está praticamente aberto, embora haja marcas de tapumes mais antigos vedando acesso ao seu interior. A escadaria que dá acesso ao segundo andar e aos demais é que foi lacrada com grades, mas as pessoas acabaram entortando alguns pedaços de ferro e é por ali que os curiosos (e "corajosos") entram para conhecer os andares mais altos.

Ninguém de Mostar recomenda visitar o lugar, dizem que está fechado. Ficamos sabendo que era possível entrar por outros mochileiros que conhecemos, mas sempre recomendam que não se fique lá depois que escurece, porque o local é frequentado por drogados (como pudemos conferir pelas seringas no chão).


O surpreendente foi encontrar vários cartuchos de balas ainda no chão, mesmo depois de 15 anos do fim da guerra. Não tem como não ficar pensando em quem sabe quantas pessoas podem ter sido mortas com um daqueles ali...

21/09/2010

As 2 guerras de Mostar

Esquina de duas das ruas mais importantes de Mostar, em julho de 2010

Mostar é a cidade mais turística da Bósnia-Herzegovina, desde a época da antiga Iugoslávia. Antigamente, isso se justificava principalmente por seu centro histórico bem preservado e pela Ponte Velha (Stari Most), declarada Patrimônio da Humanidade pela UNESCO. Com a guerra do início dos anos 1990, porém, a cidade foi quase completamente arruinada, mas mesmo assim voltou a ser o lugar mais visitado do país. Seja por causa da Stari Most, reconstruída em 2004, seja em razão das supostas aparições da Virgem Maria na vizinha Medjugorije, seja por causa das marcas aparentes da guerra que estão por todos os lados.


Mostar foi muito mais castigada do que Sarajevo na guerra e ainda tem um caminho muito mais longo para se livrar de todas as suas marcas.

A pergunta que todo mundo faz – sobre o motivo pelo qual a cidade foi tão severamente atingida – é respondida pelos locais de um modo simples e direto: é que não foi só uma guerra, foram duas.

A primeira guerra, que demoliu a maior parte da cidade, foi travada entre dois lados bem definidos: os sérvios do Exército Popular Iugoslavo (que era contra a independência da Bósnia-Herzegovina da Federação Iugoslava) versus muçulmanos e croatas, que juntos lutavam para expulsar o exército federal do país, numa união de esforços temporária.

Imagens da guerra nos anos 1990, expostas num museu de Mostar

Os primeiros bombardeios dos sérvios contra a cidade começaram em 12 de abril de 1992. Em junho do mesmo ano, os croatas e os muçulmanos conseguiram expulsar o Exército Iugoslavo para fora da cidade, mas eles ficaram nos arredores, bombardeando a cidade de longe, principalmente a partir das montanhas que cercam a cidade. Foram 18 meses de cerco. Nesse período, foram destruídas 14 mesquitas, a catedral católica, um mosteiro franciscano com uma biblioteca de mais de 50 mil títulos e outras dezenas de prédios onde funcionavam instituições civis.

Quando os sérvios haviam perdido o controle da maior parte do país, os croatas se voltaram contra os muçulmanos, para assegurar a independência de uma República Croata da Herzeg-Bósnia, que futuramente poderia ser anexada à própria Croácia.

Nessa segunda guerra, os croatas impuseram um cerco de 8 meses a Mostar. Nesse período, a cidade estava dividida em uma parte oriental, onde se concentrava o Exército da Bósnia, de maioria muçulmana, e uma parte ocidental, onde estava a Frente de Defesa Croata (os muçulmanos que moravam desse lado foram expulsos para o outro). Com o cerco, os croatas cortaram o acesso de comida e de ajuda internacional a Mostar e exigiam, pelo rádio, que todos os muçulmanos se rendessem com uma bandeirinha branca na janela de casa.

O saldo dessa segunda guerra foi a destruição quase completa do lado oriental de Mostar (quase tudo que há lá hoje foi reconstruído de 15 anos para cá), estupros em massa de muçulmanas e execuções em massa. Foi nessa guerra, por culpa dos croatas, que a Stari Most foi demolida (os iugoslavos haviam destruído todas as outras, menos essa ponte).

Só em fevereiro de 1994 a guerra oficialmente acabou, com o Acordo de Dayton.
Prédio ainda habitado, Mostar, julho de 2010

18/09/2010

Mostar e a sua ponte: Stari Most

Boa parte do tempo que se passa em Mostar é em função da Stari Most (Ponte Velha) e seus arredores (o próprio nome da cidade significa guardiã da ponte). A cidade é pequena e todo mundo vem ali para conhecer a tal ponte, que é Patrimônio da Humanidade e que, tragicamente, foi destruída na guerra em 1993, depois de permanecer em pé por mais de 420 anos (a versão atual foi terminada em 2004, sendo que durante o tempo em que ela estava derrubada, havia uma ponte provisória de cabos de aço e madeira).

A ponte é só para pedestres, toda feita em pedra, num arco que forma uma vista muito bonita quando olhada de lado. A pedra é bem lisa e, até por isso, foram colocados alguns degraus para evitar que as pessoas caiam. De uma certa forma, lembra um pouco algumas pontes de Veneza.
Ela serve para unir os dois lados da cidade velha, separados pelo rio Neretva. Uma das coisas mais surpreendentes é a cor desse rio: um verde esmeralda que pode ser visto de qualquer ângulo, faça chuva ou faça sol. O rio é típico de regiões montanhosas: é profundo, gelado e com pouca vida aquática.

No meio da ponte, é comum encontrar rapazes que ganham dinheiro se atirando lá de cima, de uma altura de cerca de 30m. Eles ficam na beirada da proteção, ameaçando se atirar por vários minutos, até que consigam reunir uma determinada quantia de dinheiro ou que alguém lhes pague um pouco mais para que se atirem imediatamente, com direito a fotos e filmagem. Dizem, ainda, que todo homem que mora na cidade, alguma vez na vida, pula também, em nome da tradição; caso contrário não é considerado homem de verdade.

Nos dois lados da Stari Most há torres que serviam para vigiá-la e que ajudam a apoiar as cabeceiras. Em ambos há possibilidade de subir por escadas e ter acesso a museus sobre a própria ponte e sobre a cidade; do lado ocidental, por onde a maioria chega, o museu é particular e só tem algumas fotos, a maioria do tempo da guerra. Do lado oriental, o museu é público (mas também pago) e os objetos à mostra são relacionados à construção e à reconstrução da ponte. Nesse museu há alguns vídeos passando continuamente sobre a história do lugar.

Da ponte, tem-se vista bonitas para os dois lados, com outras pontes ao longe. A melhor mesmo é a vista da Mesquita Koski Mehmed Paša, para o norte.

A mesma mesquita de Koski Mehmed Paša serve como o melhor lugar para bater fotos da ponte. Para isso, no entanto, é preciso pagar 2KM (moeda da bósnia, o que equivale a R$ 2,50) para poder subir no minarete (torre de onde os chamamentos para preces são feitos). O caminho é bem apertado e tortuoso pela escadinha de mão única do minarete. Uma vez lá em cima, embora a vista seja espetacular, o pouco espaço e aperto faz com que ninguém fique mais do que 5 minutos por lá.

15/09/2010

Trem Sarajevo - Mostar

Nossa única viagem de trem no mochilão aos Bálcãs nos fez acordar bem cedinho em Sarajevo. A saída, prevista para as 7h05 da manhã (só há dois trens nesse percurso por dia, o outro é às 18h00), ainda exigia uma corrida de táxi, visto que a estação fica a uma distância bem razoável do centro, ao contrário da maioria das cidades europeias.

Na hora marcada, estávamos todos de pé e prontos para seguir viagem. O táxi, chamado pelo cara da recepção que estava ali pela manhã, chegou rapidinho. Dessa vez, o sujeito não manjava nada de inglês e tivemos que apelar para o alemão para conseguir dizer para onde estávamos indo e entender quanto custaria a corrida.

Como não tínhamos tomado café da manhã no albergue, já que ele só seria servido mais tarde, tivemos que arranjar alguma coisa na estação de trem. Conseguimos uns cafés de máquina, dessas tipo Nescafé, e uns croissants ou coisa que o valha.

Quando já eram umas 7h00, fomos para a plataforma de embarque e, para chegar lá, passamos pela estação de trem mais suja e detonada que eu já tinha visto em todos esses anos de viagens. Estava tudo pichado, fedendo a mijo, com paredes descascadas e mofadas no corredor subterrâneo por baixo dos trilhos que dava acesso às plataformas.

As placas indicando qual plataforma servia para qual trem eram fixas, ao contrário da maioria das estações de hoje em dia, que têm mostruários eletrônicos. Elas indicavam as poucas linhas que existem naquela estação: Sarajevo – Ploče (que era a nossa, com parada em Mostar), Sarajevo – Budapest e Sarajevo – Beograd.

Nossa pontualidade, assim como a de umas outras quarenta pessoas que também estavam ali esperando o trem, não foi recompensada. Demorou uns 50 minutos até que aparecesse uma locomotiva solitária (que depois descobrimos nem ser a nossa). Mais alguns minutos e finalmente chegou o trem, vazio ainda.
Não havia mais do que uns 5 ou 6 vagões. Mesmo com uma passagem barata, as pessoas evitam o trem porque dizem que é muito lento comparado ao ônibus. Além disso, na época em que fomos, havia obras na ferrovia e parte do trecho seria feito em ônibus, como de fato aconteceu.

Os lugares encheram rápido e nem mesmo conseguimos ficar os quatro juntos numa cabine. A paisagem, no início, não tinha nenhum atrativo especial. Entretanto, depois começaram a haver vários túneis, curvas bruscas e montanhas e mais montanhas.

O trem foi serpenteando por pontes, encostas e entrando e saindo de túneis e aí pudemos entender porque os guias recomendam efusivamente que se faça esse trecho de viagem no trem, mesmo com o sucateamento da empresa ferroviária bósnia.

Mas, quando a coisa estava ficando ainda melhor, chegamos em uma cidadezinha chamada Konjic e tivemos que descer do trem para pegar o ônibus que faria a parte final da viagem até Mostar.

Mesmo assim, a parte de estrada não foi tão ruim. O tempo todo, o rio Neretva, o mesmo que banha Mostar, estava de um lado ou do outro, conforme as pontes iam se alternando. A viagenzinha ainda rendeu boas risadas por causa do motorista que corria tipo louco e de um bêbado chato que encarnou num dos guris e ficava puxando conversa.

12/09/2010

Sarajevo - Ferhadija


Ferhadija é o bairro mais central de Sarajevo. O estilo é bem diferente daquele visto no bairro turco logo ao lado. Aqui, a influência do Império Austro-Húngaro é visível. Os prédios tem aquele mesmo estilo dos prédios de Viena, inclusive nas cores.

Li em algum dos guias que esse bairro foi um dos primeiros do mundo a ter iluminação pública elétrica (dizem as más línguas que a cidade foi usada de cobaia porque ainda tinham medo de usar energia elétrica para esse propósito e preferiram testar ali, no tempo em que a Bósnia era como que uma colônia imperial).

Já estava escurecendo quando começamos a andar por suas ruas. Ficamos mais de meia hora bem em frente à igreja principal, assistindo a grupos de danças folclóricas de tudo quanto é lugar do leste europeu dando canjas de suas performances. Havia um festival de dança na cidade, que estava ocorrendo num outro parque ali perto, mas para fazer propaganda os grupos estavam fazendo apresentações de 5 minutos cada um.

Naquela hora, com as ruas cheias de gente, as apresentações rolando, deu para sentir bem o clima acolhedor da cidade. A capital do país, que tempos atrás estava abaixo de tiros, agora era um lugar simples, tranquilo, como alguma cidades do interior.

Ainda andamos um pouco em direção ao sul. Vimos os prédios do Banco Central da Bósnia e do Ministério de Finanças, que tem um estilo meio nazista (e efetivamente foram ocupados por eles na II Guerra) e o monumento ao Marechal Tito, com uma chama eterna, cheio de coroas de flores. Quando chegamos ao fim da parte exclusiva para pedestres, demos meia volta e escolhemos um café para tomar algumas Sarajevsko Pivo.
À noite, como era domingo, já tinham nos avisado que não havia muito o que fazer na cidade. As opções eram alguns pubs abertos (City Pub, Baghdad Café, Hacienda, etc.), todos muito próximos do albergue em que estávamos, no próprio bairro de Ferhadija. O The Club, que seria o lugar mais agitado nas sextas e sábados, também fica por ali, mas no extremo sul do bairro, em direção à estação de trem, perto da maior mesquita de Sarajevo. Com a chuva fina que começou a cair à noite, decidimos só tomar mais umas cervejas e não chegava a 1h30 quando voltamos ao albergue para dormir.

Ao contrário da noite anterior, em Istambul, a temperatura já estava extremamente agradável e tudo conspirava para uma boa noite de sono, com direito a chuvinha fina caindo e tudo. Não sei se por causa do cansaço acumulado, se porque tomei ou comi alguma coisa que não fez bem, contudo, foi uma das minhas piores noites na viagem. Acordei uma hora para ir ao banheiro e só voltei a dormir umas três horas depois. Enquanto isso, tive a “oportunidade” de ficar ouvindo vários muezins ao longo da noite fazendo cânticos para chamar os fiéis à reza!

10/09/2010

Sarajevo - Vratnik

Logo depois da Praça dos Pombos, ao noroeste, começa uma subida que marca o início do bairro de Vratnik.

A primeira coisa interessante que encontramos nesse lugar foi uma loja de antiguidades com artigos supostamente originais da II Guerra Mundial, logo do outro lado da avenida ao lado da praça. Até mesmo um cartaz em alemão de que “nessa loja é proibida aos judeus fazer compras" exposto na vitrine dava um “clima” para o lugar. Capacetes de soldados, condecorações militares, cédulas e moedas antigas, algumas bandeirinhas e outros itens para colecionar deixariam qualquer fanático por II Guerra entretido por um bom tempo.
Um pouquinho mais para cima e já se vê várias casas e sobrados com bastante marcas de guerra ainda nas paredes – lugares onde ainda não chegou dinheiro para restaurações.

Sem nos darmos por conta (o mapa do Lonely Planet que eu estava usando não ia muito além do centro), acabamos parando bem ao lado de vários pequenos cemitérios, quase no meio da cidade. O primeiro, e mais antigo de todos, tinha lápides quase ilegíveis e os guris chegaram até a duvidar que fossem lápides. Mas pela cor branca num gramadinho, não tinha como serem outra coisa.

À medida que fomos subindo, encontramos mais e mais cemitérios, a maioria de muçulmanos (o estilo das lápides mudam conforme a religião). Quando começamos a ler, vimos que a maioria esmagadora era de gente que morreu entre 1993 e 1994, período mais intenso do Cerco de Sarajevo, que é um dos episódios mais conhecidos da Guerra da Bósnia.

Os cemitérios são bem diferentes do que vemos por aqui. Parecem quase valas comuns ou cemitérios de indigentes, porque não há demarcações de onde foram feitos os buracos, apenas uma série de pequenos postes quadrados brancos, um ao lado do outro, com pouco espaço entre si, quase que aleatoriamente colocados na grama verde.Um pouco depois dos cemitérios, chegamos às muralhas de uma antiga fortificação, que inclusive tem um pórtico cobrindo a rua que dá acesso às partes mais altas do bairro. No caminho, numa área mais residencial, passamos por várias casas antigas, com sinais típicos da religião dos seus moradores (embora a maioria seja muçulmana, há casas com sinais católicos e até judeus).
Por fim, já cansados da subida, chegamos ao nosso objetivo: um mirante no alto das muralhas, do qual se podia ver quase toda a cidade, de onde são tiradas muitas das fotos que servem de cartão postal para Sarajevo. Apesar de valer a pena pela vista, o lugar tem cara de ser meio perigoso à noite ou para pessoas desacompanhadas, vez que há um pouco de lixo, algumas pichações e alguns indícios de que pessoas vão lá para se drogar (policiamento, então, nem pensar – acho que não vi um policial sequer na Bósnia inteira, a não ser na imigração).

Só de lá de cima é que percebemos que a cidade inteira era rodeada por cemitérios como aqueles que vimos de perto, enquanto subíamos.

Depois de quase meia hora de fotos, de tentativas frustradas de fazer uma panorâmica legal e de descanso, fomos descendo ladeira a baixo, por um caminho diferente (e sem atrativos) daquele pelo qual subimos.

08/09/2010

Sarajevo – Baščaršija

Baščaršija é o antigo bairro turco de Sarajevo. Pronuncia-se “bash-shar-shía” e era o centro da cidade durante o período em que a Bósnia fez parte do Império Otomano. Hoje, se você for olhar no mapa, ele ocupa um dos pontos mais ao norte da cidade (Sarajevo é uma cidade comprida, mas estreita, que fica quase toda ao longo do vale do rio Miljacka).

O lugar é cheio de mesquitas e de fontes de água em estilo oriental. Entretanto, não se parece muito com o que vimos na Turquia, porque, ao invés de mármore e de pedra, usa-se muita madeira e tijolos a vista na fachada dos prédios e na parte debaixo dos telhados. Pela cara das construções e pelos poucos tiros nas paredes, vê-se que muita coisa foi restaurada recentemente.

A rua principal, que é só para pedestres, chama-se Sarači, e na verdade é uma continuação da Ferhadija, a rua principal do bairro ao lado, onde fica o albergue. As atrações do bairro giram em torno de comida e de compras. Há cafés, joalherias, lojas de antiguidade, bazares, lancherias, lojas de artesãos e de souvenires uma ao lado da outra.

Como já era mais ou menos metade da tarde quando saímos do albergue para conhecer essa região, havia bastante movimento, mas com todo mundo andando num ritmo bem tranquilo, de quem passeia com a família num final de semana. Não há como dizer se há mais gente de fora ou gente da cidade mesmo, porque mesmo depois de 2 semanas na região eu não sei dizer quem tem cara de iugoslavo e quem não tem, mas a impressão (se eu tivesse que chutar) é de que a maioria das pessoas era de lá mesmo.

Uma cena frequente nas ruas de Sarajevo é a de um casal jovem de mãos dadas andando na rua, como namorados, em que o rapaz usa roupas bem ocidentais, na maioria das vezes uma bermuda e uma camiseta da Nike, Adidas ou alguma marca italiana, e a moça usa um vestido comprido muçulmano, com um lenço na cabeça. Ao contrário de países árabes, ali o islamismo não chega a impedir esse contato físico e demonstrações de carinho em público.

Há alguns pequenos museus no bairro, mas estavam todos fechados naquele domingo à tarde. Algumas mesquitas estavam abertas, mas a impressão que dá é a de que quem viu uma já viu todas. A maioria delas é bem pequena e não há nada de muito interessante do lado de dentro. Uma coisa que me chamou a atenção é que o relógio de uma torre de uma das mesquitas tinha os números em algarismos árabes, mostrando como era forte a presença do islamismo na cidade.
Ao lado do bairro turco, passa o rio Miljacka. Ali, a ponte mais antiga é justamente um dos pontos turísticos mais conhecidos da cidade, de que já falei em posts anteriores: a Ponte Latina.
Essa ponte é conhecida por um fato que todo mundo já deve ter ouvido falar quando estava estudando História no colégio ou para fazer o vestibular. Foi sobre ela, em 1914, que um nacionalista sérvio matou, com um tiro de revólver, o herdeiro do trono do Império Austro-Húngaro, o Arquiduque Francisco Ferdinando. Esse fato levou a Áustria a declarar guerra contra a Sérvia. A Rússia, aliada, desta, declarou guerra à Áustria, e depois disso outras potências vieram ao apoio da Áustria, dando início à I Guerra Mundial.

Durante o período em que a Bósnia fez parte da Iugoslávia, mudou-se o nome da ponte para homenagear o terrorista (Gavrilo Princip) e havia marcas de metal no chão indicando o lugar exato em que o nobre austríaco foi morto. Hoje, porém, as marcas foram removidas (levadas para um museu ali perto) e a ponte recuperou seu nome original. Há apenas alguns totens explicativos sobre sua construção e sobre o fatídico assassinato.

O principal ponto de encontro do bairro de Baščaršija, no entanto, é a “Praça dos Pombos”, onde há uma grande fonte de água, uma importante parada de transporte público e, claro, muitos pombos. Ela fica mais ao norte, no início do pé de morro em que fica o bairro de Vratnik.
Foi nessa praça que comemos o prato típico mais famoso (e pedido pelos locais) da Bósnia e de todos os países da ex-Iugoslávia: o ćevapi bósnio. Esse lanche, que também é chamado de burek ou pelo diminutivo ćevapčići, é feito com um pão chato e arredondado, do tamanho de um prato, cebolas e dois ou mais tipos de carne e salsichas grelhadas. As carnes usadas geralmente são de carneiro e frango (o porco não é comido em lugares muçulmanos, mas onde há ortodoxos e católicos romanos, é utilizado), com bastante gordura.
Depois de jogar o nome na internet, para descobrir a grafia correta, acabei descobrindo pelo Wikipédia que o cevapi nada mais é do que a pronúncia local do “bom e velho” kebab, que existe em qualquer esquina da Europa, mas tem origem turca. Kebab, assim como ćevapi, na verdade é o nome da carne, mas acabou sendo utilizado para se referir ao lanche inteiro.

Se nós gostamos? Não... Pão meio duro, carne muito gorda, cebola muito forte. Foi só dessa vez e nunca mais.

06/09/2010

Sarajevo - Albergue

O bonde que leva da estação de trens e da rodoviária ao centro de Sarajevo não é dos mais fáceis de entender. Assim que se entra, deve-se validar o ticket, no mesmo estilo dos bondes de Amsterdam, mas o problema é que não há sinais nem mesmo anúncio das paradas que ele faz. Olhar para fora também não ajuda muito, já que as paradas não têm nome e tampouco de consegue encontrar placas nas esquinas das ruas indicando em que lugar se está.

Nessas situações, o melhor mesmo é pedir ajuda a algum passageiro nativo. Perguntamos qual era a melhor parada para descer no centro, e uma mulher nos disse que bastava segui-la. O problema é que o bonde foi indo, indo, e nada de pararmos. Quando vi a Ponte Latina, que é um dos principais pontos turísticos da cidade, passando pela janelinha, vi que estávamos indo longe demais. Avisei aos guris para descermos, e assim fizemos na parada seguinte.

Quando descemos, finalmente me localizei no mapa da cidade e vi que tínhamos umas seis quadras para voltar em direção ao albergue, que fica bem na divisão entre os bairros de Baščaršija e Ferhadija.

Decidimos caminhar pelo calçadão no meio do bairro em direção ao albergue e, como era cedo da tarde, num domingo, encontramos as ruas do centrinho bem desertas. Entretanto, gostamos do que vimos. A primeira impressão das ruelas da região central de Sarajevo foi boa; são muito limpas, com vários cafés um ao lado do outro, com mesquitas e igrejas em todos os cantos, além de lojinhas e algumas banquinhas de lanches.
O albergue escolhido na cidade se chamava Hostel City Center, e fica na rua Saliha Mukevita, 2. O prédio fica bem no meio de uma quadra residencial e não chama muita atenção. Para entrar, há que se usar o interfone, no qual existe um adesivo com o nome do lugar (“HCC”).
A escolha desse albergue foi feita basicamente em função da localização. Havia outro melhor avaliado pelos usuários numa colina, na região de Vratnik, onde o ponto mais destacado pelos mochileiros que lá estiveram era a recepção calorosa da equipe que lá trabalha e os tours organizados pelo dono, além do caráter mais típico da residência em que o lugar funciona. A distância e a subida desse outro albergue, além do pouco tempo que teríamos em Sarajevo levou à escolha do albergue melhor avaliado na região central.

A primeira impressão, contudo, não foi das melhores. Quando apertamos o interfone, a primeira pergunta feita do outro lado foi se tínhamos reservas. Respondi que sim. Aí ele perguntou quantos éramos. Respondi que quatro. Aí ele perguntou se os quatro tinham reservas; respondi que sim. Finalmente abriu a porta pelo interfone e disse para subirmos os quatro lances de escada até o final.
O corredor e a escadaria não poderiam ser mais sujos e fedidos a cigarro. Quando finalmente chegamos lá em cima, o cidadão estava com a porta fechada ainda, e assim que abriu exigiu que deixássemos os tênis na entrada (depois vimos que em todos os lugares de muçulmanos se faz assim).

Antes mesmo de terminarmos o check in e de pagarmos, ele já estava perguntando se tínhamos sacos de dormir. Dois dos guris tinham e ele imediatamente “confiscou” os sacos, pedindo-os e colocando-os num armário, de onde só poderiam ser tirados no check out. (Geralmente os albergues proíbem que se usem sacos de dormir sobre as camas ao invés dos lençóis por eles alugados ou fornecidos, mas esse cara levou isso muito a sério!)

Ainda fizemos algumas perguntas sobre o que fazer na cidade, como era a viagem de trem a Mostar, como poderíamos chamar um táxi pela manhã, etc., mas as respostas eram todas meio toscas, como o indivíduo que as dava.

Apesar da antipatia do sujeito que fica na recepção durante o dia, o albergue é legalzinho. A área de uso comum é bem aconchegante, com um lugar cheio de almofadas e uma TV, separado de outra área com mesas, ao lado da cozinha. Até pelo fato de não se poder usar calçados do lado de dentro e de ser tudo de madeira bem clara, a impressão que passa é a de um lugar limpo. O quarto, que tinha só os dois beliches ocupados por nós quatro, também era bom. Assim que entramos abrimos uma janela no telhado, para arejar mais. Os banheiros é que deixavam um pouco a desejar – aparência de sujos e malcuidados, daqueles em que os primeiros conseguem tomar banho tranquilo, mas para os últimos o que sobra é água fria.

Dentre as opções de albergues em Sarajevo, apesar dos pesares, esse é o lugar que as pessoas recomendavam (inclusive gente de lá, quando perguntamos a um taxista, por exemplo), por isso acho que não adianta muito tentar outros lugares.

02/09/2010

Entendendo um pouco sobre a Bósnia

Para conseguir absorver um pouco do sentido das coisas que você está vendo ao seu redor quando está na Bósnia-Herzegovina, é importante saber um pouquinho sobre como é que funciona esse país.

A Bósnia-Herzegovina, normalmente referida apenas como Bósnia ou pela sigla BiH, era uma das repúblicas socialistas que faziam parte da antiga Iugoslávia. As outras repúblicas eram a Sérvia, Montenegro, Croácia, Macedônia e Eslovênia.

A Iugoslávia era uma federação, com certa autonomia para cada uma das seis repúblicas, mas com um governo federal fortemente influenciado pelos sérvios.

Paralelamente à questão geográfica da divisão em seis repúblicas, a Iugoslávia se dividia em diferentes etnias e religiões.

Os eslovenos e os croatas sempre foram eminentemente católicos romanos. Como estiveram a maior parte da história sob a influência da Itália e do Império Austro-Húngaro, sempre tiveram uma percepção de que são mais “ocidentais” que os seus vizinhos. A religião talvez tenha o papel mais importante nessa sensação. Além disso, sempre usaram o alfabeto latino em suas línguas, que são todas muito parecidas com as dos demais países da antiga Iugoslávia.

Os sérvios, parte dos montenegrinos e parte dos macedônios são majoritariamente católicos ortodoxos. Por essa razão, sempre foram mais próximos do russos, dos ucranianos e dos búlgaros do que dos países do Ocidente. O alfabeto cirílico é utilizado por eles na escrita (o mesmo alfabeto russo). Nos tempos em que foram dominados pelo Império Otomano e pelo Império Austro-Húngaro, sempre fizeram uma resistência cultural e política a essa dominação.

Os bósnios (ou bosníacos) são uma minoria dentro da ex-Iugoslávia que se converteu ao islamismo no tempo em que parte do país era dominada pelo Império Otomano. Usam alfabeto ocidental, mas tem hábitos mais orientais.

Por fim, existem minorias étnicas de albaneses – muitos são ateus, alguns são católicos – principalmente concentradas na Macedônia e numa parte da Sérvia que se declarou independente recentemente: o Kosovo.

Esse povo todo, fisicamente e linguisticamente, é muito parecido. Não há como olhar na rua e identificar quem é o que. A língua só muda em algumas expressões ou sotaques; todos se entendem mutuamente e, ao tempo da Iugoslávia, dizia-se que o idioma era um só – o sérvio-croata. Com a crise do comunismo e algumas ingerências do governo de maioria sérvia, aos poucos todas as repúblicas foram fazendo referendos para se declararem independentes e saírem da Federação. A Sérvia resistiu e usou o Exército Iugoslavo, que lhe era fiel, para tentar impedir, sem muito sucesso.

O grande problema da Bósnia-Herzegovina é que ela era a única república que não tinha uma maioria absoluta de nenhuma etnia. Havia praticamente um terço de croatas, um terço de sérvios e um terço de bósnios no seu território. Os bósnios, com apoio dos croatas, proclamaram a independência, mas os sérvios que moravam na Bósnia foram contra. Para eles, ou o país deveria permanecer filiado à Iugoslávia, ou deveria ser dividido ao meio, para posteriormente, eventualmente, reunir essa metade sérvia a uma “Grande Sérvia”.

Logo que a Bósnia ficou independente, os sérvios que moravam na Bósnia proclamaram a independência da República Srpska, mas quiseram aumentar seu território e, além disso, “limpá-lo” de qualquer resquício de croatas ou de bósnios que estivessem nele habitando. Com a ajuda do Exército Federal Iugoslavo, então, começaram uma guerra para tomar parte da Bósnia, para expulsar muçulmanos e católicos romanos de suas terras e para se afirmar como independentes.

Nessa guerra toda, os eventos mais conhecidos internacionalmente foram o Cerco a Sarajevo, que durou quase 4 anos e teve como objetivo inviabilizar a organização do Governo Bósnio na capital, bem como de fazer os não sérvios fugirem, e o Massacre de Srebrenica, que foi uma “limpeza” de bósnios de uma cidade que ficava na autoproclamada República Srpska.

A intervenção da ONU restringiu-se a garantir a neutralidade de Sarajevo, com o aeroporto funcionando para fazer chegar ajuda humanitária, enquanto que os outros se matavam nas ruas.

A paz só foi selada por um acordo, chamado acordo de Dayton, em novembro de 1995, que estabeleceu na Bósnia um governo representativo das três etnias e religiões, em sistema de rodízio, com três línguas oficiais e dois alfabetos, dividindo o território em duas unidades federadas com certa autonomia: a República Srpska (lado leste) e a Federação da Bósnia-Herzegovina (lado oeste), que são os 2 “Estados” do país chamado República da Bósnia-Herzegovina. Além disso, criou-se o distrito misto de Brcko e garantiu-se a neutralidade de Sarajevo.
Politicamente, ainda há divergências entre as duas partes do país, mas num nível humano, as relações se normalizaram. Alguns resquícios de rusgas podem ser vistos em pichações tapando inscrições no alfabeto cirílico ou pelo fato de que as estações rodoviárias para as cidades de um e de outro lado do país serem separadas. Os trens de uma parte do país também não entram na outra: a locomotiva e o pessoal de bordo é trocado na fronteira dos “estados”.
No mapa acima, a Federação Bósnia-Herzegovina (maioria de croatas e muçulmanos) está em lilás; a República Srpska (sérvios) em rosa. O Distrito de Brcko está em verde.

Para o turista em geral, há pouco a ver no lado oriental (a República Srpska). Mostar e Sarajevo, além de Medugorije e dos castelos no interior, ficam todas na Federação da Bósnia-Herzegovina, supostamente um lado mais receptivo ao turista ocidental e mais hospitaleiro, segundo dizem.


Estatisticamente, vi algo durante a viagem dizendo que 80% dos crimes de guerra foram cometidos pelos sérvios, 15% pelos croatas e 5% pelos bósnios, mas isso é muito polêmico e os sérvios sempre acusam o Ocidente de ter escolhido apenas a versão dos croatas e dos bósnios, que seriam os malvados da história, na versão oriental.