28/09/2011

Colonia del Sacramento

Colonia del Sacramento é uma das cidades mais antigas da região da Bacia do Rio da Prata e tem a peculiaridade de ter sido fundada por portugueses, em meio a terras que quase sempre falaram espanhol.
 
Nas idas e vindas da linha que marcava a divisão da América do Sul entre espanhóis e portugueses, pelos Tratados de Tordesilhas, de Madrid e de Santo Ildefonso, a cidade foi uma tentativa da Coroa Portuguesa de se afirmar como um poder na região, evitando deixar todo aquele importante canal de navegação exclusivamente nas mãos dos espanhóis, já instalados em Buenos Aires. Aliás, à noite é possível ver as luzes de Buenos Aires, a dezenas de quilômetros do outro lado do rio, brilhando no horizonte.

A cidade foi, inclusive, a mais importante fortificação na província Cisplatina, parte do Império do Brasil até a independência do Uruguai, logo depois da Guerra que levou o nome da província.

Por tudo isso, até hoje é possível ver em Colonia muita influencia portuguesa, desde nomes de ruas e restaurantes, até nos azulejos típicos da nossa antiga metrópole. 

Só fui conhecer a cidade em junho de 2010, quando fui de carro daqui de Santa Maria até lá. São pouco mais de 700 km, a maior parte deles na Ruta 5, estrada que corta o pais de norte a sul, entre Rivera e Montevideo. Com alguns desvios por Trinidad e Cardona, não foi difícil chegar lá. Muita gente, como eu, prefere deixar o carro num estacionamento em Colonia para seguir viagem a Buenos Aires de barco, e fazer as coisas na cidade argentina de metrô ou de táxi. Ao invés de seguir viagem sem uma parada, porém, decidi dormir uma noite na cidade e reservar umas 24 horas para conhecê-la decentemente.

Reservamos um hotel bem pertinho do famoso pórtico do centro velho, onde a circulação é parcialmente restrita, e fizemos tudo a pé.

A cidade é uma das mais tranquilas que já conheci, com bem pouca gente circulando, muitas árvores fazendo sombra e largando folhas nas ruas, que ainda são em sua maior parte de paralelepípedos. Como a maioria das cidades uruguaias, as casas são quase todas emendadas umas nas outras, com apenas um andar e com ornamentos do início do século nas fachadas. Claro, o fato de ser o dia de estreia da seleção uruguaia na Copa do Mundo de 2010 também contribuiu para que ainda menos gente estivesse fora de casa – mas depois que o jogo acabou só se viu um pouquinho mais de movimento.

Apesar do aparente tédio dessa descrição, o lugar cativa e até dá vontade de vir outra vez, para ficar sem fazer nada. Come-se muito bem nos restaurantes e bares e também é possível arranjar alguns roteiros culturais, históricos ou de observação da região em embarcações. Parece um lugar parado no tempo com algumas cenas que até remetem a uma coisa meio Cuba, tipo um carro dos anos 50 parado num meio-fio todo bonito e outro ainda mais velho já sendo usado como floreira.

No cartão postal de Colonia, o pórtico principal, uma entrada na muralha que protegia a cidade, ainda é possível passar por cima de uma ponte elevadiça, sustentada por pesadas correntes. Do lado de dentro do centro antigo, também é possível subir nas muralhas e caminhar em alguns trechos. Não é muito alto e até tenho minhas dúvidas da eficácia daquela construção como proteção.

Logo ali, do lado de dentro, fica outro ponto conhecido da cidade, a Calle de los Suspiros, uma ruazinha preservada com casario de quase 200 anos. As explicações sobre o nome da rua vão desde o fato de ter sido lugar por onde passavam os prisioneiros condenados, até a circunstância de ter sido a zona da luz vermelha da cidade por um período.

Outra atração próxima é o farol, mantido pela Marinha uruguaia, e que pode ser visitado pagando um ingresso baratinho. Uma escadaria em espiral leva ao ponto onde se faz a manutenção do holofote e a uma sacadinha circular de onde se tem uma vista legal da cidade a partir de seu centro antigo.

Ali ao redor, no fundo da praça, há algumas ruínas de prédios que foram usados pelo governo da cidade em tempos coloniais e de igrejas e capelas que existiam. 

Entre essas ruínas e o porto, fica um museu do azulejo, que não precisa de mais do que alguns minutos para ser conhecido.

O porto da cidade tem um paredão que possui uma calçada que chama para uma caminhada. Indo em direção à marina, onde existem alguns iates privados e outros barcos menores, passa-se por alguns cafés e bares que também pedem um momento de descanso.

Foi por ali mesmo, com a bela vista do por do sol no Rio da Prata, que terminamos aquele dia, já em clima de comemoração do Dia dos Namorados, que começaria na manhã seguinte para nós, brasileiros. Depois de voltar para o hotel, só saímos para jantar num lugar chamado Anjo Preto, na outra praça do centro antigo, com música ao vivo e comida muito boa também.
 
 
 
Um passeio mais completo pela cidade teria ainda que contemplar uma visita à antiga arena de touros, que foi feita numa época em que um empresário argentino queria tornar a cidade uma referencia regional em lazer – mais ou menos aquilo que deu certo em Punta e, em certa medida, em Piriápolis, mas que não passou de um empreendimento mal sucedido em Colonia. Para quem curte (e tem dinheiro), a cidade ainda oferece campos de golfe, além de um shopping de grifes internacionais, na região mais próxima da saída para Montevideo.

26/09/2011

Buquebus

Depois de uma noite virada sem dormir nadinha, que culminou com um jogo das finais do Campeonato Mundial de Rugby entre Inglaterra e França, na sala de uso comum do albergue em que fiquei na primeira vez que fui a Buenos Aires, fui me arrastando até o porto para pegar o Buquebus em direção ao Uruguai, segunda etapa do meu mochilão.

A imigração argentina e uruguaia, para meu espanto, era feita quase simultaneamente, ali mesmo no porto argentino. Tudo é muito fácil e confortável, sendo as instalações bem legais. O próprio interior do barco que faz a travessia também me surpreendeu muito positivamente, com sofás, poltronas largas, lojas, lancherias e vários telões grandes passando filmes.

O ambiente era tranquilo, como o de uma sala de espera de um aeroporto chique, com as pessoas lendo, assistindo filmes, olhando vitrines ou brincando com os filhos. Curti muito a viagem em si, mas não aguentei de tanto sono e acabei dormindo logo depois que me acomodei numa poltrona.

Quase duas horas depois, chegando a Colonia del Sacramento do lado uruguaio, prestei um pouco mais de atenção na paisagem e vi que não tinha perdido muita coisa do lado de fora. O Rio da Prata, para quem não conhece, é um marzão sem fim de cor marrom, com margens planas e sem nada especial. 

Ao tocar o porto uruguaio, tudo foi muito rápido. Assim que as portas do barco se abriram, várias pessoas já estavam saindo com seus carros de dentro dos compartimentos onde eles são transportados e outros tantos, como eu, seguiram as indicações até o ônibus que faria o trecho final da viagem, até Montevideo.

Acabei não conhecendo nada de Colonia naquela primeira vez em que estive no lugar, mas como pretendo contar no próximo post, trata-se de uma cidade bem interessante, com atrações históricas e um clima tranquilo, que vale a pena ser conhecida em algumas horas ou até mesmo uns dois dias.

Minha viagem seguiu pela Ruta 1, até Montevideo, que tem boa parte duplicada e um outro tanto com coqueiros decorando o caminho, que também é (ou era) quase todo feito com concreto asfáltico, ao invés de asfalto simples. O barulhinho das rodas naquele tipo de pavimento, que parece o de um trem, só serviu para me dar mais sono, e foi assim que dormi até chegar perto dos subúrbios de Montevideo.

Os ônibus da Buquebus, como os demais que chegam à capital uruguaia, encostam no Terminal Tres Cruces, a estação rodoviária associada a um shopping pequeno, no início da avenida que leva ao estádio Centenário e a umas 20 quadras do centro velho da cidade.

A Buquebus, para quem não sabe, é uma empresa muito tradicional na ligação entre a Argentina e o Uruguai e a principal responsável pelo grande fluxo de turistas portenhos que invadem Punta del Este no verão. Hoje em dia, eles contam até com alguns aviões, no ramo da empresa conhecido como BQB Linhas Aéreas. No mesmo site, é possível conjugar passagens aéreas, rodoviárias e de barco para fazer um determinado trecho, comparando horários e preços disponíveis. Existem barcos mais rápidos, ferries para levar carros, categorias diferentes de passagens e a possibilidade de pagar por tudo isso com antecedência, com cartão de crédito. Mas prepare-se, porque não é das coisas mais baratas.

24/09/2011

Numa segunda vez


Buenos Aires é uma cidade em que sempre se tem algo novo para ver e fazer e que certamente ainda vou visitar várias vezes na vida, nem que seja para uma conexão com destino a outro lugar mais ou sul ou quem sabe na Oceania.

Dentre as atrações menos conhecidas da cidade por quem vai para lá pela primeira vez, poderia citar a região de Tigre, no delta do rio Paraná, a alguns quilômetros ao norte do bairro de Belgrano. Até hoje não conheci o lugar, mas colegas de trabalho que foram disseram que realmente é muito bonito e que vale muito a pena.

Outra atração é o Cemitério da Chacarera, onde está enterrado Carlos Gardel e outros personagens famosos da Argentina. Embora não tenha a mesma força daquele localizado na Recoleta, também costuma levar muita gente a conhecê-lo (alguns por engano, procurando Evita, é verdade).

Num dia chuvoso em junho de 2010, sem muita opção de turismo, acabei voltando a um shopping que tinha conhecido rapidamente em 2008, o Abasto. 

O shopping Abasto fica no prédio do antigo mercado público do bairro de mesmo nome, que também é famoso por ter uma estatua de Gardel, em tamanho real, na pracinha que fica bem na frente da sua saída principal. É um dos maiores centros de compras de Buenos Aires, localizado numa região central, mas não vá esperando algo gigantesco nem espetacular. A beleza da construção, no entanto, já vale uma visita (e um sorvete da Freddo, para não perder o costume).

A região de Abasto também concentra alguns daqueles shows de tango para turista, com jantar e aulas de iniciação de tango incluídas. Se você fizer como eu, que deixei para a última hora a reserva do Señor Tango, que fica no bairro de Barracas (perto da Boca), vai acabar se socorrendo de alguma opção por ali mesmo. O sistema é o mesmo do primo famoso: o pacote inclui o transporte do hotel para o evento e vice-versa, bem como um menu de três sequencias, com show de uma hora a uma hora e meia. É o “show de mulatas” deles, mas uma hora ou outra você também acaba indo conhecer. 

Outra coisa que só fui conhecer depois de algumas vezes tendo ida à capital argentina são os outlets da Avenida Cordoba, dos quais já falei em outro post. 

Embora hoje em dia estejam um pouco caros demais para continuarem sendo dignos do nome, valem a pena para quem estiver disposto a procurar bastante por algo, especialmente se o interesse forem roupas esportivas ou marcas conhecidas associadas à Argentina, como La Martina.

A maioria desses lugares não tem acesso por transporte público muito fácil (com exceção do Abasto, que tem uma estação de metrô conjugada no seu andar subterrâneo), por isso o melhor mesmo é rachar um táxi para ir direto.

22/09/2011

Malvinas






A Guerra das Malvinas, travada entre a Argentina e a Inglaterra em 1982, ainda está muito presente na mente dos argentinos, que têm como objetivo constitucional (sim, escrito na Constituição) o dever de recuperar a plena soberania sobre as ilhas Falklands (ou Malvinas). O detalhe: a constituição é de 1994, bem depois da derrota sofrida por eles.

Existem um feriado e dias nacionais dedicados à memória daqueles que perderam a vida no breve conflito com a superpotência, que os humilhou afundando inclusive um porta-aviões que tinha uma função muito mais simbólica e cerimonial do que de combate. A maioria dos soldados que perderam a vida lá vinham de províncias mais pobres, ao norte do país, e sequer estavam acostumados com o frio. Muitos morreram de complicações respiratórias e de doenças relacionadas ao frio, além de terem enfrentado problemas com falta de alimentos, vestuário adequado e logística.

Quase toda capital argentina ou cidade importante tem algum memorial numa praça pública ou rótula de avenida com os nomes dos caídos na guerra, além de haver algumas placas no meio do nada reafirmando que as ilhas são argentinas. 

Em Buenos Aires, o memorial fica na Plaza Libertador San Martín, perto da estação ferroviária e rodoviária do Retiro.
Ali, é possível ver um memorial com nomes de soldados, uma grande bandeira argentina tremulando e os símbolos das provínicas do país que enviaram militares para o conflito.

Quando visitei o lugar em março de 2008, ainda pude ver uma exposição de fotos dos restos ainda existentes dos tanques, das armas e até de roupas de militares em áreas não habitadas das ilhas Malvinas, tiradas por um fotógrafo jornalístico do Clarín. Algumas eram realmente bastante marcantes.
Os sentimentos em relação à guerra são mistos: alguns entendem que é uma questãod e orgulho nacional a recuperação da soberania e que foi a falta de competência dos governantes e a ausência de ajuda das nações vizinhas que conduziram à derrota, que não seria merecida. Outros veem na guerra um engodo da ditadura, que estava caindo e inventou esse fato para desviar a atenção da população para um objetivo comum, de inimigo externo.

Seja como for, a relação com a Inglaterra ficou bastante estremecida. E, curiosamente, a Torre de los Ingleses, essa bela construção de tijolos à vista com um relógio no topo, que fica bem na frente do memorial das Malvinas, teve de mudar de nome: agora se chama Torre Monumental.

20/09/2011

Puerto Madero


Puerto Madero é o bairro de Buenos Aires que surgiu do meio de galpões portuários abandonados e que tem sido citado, desde os anos 90, como o maior exemplo de revitalização de uma área urbana degradada na América Latina. Hoje, o que se vê por lá são hotéis de luxo, restaurantes para todos os gostos, muitos bem chiques, uma reserva ecológica boa para andar de bicicleta e algumas outras atrações, como a Ponte da Mulher, a Fragata Sarmiento e, mais para os lados da Boca, um barco cassino. A filial da boate espanhola Pacha também fica no bairro.

Tudo isso fica a apenas umas duas quadras atrás da Casa Rosada, que está no coração do centro de Buenos Aires. Ou seja, muito perto de tudo.

A característica desse peculiar bairro é uma sequência de mais de 2km de prédios com cara industrial, de tijolos à vista, mas recheados com escritórios de arquitetura, sedes de empresas modernas, e até apartamentos, nos andares superiores, e restaurantes e mais restaurantes nos andares inferiores.

Tudo isso é contornado, de um lado, por uma avenida bem movimentada que o separa do resto da cidade e que dá acesso a estacionamentos subterrâneos, próximos dos restaurantes, e de outro lado por um calçadão que serve de pista de cooper, lugar para levar o cachorro para passear ou simplesmente local para caminhar lentamente tomando mate, enquanto se olha para o rio e para os prédios altos dos hotéis de luxo do outro lado.
 
Naquela primeira vez em que estive na cidade, a pouco que vi do bairro foi quando fui até o porto para comprar minha passagem para o Buquebus, o ferry boat que faz a ligação com o Uruguai, por Colonia ou por Montevideo, diretamente. Noutra vez, quando fui a um show dos Rolling Stones na cidade, só dei uma circulada por lá de carro, no meio da madrugada, para matar tempo até um voo que sairia às 6h da manhã do Aeroparque. 

Só fui conhecê-lo melhor em 2008, com a Gisele, quando caminhamos pelo seu calçadão, atravessamos a ponte da Mulher (uma escultura em forma de ponte para pedestres que homenageia as mulheres) e escolhemos um dentre muitos restaurantes para um dos melhores almoços que já fizemos em todas as nossas viagens.

Uma curiosidade do lugar é que um cara meio rico e de esquerda comprou um espaço comercial e cedeu a uma organização sem fins lucrativos que serve refeições a custos populares para as camadas de baixa renda, bem num dos pontos mais movimentados daquela área. Desafiadoramente, ele dispunha um aviso que dizia algo como “esse restaurante popular só vai sair daqui o dia em que os argentinos pobres comerem melhor do que os cães dos argentinos ricos”. Forte!

18/09/2011

Caminito


Só fui conhecer o Caminito quando voltei a Buenos Aires em 2008 e confesso que não achei tudo aquilo que muita gente fala de lá.

É legal, é pitoresco, mas para mim ficou parecendo muito com um parque temático. Sim, porque tudo ficou tão “caracterizado” e tão voltado para o turista, que nada parece muito autêntico. As verdadeiras casas do bairro da Boca, para mim, são aquelas bem mais mal cuidadas na região próxima da Bombonera.
 
De certa forma, também, é um pouco constrangedor ter que ficar desviando de casais de dançarinos de tango que se oferecem para tirar fotos com os turistas em troca de alguns pesos, ou ainda de basicamente ficar entrando de lojinha em lojinha (porque tudo por ali são lojinhas em prédios históricos restaurados – ou restaurante e bares, nenhum de muita qualidade). Há uma poluição sonora violenta, porque um bar tenta levantar a sua música para o show de tango mais alto que a do bar vizinho, e aí já se imagina como tudo fica.
O lugar, como já disse no post sobre a Boca, é bastante policiado e por isso, em tese, não há qualquer problema de segurança, ao menos durante o dia. Entretanto, eles próprios recomendam que não se vá para além dos limites da zona turística, que basicamente são quatro ruas ao redor de uma quadra (uma delas sendo a Calle Caminito) e uma praça.

De outro lado, se você precisa levar algum souvenir da viagem e ainda não encontrou muita coisa no restante da cidade, veio a o lugar certo!

16/09/2011

Colón y Obelisco

O Teatro Colón é uma das atrações mais interessantes para se conhecer em Buenos Aires, na minha opinião – mesmo que seja para fazer só o tour, e não em dia de espetáculo.
O prédio passou vários anos fechado entre 2003 e meados de 2010, quando finalmente reabriu para as comemorações do bicentenário da independência argentina.

Tive a oportunidade de conhecê-lo antes da reforma, num tour agendado para a metade da tarde, que na época não custava mais do que uns 15 reais por pessoa. Bastava se inscrever e o pagamento seria feito na hora de começar o passeio.

Grupos de 30 pessoas com acompanhamento de guia local eram levados pelo saguão de entrada traseiro, todo cheio de mármores e granitos italianos, depois seguiam para o interior do salão principal, onde podiam inclusive ir até as cadeiras dos camarotes principais, onde existe uma cadeira dedicada ao Presidente da República e outra ao Prefeito da Capital argentina.

A parte mais interessante são os bastidores. O teatro Colón é apenas a “ponta do iceberg” de uma estrutura subterrânea gigantesca, que se espalha por baixo das avenidas que o circundam e até mesmo por um pedaço de uma quadra vizinha.

Lá embaixo, há uma série de palcos auxiliares, para ensaios, além de salas de estudo, almoxarifados, guarda-roupas com o vestuário usado em óperas e peças apresentadas no lugar, além de perucas, cenários e muitas fotografias dos grandes artistas que já se apresentaram ali.

Saí realmente impressionado do lugar, ainda mais porque eu sequer tinha conhecido algum teatro intermediário aqui no Brasil – fui direto para o mais importante da América Latina.
Não muito longe dali fica outro dos principais cartões postais de Buenos Aires, o Obelisco.

Encravado numa rótula/praça (chamada Plaza de La República), no meio do cruzamento da Avenida 9 de Julio com a Avenida Corrientes e a Diagonal Norte, o grande obelisco branco pode ser visto de vários pontos da cidade, e até mesmo para quem chega de avião ao aeroporto de Ezeiza , no sobrevoo pela região central da capital.
Ao redor dele, no nível do chão, há representações de todas as províncias argentinas. É ali que ocorrem as grandes comemorações de futebol ou as vitórias políticas.

Também os enfrentamentos mais graves entre policiais e manifestantes quando da crise de 2001 acabaram ocorrendo ao redor do monumento, que tinha algumas referências informais ao mortos de dezembro de 2001 pichadas no chão naquela primeira vez em que o visitei.

Muitos hotéis ficam ao seu redor, mas o lugar é extremamente barulhento e poluído, por causa do trânsito, que é incessante. Além disso, como grande parte da frota argentina usa óleo diesel como combustível, inclusive carros de passeio, o cheiro e a fumaça são ainda mais fortes. 

13/09/2011

San Telmo

San Telmo, o bairro onde me hospedei naquela primeira vez em que conheci Buenos Aires, é um dos mais simpáticos da cidade. Não tem a agitação e o trânsito poluído das áreas mais centrais, como os arredores da Florida ou do Obelisco, nem o desfile de moda de algumas partes de Palermo, mas passa longe da precariedade da Boca. Em compensação, fica a um pulo da Plaza de Mayo e tem bastante lugares para comer, sair, beber, fazer compras.
Tecnicamente, ele começa na Avenida Belgrano, paralela à Avenida de Mayo, e vai até o Parque Lezama, tendo a Autopista 25 de Mayo (que leva ao aeroporto de Ezeiza) cortando-o quase que pela metade, a apenas duas quadras da sua praça central. Mas o San Telmo de que estou falando é só aquele "da autopista para cá", ou seja, o lado mais próximo do centro.

A maior parte dos estabelecimentos comerciais, dos hotéis e dos restaurantes do bairro funciona em casas com estilo colonial, com fachadas bem sóbrias, pisos de madeira e pés direitos bem altos. Ao redor da Plaza Dorrego, onde funciona a famosa feirinha de San Telmo, concentram-se a maior parte dos bares, dos antiquários e dos restaurantes do lugar.

Algumas ruas ainda são de paralelepípedos, inclusive mantendo os trilhos de antigos bondes que passavam por ali. Assim é a Calle Chile, onde fica o albergue em que eu estava.

A qualquer hora do dia, em qualquer dia da semana, sempre tem alguma coisa acontecendo por ali. Não precisa ser domingo de manhã, como dizem a maior parte dos guias de turismo da cidade. Aliás, domingo tem gente demais, isso sim.
Logo depois que Buenos Aires (e agora a Argentina) decidiu legalizar o casamento gay, a cidade passou a ser considerada como um dos principais destinos para esse público, e teoricamente muitos teriam escolhido San Telmo para se hospedar, inclusive havendo hotéis e pousadas direcionadas quase que exclusivamente a esse mercado. Confesso que não vi nada fora do comum (quem já viu Barcelona, Ibiza, partes de Ipanema ou Mykonos sabe bem o que é destino gay).

Pra completar, San Telmo ainda tem várias igrejas bem antigas, num estilo bem sóbrio, algumas delas com heranças jesuíticas. Algumas chegaram a ser usadas como refúgio durante conflitos civis e na época da Independência argentina.

11/09/2011

La Boca

Uma das coisas mais estúpidas que já fiz em todas as minhas viagens foi ter decidido ir a pé, sem conhecimento prévio algum e nem um mapa, até o Estádio do Boca Juniors.

Qualquer gringo em viagem à América do Sul e qualquer pessoa que trabalhe com turismo em Buenos Aires teria dito como a coisa mais óbvia do mundo que o bairro de La Boca não é lugar onde se possa ficar andando à toa, sem rumo - no entanto, eu só ouvi isso depois que já tinha ido até lá, causando assombramento nas pessoas que me contaram o pequeno "problema" da zona.

Embora duas das atrações mais conhecidas da cidade fiquem na Boca - o Caminito e o Estádio da Bombonera, esses lugares são considerados como os únicos pontos seguros do lugar. É chegar de táxi ou de ônibus, descer na frente, entrar, e depois voltar dali mesmo. Embora menos de duas quadras separem o Caminito da Bombonera, até mesmo a polícia local não estimula que os turistas façam esse curto percurso a pé.

Num jogo do Grêmio na Libertadores, um pessoal que saiu em excursão aqui do Estado foi assaltado ao simplesmente errar uma rua e acabar num beco sem saída. Levaram até os ingressos do jogo, sem falar em todo o resto.

Felizmente, nada me aconteceu - mas eu bem que estranhei não ver quase uma viva alma andando pelas ruas bem empobrecidas do lugar, além de longas avenidas com terrenos baldios ou prédios industriais fechados. Só quando estava chegando bem perto do estádio é que me juntei a dois israelenses mochileiros que estavam ainda mais perdidos do que eu (afinal, nem o nosso alfabeto eles sabiam ler direito).
Nessa primeira vez em que estive na Boca, fiz o tour guiado por dentro do estádio da Bombonera, no qual se entra nas arquibancadas, nas cabines de imprensa e na sala de troféus - além da previsível lojinha no final. Há ainda o Museo de la Pasión Boquense, onde o clube mais popular da Argentina tenta ilustrar o porquê de tanta adoração.
Uma das coisas que me chamou a atenção, tanto naquela como em outras vezes que voltei ao bairro, é o fato de que Maradona é realmente muito mais amado e adorado na Argentina do que qualquer jogador de futebol já foi aqui no Brasil. Alguém imagina alguma pichação num subúrbio carioca com frases ou desenhos endeusando Pelé ou Ronaldinho? Pois é, em Buenos Aires (e especialmente na Boca) isso acontece... e em vários lugares.
Andando pelas ruas de La Boca, não é difícil ver as casas que dão um caráter especial ao bairro: aquelas revestidas por chapas metálicas, muitas retiradas de embarcações. Cada uma tem uma cor diferente, mas onde não há turista, a imagem que se tem é de imóveis em estado bastante precário, com chapas quase todas enferrujadas e muitas já com o colorido bastante apagado.

Mais perto do porto antigo, nas margens do Riachuelo, com águas quase paradas, o cheiro da poluição é bastante forte e há muitos barcos abandonados, o que não faz do lugar uma "atração".
Voltando em direção ao centro, passei por uma parte onde há prédios residenciais mais altos, construídos possivelmente nos anos 60 e 70, que dão uma cara de país soviético à região. O trânsito pesado de caminhões (às vezes interrompido por trens que vão e vêm do porto) que desviam do centro da cidade, vindo do norte e indo para o aeroporto ou para Mar del Plata e La Plata (ou vice-versa) torna o lugar ainda pior.

Quando finalmente cheguei no Parque Lezama (que eu não sei exatamente o porquê, mas consta como ponto turístico a ser visitado na cidade, supostamente por ser o ponto onde a cidade foi fundada ou por ser o parque mais antigo de todos), já me senti mais em casa, pertinho do lugar onde ficava meu albergue, em San Telmo. E, sem saber de nada ainda, tinha terminado uma "aventura" para os gringos mais informados.

09/09/2011

Parque Palermo

O Parque Palermo não é um só - são várias áreas verdes que ficam entre o bairro de mesmo nome e o Aeroparque Jorge Newberry (o aerporto urbano ao lado Rio da Prata), entre duas das avenidas mais movimentadas da cidade, que dão acesso aos subúrbios mais ricos ao norte da capital.

O lugar é conhecido (olha o clichê) como o Central Park argentino e, de fato, é utilizado como o primo nova-iorquino: um lugar onde as pessoas vão para andar de patins, de bicicleta, brincar com o cachorro, namorar, passear de pedalinho ou de charrete, ou simplesmente tirar uma soneca em cima do gramado.

Um dos pontos mais bonitos de se conhecer, ao qual só fui quando viajei pela primeira vez com a minha então namorada, é o Jardín Japonés, que é fechado e só se entra pagando ingresso. Lá dentro se pode caminhar por pontes vermelhas, laguinhos cheios de carpas, monumentos budistas (ou xintoístas?) e desfrutar de um restaurante com uma vista de tudo isso.
A parte mais concorrida do parque é aquela ao redor do maior dos lagos daquela região da cidade, onde há bastante sombra de árvores para ficar tomando um mate ou só namorando. Lembro bem que, na vez em que estive lá pela primeira vez, vi um monte de gente pintando paisagens em telas ou em folhas grandes de papel. Perguntei a alguns deles e me disseram que aquilo era uma aula prática da faculdade de Belas Artes que fica ali por perto.
Outra parte bastante conhecida do parque é o Rosedal, ou roseiral, onde há vários tipos diferentes da flor, que obviamente não fica tão bonita assim em todas as épocas do ano.
Ao redor do parque, também ficam algumas atrações da cidade, como o zoológico de Buenos Aires, logo do outro lado da Avenida del Libertador, em frente à rótula que tem o Monumento a los Españoles. Em nenhuma das vezes que fui a Buenos Aires acabei entrando no zoo, mas o lugar parece ser bem "emocionante" - mais de uma vez já vi alguma notícia de alguém que foi mordido por um bicho ou de um louquinho que entrou na jaula de um dos leões. Um de meus amigos que já esteve por lá disse que achou o lugar legal, mas meio decadente, com uns animais já meio velhos.
Não muito longe dali, em direção ao bairro, fica o distrito de Las Cañitas, que é um dos melhores lugares para se comer na cidade. À noite, as ruas são completamente cheias de gente indo e vindo de bar em bar ou de e outro restaurante. No meio-dia, quando fomos, num sábado, dá até para escolher qual atrai mais o estômago e a vista. Uma das melhores refeições que já fiz na Argentina foi justamente numa cantina italiana com ares retrô bem ali, só não sei se na Calle Arce ou na Baez (acredito que nessa segunda - não sei como perdi o nome do lugar). Apesar de ter salames pendurados no teto e garrafas de vinho por tudo, o som ambiente é sempre house e o serviço de mesa todo moderninho. Além disso, ter um serviço de qualidade por um valor pessoa que não passava de R$ 35 (isso em 2008!) é algo que não tem preço .

Para quem procura outlets, começar o passeio pelo parque Palermo é um total contrassenso, porque as lojinhas (que hoje em dia vivem abarrotadas de tantos brasileiros, graças às incessantes reportagens da Viagem e Turismo sobre elas) ficam exatamente no lado oposto do bairro, que não tem nada de pequeno. Aliás, na parte das lojas, ao redor da Avenida Corrientes, não há nada de muito bonito, a não ser algumas promoções de ocasião - coisa que tem se tornado mais rara depois que inflação explodiu no país e que os comerciantes cresceram o olho para cima dos brasileiros insaciáveis.

06/09/2011

Da Recoleta ao Congreso

Do Cemitério da Recoleta, saí caminhando meio sem rumo pelas ruas do bairro até encontrar a Faculdade de Medicina, onde há uma grande praça e uma estação de metrô.

Não muito longe dali, fica um intrigante e bonito prédio que ocupa uma quadra inteira: o Palácio das Águas. Ele é quase igual em suas quatro fachadas, mas o que impressiona é a riqueza de detalhes. Fica difícil mostrá-lo numa foto, porque as ruas ao redor não são muito largas e por isso não dá para enquadrar a sua grandiosidade no espaço de uma lente comum.

Da primeira vez que o vi, dei uma volta inteira para encontrar a sua entrada. No lugar, funciona o departamento de águas da capital argentina, serviço então delegado a uma empresa multinacional de origem francesa.
Uma boa pernada depois, tendo passado por algumas igrejas ao longo da rua Callao, cheguei ao meu objetivo: o prédio do Congresso Nacional argentino, outro cartão postal da cidade.
Tentei me inscrever para uma visita guiada pelo interior do prédio, marcada para o dia seguinte, mas como já antecipo, ela acabou sendo cancelada em razão de algumas votações que atrasaram.

Ao contrário da Casa Rosada, o Congresso está com uma aparência bem deteriorada. Em razão das frequentes manifestações, também, há muito lixo e pichações nas redondezas.

A praça em frente ao congresso (que na verdade são duas, a Praça do Congresso e a Praça Mariano Moreno, divididas por uma rua), sempre cheia de pombas, também está bem detonada, inclusive havendo alguns mendigos e sem teto dormindo por ali. Nada muito agradável. Do lado mais distante do Congresso, há alguns brinquedos para crianças.
Procurando bem, entretanto, é possível ver algumas coisas interessantes, como uma estátua do “Pensador”, de Rodin (uma das várias cópias assinadas pelo próprio artista), o “Marco Zero” das rodovias federais argentinas (ponto a partir do qual são medidas as distancias até a capital e onde começa a numeração da quilometragem das estradas que partem da cidade).

É nessa região que fica o hotel Ibis, um dos mais reservados pelos brasileiros que vão pela primeira vez ou em pacotes da CVC a Buenos Aires.

Outra atração do lugar, que não cheguei a conhecer por dentro, é o edifício Barolo, que era o mais alto da América do Sul quando foi construído, em 1923. O estilo dele é o mesmo do edifício que existe na praça central de Montevideo, com uma torre toda cheia de detalhes. Pela importância histórica e pela beleza, foi declarado monumento nacional há alguns anos.

03/09/2011

Cementerio de la Recoleta


Na minha primeira tarde em Buenos Aires, tratei de conhecer um dos mais importantes cemitérios com interesse turístico do mundo, o Cemitério da Recoleta.

Embora hoje, com tanta gente já tendo ido ao local, a ideia pareça normal, lembro bem que, nas primeiras vezes que ouvi, histórias de pessoas contando que visitaram um cemitério na sua ida à capital argentina causavam um certo espanto, senão algumas risadas.

O tal cemitério fica no bairro de mesmo nome, que é considerado o mais tradicional e nobre de Buenos Aires. Ali, antigos palacetes do século XIX e prédios de apartamentos da primeira metade do século XX dão um ar parisiense à cidade. Não é frescura nem exagero: conheci franceses no albergue que concordaram que se sentiam como numa rua de Paris naquela parte da cidade.
A entrada do cemitério fica numa área aberta, cheia de bancos para as pessoas se sentarem, de banquinhas de sorvete e pipoca, com um parque ao lado. Às vezes há algumas feirinhas na região.

Do lado oposto, fica uma grande sorveteria da cadeia Freddo, que foi onde experimentei pela primeira vez o sorvete que é o mais conhecido do país (e considerado um dos melhores do mundo por muita gente). Duas bolinhas equivalem quase a uma refeição, de tão forte que é o sorvete – muito bom mesmo, por sinal.

Ao lado da entrada do cemitério, há uma igrejinha toda branca, de Nossa Senhora do Pilar, em que as pessoas passam basicamente para acender velas para os mortos.
A entrada do cemitério, embora bem guardada e com portões de ferro, é gratuita, mas segue horários bem rígidos.
Do lado de dentro, o que se vê é um verdadeiro labirinto de jazigos e mausoléus bastante altos, que não permitem que se enxergue além da própria rua em que se está.

Logo de cara, destacam-se os túmulos de ex-presidentes e de altos oficiais militares argentinos, muitos deles com estátuas maiores que uma pessoa. No chão e mesmo dentro dos jazigos, a presença mais comum é de alguns gatos de rua.
Querendo ou não, o que leva a maioria das pessoas até o cemitério é o túmulo de Evita Perón, que fica num lugar relativamente difícil de achar, mas que é indicado quase que automaticamente pelo pessoal da manutenção assim que um turista se aproxima para pedir informação. Levam-se alguns bons minutos e alguns erros inevitáveis para encontrar o lugar, que está sempre cheio de gente fazendo fila para tirar um foto.

O interesse especial pelo túmulo decorre não apenas da admiração (e curiosidade) de muita gente pela história da ex-primeira-dama argentina, retratada no musical da Broadway e no filme com a Madonna, mas também pela bizarra história das idas e vindas de seu corpo embalsamado.

Logo depois de ter morrido de câncer, em julho de 1952, o corpo de Eva Perón foi preparado por um especialista em embalsamamento para suportar 16 dias de velório. Logo em seguida, decidiu-se que ele não seria enterrado, mas que ficaria exposto num caixão de vidro na sede da CGT, uma espécie de CUT argentina, até que um mausoléu definitivo fosse construído para ele, talvez na sede da Fundação Evita Perón (que hoje é o prédio da Faculdade de Engenharia, no Paseo Colón, próximo a San Telmo).

Alguns meses depois de sua morte, porém, o seu marido e então Presidente argentino, Perón, foi derrubado por um golpe militar e obrigado a deixar do país. A equipe de pessoal encarregada do projeto de construção do mausoléu para Evita foi perseguida politicamente e desmantelada.

Depois de sequestrarem o corpo junto à CGT, os militares o esconderam em diversos pontos da cidade, trocando de lugar de tempo em tempo, até que uma operação de traslado para a Itália fosse viabilizada. Por fim, acabaram levando-a de avião e enterrando-a nas proximidades de Milão, num lugar que ficou escondido até mesmo do viúvo, então exilado na Espanha.

Nesse primeiro período, o corpo teria sido objeto de atos de necrofilia por parte dos seus responsáveis, segundo alguns livros publicados. Também teriam ocorrido algumas mutilações, para a realização de exames de identificação. Com a falta de manutenção do embalsamamento, o corpo também teria se deteriorado.

Só mais de 15 anos depois, no início da década de 1970, o corpo foi devolvido ao General Perón, então casado com a mulher que viria a ser a Presidente Isabelita Perón. Houve o traslado para Madrid, onde ficou enterrado por algum tempo. Isso só foi possível porque, na Argentina, um grupo de oposição havia sequestrado o corpo do ex-Presidente Aramburu e exigido o reaparecimento do corpo de Evita para devolvê-lo.

Perón elegeu-se novamente Presidente, morreu, e Isabelita o sucedeu. Durante seu governo, ela determinou a exumação do corpo e sua exposição em Buenos Aires, prometendo enterrá-lo num “Altar da Pátria”, junto com Perón e outros heróis argentinos. Nessa época, as “teses” eram as de que foram feitas sessões de magia negra com o corpo para passar o carisma de Evita para Isabelita.
Quando Isabelita foi derrubada e os militares tomaram novamente o poder, finalmente houve o enterro no Cemitério da Recoleta, onde ela está até hoje, junto com sua família de origem.

01/09/2011

O efeito do corralito

Depois de fazer o reconhecimento da Plaza de Mayo, decidi seguir para os lados da Calle Florida, o calçadão central de Buenos Aires (que hoje em dia tem mais brasileiros e batedores de carteira do que argentinos).

Antes disso, parei num prédio que me chamou a atenção por ter fachada de templo grego e uma chama acesa na entrada. Só depois que percebi que se tratava da Catedral Metropolitana. Lá dentro, para minha surpresa (isso que eu chamo de falta de informação), estava o mausoléu do famoso General San Martín, o libertador de várias colônias espanholas na América do Sul.
Alguns minutos de silêncio depois, entrei no famoso calçadão e comecei a ver a muvuca daquele que é o coração do comércio popular de Buenos Aires.

Hoje em dia, quando se vai na Florida, a impressão mais marcante do lugar são os tocadores de algum instrumento musical ou dançarinos de tango pedindo dinheiro, os vendedores assediando os turistas, alguns camelôs, as bancas de jornal. Naquela época, porém, a mais chocante impressão do lugar eram os reforços de metal dos andares mais baixos dos bancos, todos pichados e amassados na crise de dezembro de 2001.

Logo que o governo determinou o congelamento dos depósitos acima de 200 pesos e a desvinculação do valor do peso e do dólar, a população seguiu revoltada até suas agências bancárias para exigir seu dinheiro de volta e lá ocorreram várias depredações e outros atos de vandalismo.

A situação de tensão permaneceu por vários meses e os bancos então se transformaram em verdadeiros bunkers. As fachadas externas, tanto paredes como janelas, foram todas revestidas por chapas de metal nas quais não se tinha como subir. As portas tinham um acesso todo cercado por grades e mecanismos de proteção, vigiadas por guardas fortemente armados.

A população não conseguia entrar, mas seguia batendo nas proteções de metal, com as mãos ou com as panelas usadas nos “panelaços” que a classe média promovia como protesto. Tudo também foi pichado com frases ofensivas aos donos dos bancos e ao governo e continuava ali, para ser visto por quem quisesse, mesmo passados cerca de 20 meses desde o estopim da crise.

Desviando dos vendedores, segui adiante. Entrei na livraria Ateneo, que tem uma loja na Florida, e fiquei decepcionado porque achava que era ali a grande loja que só depois soube que na verdade fica na Calle Corrientes.
Nas Galerias Pacífico, fiquei impressionado positivamente. O shopping do centro da cidade consegue preservar um ambiente bem sofisticado no meio daquela muvuca toda e foi por ali mesmo que tratei de achar alguma coisa para comer, antes de voltar ao albergue para fazer o meu check in.