27/02/2010

Para entender o Salar de Uyuni

Na foto acima (se clicar em cima, dá para ver melhor), feita com o Google Earth, aparece o Salar de Uyuni, como visto a partir dos satélites. No canto inferior direito da foto, está a cidade de Uyuni; a mancha branca que domina o centro da foto é o salar propriamente dito.

O salar tem cerca de 139km de largura, no sentido oeste-leste, e 110km no sentido norte-sul, em suas partes mais extremas. No total, uma área de 12.000km² (duas vezes o tamanho do Distrito Federal). Como eu falei no post anterior, sua altitude é praticamente a mesma em toda a sua área, com uma variação máxima de 4cm: são 3.650m acima do nível do mar.

Politicamente, todo salar está dentro da Bolívia, mas dois departamente têm jurisdição sobre partes dele: Oruro e Potosí.

Bem no centro geográfico do salar fica a Isla del Pescado. Sim, uma ilha no meio do sal. É ali que os tours param para fazer o almoço e para passear. A Isla del Pescado é uma reserva natural boliviana, para cuja entrada se paga um ingresso (o resto do salar é de graça). Na época de chuvas, ela fica inacessível e portanto fechada. Os tours vão no máximo até o hotel de sal.

Colchani fica na margem direita e logo depois que se entra no salar vindo de lá está o Hotel de Sal.

Há vulcões ao redor do salar, principalmente no limite norte da planície salgada.

Para ler mais sobre o lugar, clique no link dele na Wikipedia, aqui.

25/02/2010

Hotel de Sal

Depois da paradinha em Colchani, finalmente entramos de fato no Salar de Uyuni.

A experiência é muito interessante. Começou realmente aquele trecho em que tudo que se vê é o céu azul e o chão branco. Só prestando mais atenção e olhando para o lado certo é que se enxergam também algumas montanhas.

Dizem que no período das chuvas, quando há uma lâmina de água sobre o salar, tudo fica ainda mais bonito, porque a água acaba funcionando como um espelho do céu. O resultado é uma sensação de que se está dirigindo sobre as nuves, porque tudo fica igual - céu e terra, sem linha do horizonte visível. Deve ser paulada mesmo.

Como estrada, o salar funciona que é uma beleza. O chão é extremamente compacto - leia-se duro - e plano. Na imensidão do salar, não há uma variação entre o maior e o menor nível de altitude do solo do que uns 4cm. Isso faz do Salar de Uyuni a maior superfície sólida realmente plana do mundo. Isso tanto é verdade que os satélites de GPS costumam calibrar seus sensores de altitude mirando no salar.

Com uma "estrada" dessas, a caminhonete pode correr à velocidade que quer, sem solavancos nem riscos. Aqueles "favos" que se formam no chão, quase sempre em forma de pentágonos (e que são o resultado da formação das moléculas de sal, que têm o mesmo formato), não chegam a ser altos o suficiente para que o veículo sinta. A suspensão amortece essa pequena variação. Além disso, nas partes em que mais se passa, eles tendem a ir se achatando pelos pneus dos carros. No período das chuvas, entretanto, não é bem assim. Não dá para correr tanto, pois alguns buracos se abrem por acúmulo de água e infiltração do subsolo.

Não há poeira e, ao contrário do que eu imaginava, não se sente o cheiro ou partículas de sal voando contra a pele. Mesmo com a janela aberta a mais de 100km/h, a única sensação é o ar frio batendo no rosto. A temperatura não passava de uns 6ºC, mas conseguíamos ficar de mangas curtas dentro da caminhonete, com o ar condicionado ligado e 7 pessoas dentro.

O que é imprescindível para aproveitar o passeio são óculos escuros. Se possível, polarizados, para enxergar melhor os contrastes de cor. Ficar sem óculos escuros é certeza de ficar apertando os olhos e de uma dor de cabeça depois de algum tempo. A claridade é absurda e, além disso, os tours passam por esse trecho perto do meio-dia.
Cerca de 50km salar a dentro, fazemos uma parada no famoso "Hotel de Sal". O lugar foi interditado como hotel de verdade, por terem descoberto que seria insalubre (não diga!) passar muito tempo ali. Mas ainda existe como atração turística. Só que só se pode ver pelo lado de fora e, fazendo uma sombra para evitar o reflexo, enxergando para dentro das janelas.
As fotos que aparecem de móveis de sal são todas de dentro do hotel, mas tiradas pela janela.

Ao lado do hotel há algumas paisagens bem interessantes para fotos, como a ilhazinha de bandeiras dos países que mais visitam o salar (sim, o Brasil está lá) e um catavento.
O lugar é realmente bonito e impressiona por não ser parecido com nada que já se viu em outro lugar.

23/02/2010

Margens do Salar

Depois do cemitério de trens, anda-se uns 50km até a próxima parada: um vilarejo às margens do Salar de Uyuni. A estrada, é claro, é de terra até lá, com alguns trechos de solavancos. A paisagem, no entanto, vai ficando cada vez mais bonita, sendo possível enxergar vulcões que rodeiam o salar por toda a parte, cobertos de neve.

O tal povoado se chama Colchani e fica ainda em terra firme. Ao seu lado, porém, existem algumas pequenas construções próximas aos locais onde se explora o salar, que é onde as caminhonetes param com os turistas.
Por ali, como não poderia deixar de ser, o que mais há é artesanato feito com sal. Desde pequenos bibelôs até cadeiras e mesas, tudo é feito de sal. Até perguntamos como é que se faz para conservar esse tipo de material em lugares úmidos como aqui no Brasil, e responderam que era bom envernizar para não ir se desgastando.

Há até um pseudo-museu do sal, com entrada gratuita, que na verdade apenas reúne objetos feitos de sal em escala um pouco maior do que aqueles que são vendidos do lado de fora. Se não estou confundindo as coisas (o que é bem possível), há uma mumiazinha de criança lá dentro também.
Não espere muita estrutura. O "banheiro", pelo qual se cobram 2 Bolivianos para usar, nada mais é do que essa patente que aparece na foto. Conforto, sabidamente, não é o ponto forte do passeio.
Naquela localidade, pode-se ver um pouco da atividade econômica dos "povos do salar", como os próprios guias se referem às pessoas que moram nas proximidades. Num processo que já tínhamos visto nas Salinas Grandes, perto de Salta (Argentina), o que fazem é cavar buracos e encher de água, para que o sal venha à superfície e possa ser colhido.

Apenas trabalhadores cadastrados podem trabalhar no local, que é público mas é explorado em regime de concessão do governo.
Ainda nesse mês de janeiro de 2010, por acaso, vi na TV uma reportagem sobre as riquezas escondidas no salar e o risco que representa a sua exploração. Cerca de 50% das reservas mundiais de lítio encontram-se sob esse salar. A importância desse mineral (hoje conhecida mais pelos remédios psiquiátricos com que é feito) reside no fato de ser um dos principais componentes das baterias que serão necessárias para a produção em escala industrial de carros elétricos. Ou seja, para deixar o petróleo de lado, uma das alternativas passa justamente pela exploração do Salar de Uyuni. Encontrei na internet uma reportagem sobre o assunto, para quem quiser ler mais sobre o assunto, bastando clicar aqui.

Fato é que o governo de Evo Morales tem uma imensa riqueza sob seu solo, mas não tem a tecnologia e o dinheiro para explorar. Fala-se que ainda estão elaborando um plano para conciliar os interesses nacionais com a necessidade de investimento estrangeiro, sendo uma das alternativas apontadas a necessidade de que as firmar produzam o produto final - as baterias elétricas - na própria Bolívia, em contrapartida ao direito de exploração, além, é claro, de dividir os lucros com o Governo.

20/02/2010

O início do tour

Por volta das 10h30 da manhã, no horário marcado, nos reunimos na agência "Relâmpago", bem ao lado do hotel em que dormimos em Uyuni, para fazer o pagamento da parte restante do pacote (apenas um sinal havia sido adiantado em Villazón), escolher nossos sacos de dormir e conhecer o veículo que seria nossa "casa" por três dias.

Foi só nessa hora que nos lembramos de fazer a saída da Bolívia, praxe adotadas por vários mochileiros para não ficar irregularmente no país caso o posto de imigração de Laguna Verde estivesse fechado quando cruzássemos em direção ao Chile, três dias depois. Há um posto de imigração quase em frente à estação ferroviária e, ali numa mesinha, um sujeito que cobra uma "taxa" para carimbar os passaportes com três dias de antecedência (sim, era sexta e ganhamos o carimbo de domingo). Não sai mais do que R$ 2,00 a tal ilegalidade, mas evita uma eventual dor de cabeça numa próxima vinda à Bolívia.

Nosso carro atrasou cerca de uma hora, mas logo que chegou pareceu estar dentro de nossas expectativas. Não havia cozinheira, como em alguns veículos 4x4, porque o próprio motorista faria as refeições. O que pode parecer uma desvantagem, na verdade, é ótimo, porque significa uma pessoa a menos no carro e não necessariamente comida ruim.
Seríamos apenas 7 na caminhonete: Rafel, Diego e eu, além do motorista e outras três pessoas que só conhecemos na hora do embarque - 2 amigos holandeses de Utrecht e 1 brasileira de Porto Alegre que estava viajando com eles desde que se conheceram em Sucre. Os holandeses mediam pelo menos 1,95m, por isso, compadecidos, desde logo concordamos que um deles iria no banco da frente. Os outros se revezariam atrás: três no banco central e 2 nos banquinhos da "cachorreira", como dizemos aqui no sul.

Carregamos a caminhonete com os litros e litros de água que compramos e colocamos as mochilas grandes em cima, cobertas por uma lona. Roupas e mochilas pequenas embaixo, espremidas entre os passageiros.
A primeira parada fica a alguns minutos do centro de Uyuni. Trata-se do "Cemitério de Trens", na verdade um ferro velho de locomotivas e vagões que, por estar num lugar inóspito, adquire um ar de filme de apocalipse, tipo "Mad Max".

O lugar é legalzinho para algumas fotos, mas não empolga muito.

Como já tínhamos lido e como pudemos comprovar logo nessa primeira parada, praticamente todas as caminhonetes de tour andam meio juntas, o que faz com que sempre haja dezenas de mochileiros fazendo a mesma coisa que você: descendo do 4x4, encasacando-se para o frio e correndo para tirar algumas fotos no lugar.

17/02/2010

Uyuni

Lá pelas 10 horas da noite, pegamos no sono e não vimos mais nada no trem. Assustados, no entanto, fomos acordados algumas horas depois, com a movimentação das pessoas e conversas altas, dando a entender que já estávamos chegando em Uyuni. Olhei no relógio e era 1 da manhã, por isso cheguei a suspeitar que não seria verdade. O trem só deveria chegar em Uyuni à 1h30 e, pelo que sabíamos, já vinha com um atraso de 45 minutos, pelo menos.

Os vidros estavam congelados, por isso não dava para olhar para fora direito. Alguns minutos depois, o trem efetivamente parou e realmente estávamos em Uyuni.

Como as mochilas haviam sido despachadas para um vagão de bagagem e como li que era bom não dar bobeira nessa hora - sob pena de ficarmos sem elas - tratei de descer ligeiro do trem enquanto os guris ainda se arrumavam para dar jeito de encontrá-las.

Com um frio que calculo ser de -10°C, aquela bobeira de quem recém acordou e aquela movimentação toda, a cena que vi parecia de guerra. Um trem semi-congelado parando numa estação em plena madrugada, com várias "cholas" correndo para pegar suas coisas e mochileiros perdidos aqui e ali. Quando abriram o vagão de bagagens, uma cena que me lembrou aquele filme, "Dr. Jivago": havia pessoas dormindo, quase congeladas, no meio das bagagens.

Peguei as três mochilas e logo depois os guris já estavam ao meu redor. Quando o trem se foi, as coisas se acalmaram e pudemos checar se estávamos todos bem agasalhados. Não demorou muito e uma local se apresentou como sendo a pessoa que nos levaria ao nosso hotel, contratado em Villazón.

Tudo era muito previsível. Como já tinha lido, ela estava nos levando para um hotel diferente do contratado. Insisti e quase briguei que queríamos ir para o nosso hotel reservado, chamado "Sajama", mas ela nos convenceu de que o nosso ("Daison", esse da foto) era mais perto e mais confortável.
Se era mais confortável, nunca saberei, mas de fato era ao lado da estação. Demorou um pouco até que o sujeito encarregado da portaria acordasse para abrir a porta, mas assim que entramos encontramos um quarto com três boas camas, carpete, banheiro individual com água quente e nada para nos queixarmos. Bom, poderia ter um box para não molhar tudo a cada banho, mas isso era pedir demais.

Revezamo-nos no banheiro para tomar banho e em meia hora já estávamos prontos para dormir. O frio lá fora era congelante, mas dentro do quarto todos conseguimos dormir bem.

Na manhã seguinte, com o céu azul e o clima ainda mais frio, saímos para encontrar a agência contratada ao lado do hotel, a qual nos providenciaria o café da manhã - que não era servido no hotel. Ela nos levou até uns restaurantezinhos na "alameda central" de Uyuni e falou com umas pessoas, repassando-lhes algo que seria um voucher para nossa refeição.

Comemos a céu aberto um farto café da manhã, com frutas, pães típicos, chá de coca e café, e até encontramos o argentino do trem com quem fizemos amizade.

Depois, demos jeito de encontrar o único caixa automático de Uyuni, que só abriria às 9h da manhã, mas que meia hora antes já tinha gente na fila esperando. Eu confesso que não acreditava que, pela primeira vez na vida, veria bolivianos (o dinheiro local) saindo de um caixa automático com ligação direto à minha conta, mas isso de fato aconteceu, depois de uns 20 minutos de espera. Sacamos o dinheiro necessário para os três dias de tour e nos pusemos a caminhar pelo centrinho de Uyuni.
Uyuni só existe por causa do trem e do Salar. O lugar é realmente insólito. A 3.700m de altitude, longe de tudo e de todos, com temperatura e vento extremos quase o ano inteiro, o lugarzinho tem menos de 20mil habitantes e muito pouco a oferecer, a não ser pelo fato de ser o ponto de partida para o Salar que leva o nome da cidade.

Existem algumas construções vagamente inspiradas pela presença dos ingleses que andaram explorando recursos minerais na região no passado e, basicamente, monumentos em homenagem aos trens do país. O mais pitoresco é uma torrezinha com relógio bem no centro da cidade e um prédio vermelho ao seu lado.
As árvores não tinham nenhuma folha, por ser inverno. O único movimento era o das "cholas" montando suas banquinhas de comércio informal e a ida e vinda de mochileiros comprando suprimentos para os três dias de tour.
Fizemos a nossa parte também. Pesquisamos se valia a pena comprar sacos de dormir, mas acabamos deixando para a sorte essse trabalho - arriscamos os sacos oferecidos no tour. Compramos mais uma proteção para o pescoço, já que os cachecóis não estavam surtindo muito efeito naquela temperatura. Compramos ainda bastante água mineral, chocolates e umas bolachinhas.

Com essas idas e vindas, tiramos algumas fotos da cidade, que são essas que aparecem aqui no post.

14/02/2010

Trem Villazón - Uyuni

Cerca de uma hora antes do horário de saída de nosso trem a Uyuni, decidimos ir para a estação. O "pacote" que tínhamos comprado na agência de Villazón incluía o táxi até lá. Foi só na hora em que o taxista chegou que nos avisaram que deveríamos colocar máscaras contra a gripe, senão não nos deixariam sequer entrar no prédio da estação - muito menos embarcar.

Embora um pouco surpresos, acreditamos e colocamos (eu, pela primeira e única vez na viagem) as ditas máscaras. Quando chegamos lá na estação, vimos que na sala de espera não havia quase ninguém de máscara, mas os guardas as estavam usando.

A estação de trem de Villazón, como muitos prédios públicos e bancos bolivianos, parece uma área militar. Acredito que, para não deixar que indigentes usem esses lugares para dormir ou para que o comércio informal não se instale de vez, sempre colocam um policial vigiando esse tipo de lugar. Como o uniforme é verde e sempre usam um rifle, completa-se o cenário de "zona militar".

Após alguns minutos, descobrimos que passáramos a manhã inteira com o relógio errado. O fuso horário não tinha apenas uma, mas duas horas de diferença em relação à Argentina e, por isso mesmo, o trem só sairia dali a quase duas horas, e não uma, como pensávamos. Eu sou o campeão absoluto de errar nessas trocas de horário, por isso nem tento mais...

Depois de um tempo sentados, entendemos a lógica da estação. Na área de espera, podíamos ficar sem máscara, mas para passar para o setor de embarque, o que começou uma hora antes do trem sair, passaríamos por uma inspeção de saúde e seríamos obrigados a usar máscara.

Uma longa fila formou-se, mas conseguimos ficar bem na frente. Perguntaram-nos se tínhamos um papelzinho dado na imigração, e quando pensei que era a deixa para nos extorquirem algum dinheiro, explicaram poderíamos ter sido submetidos à inspeção de saúde na fronteira e, nesse caso, não precisaríamos passar por outra na estação. Como não tínhamos, continuamos na fila.

Entramos os três na sala de exame, onde uma enfermeira nos olhou um pouco, examinou as máscaras, fez algumas perguntas e nos deu um papelzinho comprovando que tínhamos passado no exame. Ela nos pediu encarecidamente que continuássemos com as máscaras no trem.
Já ao lado do trem, ficamos ainda uns 45 minutos esperando até o embarque. O frio não dava trégua - apesar do céu azul fazia uns 2°C.

Nossas passagens, de primeira classe, tinham lugar marcado e davam direito a um lanche, bem como de acessar o vagão restaurante.

Assim que a viagem começou, surpreendemos muito positivamente com o trem. As poltronas eram muito confortáveis - tipo ônibus leito - e a limpeza impressionava. A todo tempo um funcionário passava para lá e para cá (de máscara e luvas) limpando alguma coisa. Um telão de não sei quantas polegadas passava videoclipes de música e programas do tipo Mr. Bean e "videocassetadas". Os banheiros eram bons, para o padrão ferroviário e havia um controle de temperatura que deixava o ambiente em uns 15°C ou 18°C, permitindo que ficássemos de mangas curtas.
Ao contrário do outro trem boliviano que já conheci - o malfadado trem da morte entre Puerto Quijarro e Santa Cruz de la Sierra - esse não balançava quase nada, demonstrando trilhos de melhor qualidade. A paisagem do lado de fora era de montanhas mais suaves com algumas casinhas em ruínas e cactus - nada imperdível, mas tampouco monótono.
Quando nos chamaram para o vagão restaurante, também tivemos a grata surpresa do bom chá da tarde incluído na passagem, com bolachinhas, opções de chás e pães. Acabamos confraternizando com um argentino que sentou ao lado de um do nosso grupo, que estava viajando sozinho para trabalhar um tempo numa agência de turismo em Villazón.

Depois do chá, descansamos algumas horas e, à noite, fomos novamente para o vagão do restaurante, dessa vez para jantar, por nossa conta. O menu era bem variado e até comemos algo com carne, coisa rara na Bolívia. Aproveitamos ainda para tomar umas quantas cervejas e a todo tempo comentávamos sobre a "maravilha" que era o trem.

09/02/2010

Villazón


As horas que passamos em Villazón foram algumas das poucas para as quais não tínhamos absolutamente nada planejado em toda a viagem. A cidade, de fato, não tem atrações turísticas propriamente ditas, mas valia a pena conhecer uma cidade boliviana fora desse circuito, que não está na vitrine.

Depois de deixarmos nossas coisas na agência, a primeira coisa que fizemos foi tentar sacar dinheiro no único caixa automático da cidade que aceita cartões internacionais. Sem sucesso. Estava em reparos e, em todas as vezes que voltamos lá para ver como andava, o sujeito encarregado do conserto prometia que dali a meia hora já estaria tudo normal.

Um dos guris queria um termômetro para levar na viagem. O dono da agência recomendou lojas perto do mercado público, na verdade um feirão a céu aberto próximo da estação ferroviária. Lá fomos nós, perguntando de loja em loja onde seria o tal, lugar, mas não conseguimos nada. Pelo menos demos umas voltas por um lugar totalmente "off the beaten track", como se diria num guia de viagem.


Depois, queriam colocar pilha num relógio. Lá fomos nós para uma lojinha no meio do comércio perto da ponte. Acho que levaram quase uma hora para trocar a dita pilha, sem exagero.

Aí, decidimos ver se valia a pena comprar um saco de dormir para cada um, já que dizem ser necessário nos pernoites do Circuito Sudoeste. Andamos por todas as lojas que nos indicavam como sendo de material de camping. Do que encontramos, ou era umas porcarias de saco de dormir mais fininhos que aqueles que se vendem no Brasil, por uns 20 e poucos reais, ou eram aqueles profissionais, de uns 200 reais.

Depois, olhamos tênis, eletrônicos, bugigangas. Não compramos nada. A cada ida e vinda, uma paradinha no caixa automático, até que eu resolvi queimar 50 dólares das minhas reservas de emergência e fui até uma casa de câmbio trocar por bolivianos, a moeda local (que incrivelmente mantém a cotação de 2002, última vez em que estive na Bolívia). Viva a economia de Evo Morales!!!

Almoçamos no restaurante ao lado da agência de turismo, onde a esposa do dono nos fez duas pizzas, que pareciam a melhor comida disponível daquele lado da fronteira.

Quando os guris já estavam cansados de caminhar e queriam descansar depois de comer, eu dei mais uma saída sozinho, para tirar umas fotos do centrinho da cidade, aproveitando o belo dia de céu azul de inverno – embora estivesse ventando muito forte quase o tempo todo.


Passei pela Prefeitura, pelo meio da praça, pela igreja matriz, pelo prédio das aduanas (esse com a foto do Evo Morales). Depois voltei, quase na hora combinada para sairmos.

06/02/2010

Passagens de trem para Uyuni, com reserva do tour pelo Circuito Sudoeste


Depois de muita, mas muita pesquisa na internet, acabei descobrindo duas possibilidade de reserva antecipada de passagens de trem entre Villazón e Uyuni.

A primeira delas não funciona para nós, brasileiros, que estamos saindo daqui do nosso país. Ela é feita pela empresa Balut, de ônibus. Na estação rodoviária de Retiro, em Buenos Aires, é oferecido a quem compra uma passagem de ônibus Buenos Aires – La Quiaca o serviço de reserva de passagens de trem. No entanto, o serviço deve ser pago em dinheiro, na própria estação Retiro, e só é feito para quem compra a passagem de ônibus desse trecho.

A segunda opção, que foi a que acabamos conseguindo, hoje parece lógica, mas foi muito difícil descobrir. Há pelo menos uma agência em Villazón, a Imperio Inca Tours, que oferece pacotes em que vende as passagens de trem entre Villazón e Uyuni e já reserva o Tour pelo Circuito Sudoeste, a partir de Uyuni, em parceria com agências dessa cidade.

Só descobri a existência dessa agência, chamada Imperio Inca Tours, através de um blog de uma mochileira argentina. A Imperio Inca, de Villazón, trabalha com duas formas de pagamento de reservas: depósito em bancos argentinos, como o Banco de La Nación, e transferência de dinheiro através da Western Union.

Parece bicho de sete cabeças, mas não é. A Western Union tem convênio com o Banco do Brasil e, por isso, qualquer pessoa que tenha uma conta no BB pode remeter dinheiro através desse sistema, por uma pequena taxa.

Já estávamos praticamente certos de fazer a reserva com essa agência ainda aqui no Brasil. Troquei e-mails com o dono da agência, Alfredo Fernandez, passei nossos dados e as datas que queríamos e até peguei as informações necessárias para a transferência do sinal em dinheiro para a reserva, mas na hora de fecharmos, uma notícia bombástica para nossos planos veio à tona.

Segundo os jornais, a Bolívia estava pensando em fechar suas fronteiras com a Argentina, temporariamente, para prevenir a propagação da Gripe A. Com isso, a alternativa de chegar a Uyuni por Villazón cairia por terra.

Saímos de Santa Maria já conformados com a idéia de fazer o tour saindo e voltando por San Pedro de Atacama, mas, no caminho, ainda em Salta, vimos que a ameaça não tinha se concretizado. Retomei o contato com o dono da agência em Villazón, primeiro por e-mail, depois pelo telefone que ele me passou, e acertamos que faríamos a transferência do dinheiro. O Rafael pediu à sua gerente aqui no Brasil que fizesse a transferência e a reserva foi feita.

Quando chegamos em Villazón, já tínhamos combinado que chegaríamos direto na agência de turismo para pegar as passagens e as reservas do tour e para almoçar, e assim fizemos.

O Alfredo, o dono, um sujeito formado em contabilidade, simples e muito simpático, nos recebeu com um chá de coca e com as reservas. Como disse que não tinha localizado o depósito, ainda foi preciso entrarmos em contato com o Banco do Brasil para pegar o número da transferência, mas aí tudo se resolveu. Deixamos nossas mochilas no escritório dele e, assim ganhamos alguma horas para ficar vadiando até a hora do trem sair, por volta das 3 da tarde.

OBS: ao fazer esse post, acessei a página da FCA e parece que estão começando com as reservas para estrangeiros direto por e-mail. Quando viajamos, ainda não havia essa possibilidade. Vale a pena consultar.

03/02/2010

Logística de organização para o Tour ao Salar de Uyuni

Um tour pelo Salar de Uyuni não escapa de algumas opções bastante restritas; todas elas envolvem uma passagem pela cidade boliviana de Uyuni, no altiplano e a apenas 100km do próprio Salar, bem como o uso de veículos 4x4 particulares bolivianos, que são preenchidos pelas agências de turismo chilenas ou bolivianas com turistas de diferentes agências (até 6 pessoas por veículo, mas pode pagar “privado” e ir com menos gente).

1 - Pode-se fazer um simples passeio pelo Salar de Uyuni, conhecendo um vilarejo produtor de sal nos seus arredores, o famoso hotel de sal, o salar em si e a Isla Del Pescado (exceto em tempos chuvosos, quando nem sempre se consegue chegar até lá), em passeios de um dia, que geralmente incluem uma passada pelo “Cemitério de Trens”, saindo e chegando em Uyuni;

2 - Pode-se fazer o Tour Salar + Lagunas (“Circuito Sudoeste”), que é o mais comum e que inclui, além das atrações mencionadas no item anterior, passeios pelas Lagunas Cañapa, Hedionda, Colorada e Verde (todas valem a pena), bem como por mirantes para o vulcão Ollagüe, os gêiseres Sol de La Mañana, o Deserto de Dalí (com a árvore de pedra) e as águas termais na beira da Laguna Salada. Este tour implica em dois pernoites em seu percurso, sendo o primeiro numa pousada em San Juan e outro num alojamento em Laguna Colorada. No entanto, há diferentes formas de fazê-lo:
2.1 – Pode chegar em Uyuni por conta própria, fazer o tour e pedir para que, em Laguna Verde, seja feito um transfer para San Pedro de Atacama, no Chile, o que leva pouco mais de uma hora;
2.2 – Pode-se chegar em Uyuni por conta própria, fazer o tour e voltar para Uyuni, o que leva mais umas oito horas de viagem, passando pelo interior das províncias de Los Lípez;
2.3 – Pode-se contratar o tour em San Pedro de Atacama, chegar em Laguna Verde num transfer chileno e ali começar o tour com as empresas bolivianas, no sentido contrário ao referido antes, ficando em Uyuni ou, ainda;
2.4 – Fazer tudo que se disse no item 2.3 e voltar a San Pedro de Atacama depois de chegar a Uyuni, num transfer de oito horas de viagem.

Nossa opção era pelo segundo tour, ou seja, com as lagoas, mas passamos bastante tempo discutindo qual seria o melhor percurso.

A forma mais cômoda (e também mais cara) é sair e voltar a San Pedro de Atacama, pagando para empresas chilenas que se encarregam do resto. Nesse tipo de tour, muitas vezes nem mesmo é feita a imigração na Bolívia.

A outra forma, que implica em chegar a Uyuni por conta própria, era a que mais nos interessava, porém dependia de uma logística mais complicada. Quem vem de La Paz, geralmente chega num ônibus que leva mais de 14 horas viajando e que, segundo todos os relatos, quase mata os passageiros de frio no inverno. Recomenda-se levar saco de dormir para “vestir” e dormir no banco do ônibus. Quem vem da Argentina tem como única opção os trens entre Villazón e Uyuni (salvo algum veículo 4x4 que vença as trilhas entre essas cidades pelas montanhas). Ambas implicam num pernoite em Uyuni, porque tanto trens como ônibus chegam na cidade à meia noite ou à 1h da manhã, sendo que os tours iniciam entre 10h e 11h da manhã seguinte.

Os trens entre Villazón e Uyuni só circulam 4 vezes por semana, de acordo com a tabela disponibilizada no site da Ferrocarril Andina (www.fca.com.bo). Há dois tipos de trens: o Wara Wara Del Sur, que é mais barato, sai nas 2ªs e nas 5ªs feiras; e o Expreso Del Sur, que sai mais caro, leva uma hora e meia a menos e sai nas 4ªs e nos Sábados. Ambos têm passagens de classe executiva, que inclui poltronas reclináveis, café da tarde grátis e vagões privativos, e de classe econômica, que são um deus-nos-acuda.

O grande problema é que esses trens são bastante concorridos e as passagens não podem ser compradas pela internet ou por telefone, oficialmente. A rigor, a pessoa teria que ir a Villazón um dia antes de viajar e, se der sorte, comprar uma passagem para o dia seguinte. Se não conseguir, esperar até o próximo trem.

Embora quiséssemos muito usar essa alternativa para fazer o tour, não estávamos dispostos a correr o risco de ficar empacados em La Quiaca ou Villazón até conseguir as passagens. Depois de muita pesquisa na internet, consegui uma maneira mais segura para essa opção, e é aí que entra nossa ida a uma agência em Villazón, como falei no post anterior. Mas essa eu vou explicar só no próximo post.

01/02/2010

Fronteira La Quiaca - Villazón

Ao chegarmos na fronteira, que estava aberta havia apenas uns 20 minutos, encontramos uma fila de umas 15 pessoas na nossa frente. Até achamos que seria rápido, mas logo nos decepcionamos. Acredito que tenham demorado mais de 15 minutos apenas discutindo com um pai que achava um absurdo ter de mostrar os documentos do filho e a autorização do juiz para levá-lo ao exterior.

Como de costume nas fronteiras argentinas, apenas um policial da Gendarmería atendia a fila inteira, bem devagarzinho, enquanto outros 4 tomavam mate e contavam piadas. Parados, começamos a sentir o frio, que nessa hora devia ter diminuído para 0°. Ao lado da fila, toda hora passavam moradores locais que são dispensados dos trâmites burocráticos. A fila começou a crescer com a demora e o aglomero era grande. A gurizada lembrou da gripe suína e até fez uso das máscaras. A situação ficou realmente dramática quando um velho passou mal e deu uma golfada de vômito no chão, forçando a fila a fazer um “desvio”. Uns pensavam que era sintoma da gripe, outros que era só a altitude. Até hoje não sabemos, mas que deu medo e nojo, deu.

Uma hora e pouco depois, finalmente conseguimos o carimbo no passaporte e pudemos seguir para o outro lado. Uma ponte sobre um rio congelado separa as duas imigrações, que ficam a 200m uma da outra.

Do lado boliviano, que desde o planejamento da viagem eu imaginei que seria o ponto mais tenso da viagem inteira, dada a fama de complicadores e corruptos dos policiais bolivianos (já passei por isso quando fui a Machu Picchu), tudo acabou sendo muito rápido.

Um militar que fazia a segurança do local perguntou de onde éramos e nos deu as fichas de imigração (em duas vias e sem carbono) para preencher. Perguntou se tínhamos a carteira de vacinação de febre amarela (que é a grande deixa para pedir propina a brasileiros desavisados), mas nem mesmo pediu para olhá-la. Acotovelamos-nos numa mesinha de canto para preencher os papéis e, em cinco minutos de fila, os entregamos junto com o passaporte ao tiozinho que estava sentado na frente de um computador e que dava as carimbadas nos passaportes. Pronto.

O Harold, um amigo meu que já tinha ido de caminhonete ao Peru e passado por ali, tinha me avisado que Villazón era, no entender dele, o que havia de mais “fim do mundo” em matéria de fronteira, por isso cheguei com as piores expectativas possíveis à cidade. Talvez em razão disso tenha achado tudo muito tranqüilo. A cidade não é pior do que Ciudad Del Este ou a parte baja de Encarnación.

Tirando o fato de que não dá para bobear no meio da rua, se não se é atropelado, a cidade transmite um ar de tranqüilidade em meio àquela informalidade toda de comércio por todos os lado, nas primeiras quadras depois da ponte.

Nosso objetivo era só chegar até a agência de turismo com a qual tínhamos reservado as passagens de trem a Uyuni e o próprio Tour de 3 dias pelo Salar e pelas lagunas altiplânicas. A agência ficava bem na praça central de Villazón, a umas quatro ou seis quadras da fronteira, caminhando pela avenida principal. Não tinha erro.