30/05/2010

Iquique

Como eu falei no post anterior, Iquique entrou no nosso roteiro por ser um ponto estratégico entre San Pedro e Santiago, de onde voltaríamos para o Brasil de avião. Acabou sendo a escolhida, em detrimento de Antofagasta, Calama e Arica, que eram as outras opções. Em Arica já tínhamos estado em 2003, em Calama a única atração seria conhecer as minas de Chuquicamata e Antofagasta não parecia ter nada além do porto que fosse atraente. Já Iquique tinha algum interesse histórico, como vou falar a seguir, e a ZOFRI – Zona Franca de Iquique, que é sempre um atrativo para quem quer aproveitar o mochilão para voltar para casa com um tênis ou um eletrônico pela metade do que custa no Brasil.

Iquique, de certa forma, parece com uma cidade do Velho Oeste. A cidade teve um boom e crescimento no final do século XIX e início do século XX, quando se descobriu o potencial comercial das minas de nitrato em suas redondezas. Ela pertencia à Bolívia, como toda costa norte chilena até Antofagasta, mas foi tomada pelo Chile na Guerra do Pacífico, nos anos 1890, justamente nesse período de crescimento.

O nitrato era um minério que servia para a produção de pólvora e, como era de se imaginar, era um produto que despertou muito interesse na Europa e nos EUA. Com isso, vários empreendedores se instalaram na cidade e grandes levas de trabalhadores foram contratados. Os prédios construídos nessa época é que deram à cidade o ar de Velho Oeste de que falei: na sua maioria, são sobrados de dois andares, feitos de madeira e pintados em cores vibrantes, sempre com uma sacadinha no segundo andar, com colunas de madeira branca ou de ferro. O casario hoje é patrimônio histórico protegido na cidade e as casas mais velhas estão recebendo reparos. Na praça central da cidade, um símbolo dessa era: um relógio inglês com ares de Big Ben, todo branco, em frente a uma ópera e clubes de imigrantes europeus ricos.



Com a grande quantidade de trabalhadores mineiros, surgiram grandes sindicatos e vários foram os conflitos entre empregados e patrões, alguns com muitas mortes ainda lembradas em pichações em alguns prédios da cidade.

Entretanto, a produção e a exportação do nitrato entraram em declínio ainda na primeira metade do século XX e a cidade estagnou. A crise se instalou e tudo ficou meio abandonado por várias décadas, até que no final dos anos 1970, ainda no Governo Pinochet, fizeram a Zona Franca para dar um “choque” na economia. Toda a região da qual Iquique é capital ficou isenta de uma série de impostos, de modo que a cidade passou a ser o que Manaus representa para o Brasil: um lugar com fábricas de eletrônicos, onde se pode comprar carros quase sem impostos, com muita importação e exportação.

Mais recentemente, a cidade começou a investir no turismo. Abriu cassinos e melhorou a estrutura das praias, que são consideradas umas das melhores do Chile – país que tem água muito gelada na maior parte de seu extenso litoral. Hoje, a cidade também é conhecida por muita gente que gosta de surf e de sandboard – o mar é bravio e há uma gigantesca duna de areia, a Duna do Dragão, atrás do centro da cidade. Vários prédios de apartamentos estão sendo construídos nas áreas mais novas da cidade, que promete ser um lugar ainda melhor num futuro próximo.

Antes de tudo isso, bem antes do nitrato, a cidade teve papel estratégico na guerra de independência do Chile, que se separou do Vice-Reino do Peru, dependência da Coroa espanhola. Por isso, existem na cidade também algumas atrações que exploram a guerra naval vencida pelos chilenos.

Por fim, um dado importante para os chilenos: há sol e tempo bom quase o ano inteiro – exceto quando estivemos lá, pois a neblina e o tempo nublado foram a cara mais comum que o tempo nos mostrou!

28/05/2010

A surpresa de Iquique

O ônibus entre Calama e Iquique estava previsto para chegar no destino final por volta das 8h da manhã. Estávamos certos disso, mas fomos acordados às 5h da manhã com a notícia de que já havíamos chegado. Está certo que fazer uma viagem mais rápido do que o previsto é bom, mas não quando não se tem para onde ir.

Tínhamos reservado no site do HostelWorld, ainda em San Pedro, uma noite no único albergue do Hostelling International em Iquique. As diárias, como de costume, começam sempre às 12h de um dia e terminam ao meio-dia do dia seguinte.

Chegando às 5h da manhã, sem reserva para antes do meio-dia, ficamos num mato sem cachorro. Havia duas holandesas na mesma situação e propusemos que fôssemos todos junto ao albergue, para ver se conseguíamos pouso antecipado – nem que para isso tivéssemos que pagar por um quarto.

O táxi andou e andou bastante. A rodoviária de Iquique é bem longe do albergue e da parte mais nova da cidade. Quando chegamos ao albergue, a pessoa que estava na portaria nos recebeu muito bem, mas deu a triste notícia: não havia camas disponíveis para todos, apenas 2, que cedemos às holandesas. Quanto a nós, o jeito foi nos acomodar nos sofás da área de uso comum, que também tinha um banheiro bem limpinho e que ficava num canto mais escuro.

E foi assim que começamos o dia em Iquique: dormindo numa área de uso comum do albergue, até que amanhecesse. Ninguém conseguiu dormir mais do que uma hora, mas foi o suficiente para decidirmos desde logo começar o dia conhecendo a cidade.

Acertamos com a portaria do albergue de deixar nossas coisas num depósito de bagagem até o meio-dia, quando voltaríamos e faríamos nosso check in, com a reserva que estava no sistema em nosso nome.

De cara deu para ver que o albergue era muito bom e os donos muito simpáticos. Esse talvez tenha sido o melhor albergue daquela nossa viagem – um lugar onde ficamos por cerca de 40 horas, tendo nos hospedado por apenas 24h, como contarei nos próximos posts. Totalmente surpreendente encontrar um lugar tão legal numa cidade sobre a qual não esperávamos muito. Tínhamos escolhido ir para lá como ponto de passagem para Santiago só pelo fato de ter uma Zona Franca na cidade, mas acabamos descobrindo um lugar muito aprazível e interessante, com um albergue daqueles que dá vontade de voltar.

No dia seguinte, conversando com os donos, perguntamos tudo o que sempre quisemos saber sobre albergues mas nunca tivéramos para quem fazê-lo. Explicaram como foi a decisão de abrir o lugar, como foi difícil no início e como tudo melhorou depois que o Lonely Planet os colocou nas indicações de seus guias sobre o Chile e América do Sul. Disseram que, até hoje, não sabem quem foi que fez a avaliação do albergue pelo guia, porque os caras realmente permanecem anônimos, para não sofrerem interferência dos donos ou serem tratados de forma diferente dos demais. Explicaram que a filiação do albergue junto à HI é um processo relativamente simples, que não custa mais do que uns 300 dólares por anos e que serve de catapulta inicial para albergues desconhecidos, embora possa se tornar um peso depois de algum tempo, com a concorrência de albergues independentes e uma certa má fama que os albergues da HI têm em algumas partes do mundo.

O albergue fica num casarão antigo, com cara de castelinho, e é muito aconchegante. Na sala, tem um telão de TV, ao lado mesas para comida, com cozinha para os hóspedes, e uma mesa de sinuca. No canto, nossos conhecidos sofás. Os quartos, como pudemos ver depois do meio dia, também era muito aconchegantes, com pisos de tabuão e móveis de madeira – camas simples e não beliches. O banheiro masculino, com três chuveiros um pouco resistentes em largar água quente, chegava a formar fila dependendo do horário, mas é a única coisa que deixava a desejar.

O toque especial dos donos fica por conta das jantas que fazem à noite. Enquanto estivemos lá, na segunda noite, já esperando um vôo para Santiago, participamos de uma parrillada, com um pedaço de carne para cada um, salada e arroz – tudo liberado.

26/05/2010

Despedida de San Pedro

Na tarde após o retorno dos gêiseres, não fizemos nada de significativo. Depois do almoço, voltamos ao albergue, onde combinamos com os brasileiros que haviam chegado para ficar em nosso quarto que deixaríamos nossas bagagens no mesmo lugar até o final da tarde, quando viajaríamos a Calama e de lá para Iquique. Assim, não precisaríamos ficar com as mochilas a tarde inteira e poderíamos tomar um banho antes da viagem de ônibus.

Depois de trocarmos de roupa para suportar o calor da tarde, demos mais umas voltas pelo centro, principalmente para comprar algum presente que ainda faltava para amigos e familiares. Não demorou muito e já estávamos num barzinho novamente – vazio àquela hora da tarde, se não fosse por nós.
As passagens de ônibus já estavam compradas desde o dia anterior. Vira e mexe, no Chile se acaba comprando passagens da TurBus, que é companhia com maior número de ônibus e linhas, com mais opções de horários – embora com preços mais altos. A nossa estava marcada para umas sete da tarde, com conexão de umas duas horas em Calama e, depois, outro ônibus para Iquique, onde chegaríamos só no início da manhã seguinte.

Nas cidades chilenas normalmente não há estações rodoviárias públicas. Cada companhia de ônibus tem os seus próprios terminais. Em San Pedro, o terminal da TurBus fica quase na saída da cidade, perto do trevo para Calama, por onde já tínhamos passado no passeio de bike pelo Vale da Morte. Foi para lá que fomos depois de um banho no albergue e de recolher nossas coisas. À espera do ônibus, havia dezenas de pessoas, a maioria mochileiros – muitos europeus. Em San Pedro de Atacama, só dá gringo mesmo, quase mais do que a população chilena local.

O ônibus saiu na hora marcada e, surpreendentemente, não estava passando nenhum filme. As luzes foram apagadas logo em seguida para permitir um breve mas bom sono até Calama, que fica a uns 150km dali.

Ainda não sabíamos o que fazer para passar as quase três horas que tínhamos em Calama e, especialmente, como iríamos jantar. Num primeiro momento, pensávamos em pegar um táxi até algum shopping local e depois fazer o mesmo de volta à estação. Chegando lá, porém, logo desistimos. A cidade não parecia ter muita coisa aberta àquela hora, estava frio e escuro já, e a estação de ônibus parecia ser bem distante do centro da cidade. Decidimos, por isso, comer e esperar ali mesmo.

A decisão se tornou certa ao percebermos que o único guarda-volumes da rodoviária de Calama já estava fechando e que, por isso, não poderia ser usado.

A rodoviária estava bem muvucada àquela hora. Dizem que Calama sempre tem movimento porque é uma das cidades que mais cresce no país, especialmente por causa da indústria da mineração e energia geotérmica. Foi quase impossível conseguir algo para comer naquele lugar. Acho que fomos os últimos a conseguir os últimos cachorros-quentes que havia para vender no único bar aberto da estação – e isso que não passava das 21h...

Depois de comermos, o jeito foi esperar. Compramos alguma coisa para ler numa banca de revistas e ficamos sentados no chão mesmo, terminando o lanche que serviu de janta. A única distração era ficar olhando os cachorros sem dono que ficavam para lá e para cá tentando conseguir alguma comida em meio aos mochileiros e viajantes sentados no chão da estação, esperando ônibus.
Lá pelas 23hs, finalmente chegou nosso ônibus. Foi deitar e dormir. Não vi absolutamente nada da viagem – e nem poderia ter visto, já que é tudo um deserto entre Calama e Iquique e tudo estava no mais absoluto breu. Só que, ao acordar, tivemos uma surpresa...

24/05/2010

Gêiseres de El Tatio

Depois do Valle de La Luna, chegamos na cidade e já planejamos uma saída noturna. Fomos a um Café, bem na esquina da rua ao lado da praça central. Não consigo lembrar o nome, mas, olhando o guia de viagem, acho que era o Café Export.

Ali jantamos, acabamos com a cerveja do lugar (literalmente, porque ao final o garçom ia comprar cerveja em outro boteco para continuar nos servindo) e ficamos até altas horas.

Apesar da noite anterior, o dia seguinte era daqueles em que se tinha de levantar às 4h da manhã para fazer passeio. O objetivo era a visita aos gêiseres de El Tatio.

Acordar foi difícil, mas ficar na rua, no meio da madrugada, com temperaturas negativas, esperando o tour nos pegar também foi tão ou mais difícil.

Logo na saída, o guia explicou que o ônibus passaria por estradas de terra e pedra a maior parte do tempo e que sentiríamos a altitude pegando na medida em que subíssemos. Não dava para ver muita coisa naquela escuridão da madrugada, mas o guia não estava mentindo. Andamos por estradinhas bem mal conservadas.

No meio da viagem, acabamos pegando no sono e só fomos acordar com um certo “comício” em torno de uma janela que não fechava direito e que ficava esfriando o ônibus inteiro por conta disso. Paramos algumas vezes para fechá-la, mas nas últimas vezes a tarefa foi se tornando cada vez mais difícil, porque os vidros foram congelando pelo lado de fora.

Já estava clareando no horizonte quando chegamos ao campo de El Tatio.

Esse lugar é considerado como um dos maiores e mais ativos campos geotérmicos do mundo, o maior do hemisfério sul e o terceiro em nível mundial. Há inúmeros gêiseres em constante ebulição por todos os lados, com algumas piscinas naturais de águas termais aqui e ali. Fala-se inclusive no aproveitamento desse potencial energético através de uma concessão a uma empresa privada, chamada Geotermica Del Norte, o que afetaria muito o turismo no local, já que os gêiseres não entrariam mais em ebulição caso uma usina fosse implantada.
Como os próprios guias fazem questão de informar, em qualquer lugar sério do mundo seria proibida a circulação de pessoas por entre os gêiseres, já que uma explosão de água quente em cima de uma pessoa poderia ser fatal. Ali, no entanto, se ganha dinheiro com a visitação e que cada um cuide de si.

Logo no início do passeio, depois de algumas explicações acerca do lugar, é servido café da manhã, que é requentado nas águas quentes dos gêiseres e que está incluído no preço do tour.
Depois do café, o pessoal fica liberado para tomar banhos nas piscinas térmicas e para andar para lá e para cá no campo. Dessa vez, não tive coragem de entrar na água, porque alguns diziam que partes da piscina estavam frias.

Depois que o sol vai saindo, vai ficando mais bonito ver os jatos de água e vapor, mas a intensidade das erupções vai diminuindo. Exatamente por isso é que os passeios são feitos tão cedo da manhã.

O retorno de El Tatio é feito por estrada que passam por paisagens andinas muito bonitas. Assim que algum animal é visto, seja uma lhama, alpacas, vicunhas, lebres ou aves, o ônibus para e o pessoal desce para tirar fotos. No início até é legal, mas com o tempo vai cansando um pouco.

No meio da estrada entre El Tatio e San Pedro, o ônibus faz uma parada em Machuca, um povoado típico do lugar, com menos de 100 habitantes, que vive basicamente do pastoreio e de alguma produção agrícola. A renda dos produtos vendidos a turistas, basicamente comidas típicas e chás, reverte em favor da comunidade.

O lugar é realmente atípico: um povoado no meio das montanhas, todas cobertas por uma vegetação rala e amarelada, com rio de água congelada no fundo do vale, numa altitude aproximada de 3.000m. Não se espera que tenha muito que fazer por lá...
O caminho de volta a San Pedro foi bem sofrido. O ônibus já vinha atrasado em relação ao horário de chegada previsto, a fome começava a bater porque passava do meio-dia e várias interrupções da estrada por conta de obras atrasavam tudo ainda mais. O guia também não ajudava muito – acho que foi o mais chato de todos os passeios daquela viagem.

Mas, finalmente, lá pelas 13h30, chegamos e pudemos sair para comer alguma coisa.

22/05/2010

Valle de la Luna

Já havíamos acertado no dia anterior um passeio ao Valle de La Luna com uma agência, que é o meio mais barato e fácil de fazer esse tour. Como a saída estava prevista para as 3 da tarde, ainda tivemos tempo para almoçar tranquilamente, antes de ir para a frente da agência esperar o ônibus, junto com uma galera que estava na mesma.

O passeio ao Vale da Lua atrasou um pouco na saída, mas cumpriu com o que prometeu.

A primeira parada foi justamente o Vale da Morte, no qual tínhamos passado a manhã. Mas, dessa vez, era pela parte de cima que o vimos, por onde os veículos podem passar. Enxergamos de longe e do alto todos os lugares por onde andamos de bike pela manhã e até a duna em que o pessoal faz sandboard. A vista lá de cima permite ver e entender bem a geologia da região, que é marcada pela divisa entre a Cordilheira dos Andes e as serras que vão em direção ao Oceano Pacífico.

O lugar lembra um pouco aquilo que se vê na TV sobre o Grand Canyon: camadas de rochas de diferentes cores sobrepostas, com cortes profundos que permitem visualizá-las ao lado de grandes morros. Algumas das fotos mais bonitas que fizemos nessa viagem, na minha opinião, foram tiradas nesse trecho, tanto que usei essa que está aqui em cima como capa do fotolivro que fiz quando voltei.

A segunda parada do dia já era dentro do parque nacional do Vale da Lua. São cavernas e túneis subterrâneos pelos quais andamos, onde se extraía sal diretamente da rocha no passado.
Há trechos totalmente escuros, em que se tem de passar agachado ou meio deitado, com cuidado para não se cortar ou machucar nas pontas de pedra.
Na saída, numa parte bem mais ao alto, tem-se uma vista do lugar, bem diferente daquele da primeira parada.

A terceira parada foi o lugar conhecido como “Três Marias”. São rochas verticais e bem estreitas, conhecidas pelos missionários antigos que estiveram no local como representações de três figuras bíblicas. Ficaram assim por causa do vento e da erosão, corroendo-as por milhares e milhares de anos. Como os guias fazem questão de explicar, uma delas ficou “prejudicada” por causa de um turista, que se pendurou numa das suas pontas e acabou quebrando, de modo que hoje estão mais para “Duas Marias e meia”.
A quarta parada foi no “anfiteatro”, que é uma formação rochosa que dizem ter uma acústica perfeita. Os guias brincam que cresceram a vida inteira ouvindo que o Pink Floyd um dia faria um show ali, boato que nunca se confirmou.
Por fim, a quinta e última parada, é a grande duna do Vale da Lua, de onde se pode ver o pôr do sol. Para lá, todas as excursões pelo vale se dirigem ao final do dia, para que as pessoas tomem assento e fiquem esperando o espetáculo de luzes e sombras que ocorrem todos os dias com o céu claro.

A subida é bem exigente e deve ser feita devagar. Os guias aconselham que as pessoas caminhem mais pelo lado de dentro da estradinha, porque fora a areia é mais fofa e torna a subida mais penosa.
Quando chegamos lá em cima, vários lugares já estavam tomados e fomos indo bem para a ponta, onde segundo o guia a vista era melhor.

Devagarinho, o sol vai se pondo no horizonte, e tudo vai ficando escuro, num tom entre o negro e o azul. Aos poucos, porém, vai aparecendo um reflexo nas montanhas ao redor. Primeiro elas vão ficando douradas, depois avermelhadas e, por fim, púrpura.

O jogo de cores que sol faz nas montanhas formadas por diferentes tipos de rocha e areia é realmente muito bonito, uma das coisas mais bonitas que já vi. Nem dá para perceber que, ao final, já está fazendo bastante frio, quando é hora de ir embora, agora de um jeito bem fácil: correndo no areião do outro lado da duna.

19/05/2010

Valle de la Muerte

No dia seguinte, acordamos num horário relativamente bom, não muito cedo nem muito tarde, afinal de contas fazia dias que vínhamos acordando cedo, seja para viajar, seja para passeios.

O albergue não oferecia café da manhã, por isso fomos direto a um café na Calle Caracoles, para fazer uma refeição mais completa. Não sai muito barato, mas o “pacotões” de café da manhã realmente valem a pena nesses lugares. Desde torradas e omeletes a sanduíches, com chá e achocolotado, dá para fazer qualquer combinação.

O passo seguinte foi providenciar o primeiro objetivo do dia: conhecer o Valle de La Muerte de bicicleta.

Há vários lugares para alugar bicicletas em San Pedro, com preços bem parecidos. O importante é verificar bem o estado das bikes, para não passar perrengue no caminho. Assim que nos decidimos, pagamos qualquer coisa em torno de 10 dólares para sair com as “magrelas” para os lados do Vale da Morte.
O tal vale fica a uns 2 ou 3km da cidade, na estrada em direção a Calama. Logo depois que se sai da cidade, anda-se no asfalto por uns 2km, passa-se pelas placas indicando a cidade (as vistas das montanhas ao redor de tudo é muito bonita dali) e encontra-se uma entradinha à direita.

Nessa entrada, não há mais asfalto, nem estrada propriamente dita. O vale começa ali. São formações rochosas, com bastante marcas de erosão, que permitem passagem entre si, formando quase um labirinto. Não há como se perder porque as trilhas que são usadas por quem alugas as bikes estão bem marcadas no chão. Apenas em um momento entramos num beco sem saída e tivemos de dar a volta.

O passeio não é muito puxado. Existe apenas um trecho da estrada que é de aclive mais acentuado, o que exige deixar a marcha da bike bem leve; no resto, é quase tudo plano.

A atração ali é ir adentrando no vale, até chegar a grandes dunas de areia, onde o pessoal normalmente faz sandboard. Naquele dia, não quisemos fazer – só faríamos dali alguns dias em Iquique, e por isso só “escalamos” as dunas a pé para olhar a paisagem lá de cima e descansar.

O lugar é bem remoto e acredito que se alguém for para lá sozinho poderia até ficar com medo, mas é pouco crível que alguém mal intencionado vá ficar num lugar que não tem absolutamente nada vivo, nem uma plantinha – daí o nome do lugar (embora haja quem diga que, na verdade Valle de La Muerte é uma pronúncia errada do nome original “Valle de Marte”, pela semelhança com a paisagem daquele planeta).
Um passeio ao vale exige um pouco de cuidados e preparação, contudo: protetor solar, dois litros de água por pessoa e um casado para se proteger no inverno (apesar do sol e da secura, faz frio na sombra e quando venta). Um pouco de sorte com relação à bicicleta também é bom: eu não tive nenhum problema, mas um dos guris caiu num trecho da ida e o outro teve problemas com a correia da sua bike.

O passeio todo durou algo entre 2 e 3 horas. Pouco depois do meio-dia, estávamos voltando a San Pedro, agora acompanhados de mais gente que estava lá na duna fazendo sandboard.

Na volta, ainda paramos para algumas fotos na paisagem ao redor das placas de entrada na cidade.

17/05/2010

Tarde preguiçosa

Livres das mochilas, nos pusemos a encontrar um lugar para almoçar. Tomamos um chopp e comemos descansadamente, como quem tira férias das férias por um momento. Não pretendíamos fazer nenhum passeio fora naquele primeiro dia, só ficar vadiando pela cidade e conhecendo o que podia ser visto a pé.

Fizemos a digestão na pracinha da cidade, olhando o movimento – na maioria das vezes de mochileiros chegando de viagem e ainda procurando hospedagem. Tomamos café, comemos sobremesa, e depois fomos ao caixa automático (um dos dois que a cidade tem) para sacar uns pesos chilenos. Até então, estávamos usando um estoque de moeda chilena que eu tinha de uma viagem anterior a Santiago, da qual ainda falarei aqui no blog.

Depois, entramos no museu arqueológico Gustavo Le Paige, que é a “maior atração turística” da cidade. A entrada é bem baratinha, mas mão tem nada demais no museu, que é dedicado a povos atacamenhos pré-colombianos e os objetos por eles deixados. O mais interessante mesmo é ler um pouco sobre a história e a evolução do lugar, porque os objetos não chamam tanto a atenção.Conhecemos a igrejinha branca de San Pedro, que fica bem na frente da Prefeitura e nem nome tem, ao lado da praça. Como a maioria das igrejas da região, a parte externa é toda de adobe e a parte interna, amadeirada, é feita com cactus. Ao seu lado, está uma casa conhecida como a Casa Incaica, que foi construída em 1540 e na qual dizem que Pedro de Valdivia, personagem histórico chileno, teria dormido.
Depois, arranjamos um tempo para conhecer as possibilidades de passeios a serem feitos nos dias seguintes, indo de agência em agência até descobrir que basicamente todas vendiam os mesmos pacotes.

Aproveitamos para fazer umas comprinhas, basicamente camisetas e peças de lã de alpaca nas lojinhas de rua, e antes de escurecer já estávamos num barzinho, na Calle Caracoles (onde fica a maior parte dos lugares comerciais) para mais algumas cervejas até a noite.

Jantamos num restaurante que nos chamou a atenção durante o dia, chamado Casa Piedra, que realmente era muito bom. À noite, a maioria dos lugares para comer tem grandes fogueiras no centro, por causa do frio, o que dá um ar diferente de outros lugares por onde passamos.

16/05/2010

Albergue em San Pedro

Até fazermos a imigração em San Pedro e chegarmos no centro da cidade, já passava do meio-dia. Não tínhamos nem mesmo uma reserva de albergue, já que não sabíamos exatamente quando chegaríamos na cidade e nem qual escolher, dada a infinidade de opções – todas com muito pouca informação.

Saímos andando pela cidade, primeiro parando nos albergues recomendados no Lonely Planet. Sinceramente, nenhum valeu a pena.

O albergue “oficial”, filiado à Hostelling International, parecia mais um amontoado de quartos sem nada dentro, com uns triliches altíssimos, que não nos atraíram nenhum pouco. O pátio, bem pobrinho e sem vida, não parecia ser um lugar muito alegre à noite.

Outra opção era um albergue de um casal de eslovenos que se apaixonou pela cidade e ficou, chamado Sonchek. Até entramos e demos uma olhada, mas parecia mais uma pousada para pessoas mais velhas, com tudo muito organizadinho e sem agitação. Não havia disponibilidade para um dos dias em que ficaríamos lá, por isso teríamos que nos trocar no meio da semana para outro quarto.

Ainda olhamos mais outro, chamado Eden Atacameño, do qual nem me recordo direito, e também não gostamos. Decidimos então começar a olhar aleatoriamente os albergues, dentre aquele que íamos passando entre as idas e vindas ao albergues do Lonely Planet. Acabamos gostando de um chamado “Florida”, que tinha um ar honesto, preços em conta e aparência de um lugar legal. O site é http://www.sanpedroatacama.com/hs-florida.htm e o endereço C Tocopilla, 406.
Não nos arrependemos. Escolhemos um quarto para quatro pessoas e, embora estivéssemos em três, pagamos para ficar com o quarto todo, considerando que não havia lockers para deixar as coisas de valor. O banheiro, pequeno e longe do quarto, era o único defeito do lugar, que se revelou um bom ponto de encontro para vários mochileiros.

14/05/2010

San Pedro de Atacama

San Pedro de Atacama é uma cidade com menos de 5 mil habitantes, que não tem aeroporto, não tem praia, não tem montanha, sem bons restaurantes e com hotéis no máximo razoavelmente confortáveis. Fica a pelo menos 150km de qualquer cidade com infraestrutura razoável e não tem nada que possa ser qualificado como uma história com interesse especial. Nenhum filme de renome foi filmado aqui, não é terra para prática de esportes radicais, fica num dos lugares mais secos do mundo e tem temperaturas que conseguem variar, num só dia, de -10°C na madrugada a uns 30°C no meio da tarde. Além do mais, tornou-se um dos lugares mais caros da América do Sul.

Apesar de tudo isso, é um dos maiores pontos turísticos do Chile e qualquer gringo metido a mochileiro que se preze e que tenha planos de vir à América Latina sabe o seu nome e conhece onde fica.

A cidade é realmente peculiar e soube muito bem vender o seu peixe. Por ser quase um oásis no meio do deserto do Atacama, tornou-se uma base para passeios por toda a região, num raio de mais de 100km, a maioria deles do estilo bate-e-volta. Basta entrar na cidade e você já será assolado por ofertas de passeios para que você saia dela, ou seja, para que vá conhecer lugares ao redor do lugarejo.
O centrinho de San Pedro do Atacama não é formado por mais do que umas 10 quadras, com umas 4 ruas no sentido norte-sul e umas 4 ruas no sentido leste-oeste. De qualquer ponto da cidade se pode ver o vulcão Llicancáhur, embora ele esteja a quase 80km dali. Não há nenhum prédio com mais de dois andares à vista e o que se vê mesmo são ruas empoeiradas com casinhas de adobe, material típico das construções atacamenhas. Algumas até são modernas e confortáveis por dentro, mas a maioria não.

Mesmo sabendo de tudo isso, queríamos conhecer a cidade desde que passamos rapidinho por lá em 2003, numa volta apressada para casa, depois de ter atingido o objetivo Machu Picchu. O retorno ao Atacama, como contei nos posts dos preparativos, foi adiado mais de uma vez e quase não saiu por conta do surto de gripe.
O simples fato de estar num lugar tão isolado e diferente, com tantas atrações estranhas ao redor, para serem visitadas a cada dia, era o nosso motivador. Como não tem muito o que fazer à noite, o lugar acaba sendo um daqueles bons para fazer as coisas com calma, conseguindo-se descansar bem entre um passeio e outro.

Em San Pedro, o negócio é se dispor a fazer de tudo: andar de mountain bike, encarar águas termais no meio do clima gelado, acordar às 4h da manhã só para ver campos de gêiseres, ficar no frio da noite em cima de uma duna no meio do deserto para ver o efeito do pôr do sol nas montanhas, e por aí vai. Se não valesse a pena, não tinha tanta gente sempre indo e voltando para lá.

12/05/2010

Na estrada

Ao deixarmos a caminhonete na qual viajamos por três dias, encontramos uma fila de gente embarcando num ônibus para San Pedro de Atacama, que também era o que deveríamos tomar. O próprio guia, antes de se despedir, foi quem nos encaminhou ao ônibus da agência Cordillera.

Não demorou mais do que meia hora até começarmos a curta viagem até San Pedro.

O primeiro trecho de estrada, de menos de 20km, é de terra, ou melhor de ripio. As paisagens são as melhores do trecho: a outra face do vulcão Llicancáhur, aquele mesmo que se vê desde as lagunas do altiplano. O detalhe é que, do lado chileno, pode-se ver com mais clareza a calota de neve permanente que existe no topo.

Dizem os guias que naquela neve no topu do vulcão há um lado com espécies aquáticas que constituem um bioma único no mundo, com espécies de crustáceos que não são encontrados em nenhum outro lugar.

Assim que o trecho de terra termina, entra-se numa estrada muito bem conservada, bonita, e quase toda em declive, até San Pedro. É a mesma estrada que passa pelo Paso de Jama, na fronteira com a Argentina, e na qual eu já tinha passado com o Diego cerca de 6 anos antes. Dessa vez, parecia ainda mais bonita - talvez pelo contraste com a pobreza da Bolívia, com a qual tínhamos convivido nos últimos dias.

A estrada é utilizada principalmente por caminhoneiros, inclusive brasileiros, que fazem o transporte de carga em direção ao porto de Antofagasta. Como o trecho tem longos declives, saindo de uma altitude que beira os 4.200m para algo abaixo de 3.000m, há várias saídas de segurança, com barreiras de pedra brita e pneus nas margens da estrada, para um caso de emergência em que os freios de um caminhão venham a falhar.
Nesse ponto, como em quase todo o Chile, já há sinal de celular, e pudemos dar sinal de vida para namoradas e família. Não demorou muito e estávamos chegando em San Pedro. São pouco mais de 50km até a entrada do parque nacional boliviano em que ficam as lagunas.

A fronteira chilena, nesse ponto, é avançada. Fica na cidade de San Pedro de Atacama, o que significa que, do momento em que o motorista sai da Argentina ou da Bolívia até chegar em San Pedro ele não está, oficialmente, em nenhum país, porque ainda não deu entrada formal ao Chile - embora esteja em território chileno.

Na aduana, o motorista do ônibus enfático para que todos coloquem fora quaisquer frutas, folhas de coca ou artesanato de madeira, porque os fiscais chilenos são muito rigorosos com a fiscalização dessa proibição de entrada, que visa preservar a agricultura do país. Nem tanto assim: um de nós apenas perguntou ao fiscal se poderia entrar com um saquinho de folhas de coca, o sujeito deu uma olhada e liberou... Vai entender?!