29/02/2008

De Arica a San Pedro de Atacama

O ônibus que pegamos em Arica foi o melhor de toda a viagem. Como eu já tinha dito no post anterior, o nome da empresa era Pullman Bus. Revirando minhas coisas, encontrei o canhoto da passagem e vi que custou 8.000 pesos (hoje igual a 16 dólares), o que não é muito, considerando que são umas 9 horas de viagem até Calama. As poltornas eram bem largas, reclinavam bastante, havia serviço de bordo (sanduichinhos, chocolate), ar condicionado na temperatura ideal, filme em volumes razoáveis. A única coisa que estranhamos foi um sujeito que recolhe os passaportes de todo mundo, para fazer anotações lá na frente, e demora um bom tanto para devolver - não havia como não ficar meio preocupados em ser privados do único documento de viagem que tínhamos.

Deu para dormir muito bem, mas pelo menos 2 vezes durante a viagem, no meio da madrugada, fomos acordados e obrigados a descer do ônibus para passar por umas espécies de aduanas internas. O que entendi é que existem zonas de proteção sanitária das frutas e do gado cada vez mais rígidas à medida que se aproxima do centro do país e, pelo que soube, partes do norte também seriam zonas francas fiscais. Todas com raio-x e, eventualmente, revista das bagagens maiores.

LEMBRETE: se você carrega máquinas analógicas com filmes profissionais (ISO bem alto), é melhor não deixá-los passar pelo raio-x. Avise o fiscal e tire da mochila antes de colocar na esteira.

Esse trecho é todo desértico, por isso fazia bastante frio à noite, embora fosse janeiro. É bom sempre ter um casaco à mão, porque os motoristas fazem cara feia se você pedir para abrir o bagageiro no meio da viagem.

Pela manhã, logo que saiu o sol, percebemos uma agitação entre alguns turistas, que começaram a olhar para fora das janelas. Estávamos passando por Chuquicamata, cidade onde está a maior mina a céu aberto do mundo.

Também conhecida simplesmente como "Chuqui", o lugar ficou famoso por ter entrado no roteiro de Che Guevara, em seu mochilão de motocicleta pela América do Sul. Ali, o futuro revolucionário ficou impressionado com as condições de vida dos mineiros e, segundo contam, teria despertado sentimentos humanitários em relação ao povo.

Embora ainda seja economicamente muito importante (boa parte da produção de cobre do Chile - e do mundo - vem dali), Chuquicamata se tornou um povoado fantasma, pois mais ninguém mora ali (o último morador teria saído em dezembro de 2007). Por questões de saúde, os mineiros foram progressivamente sendo removidos para Calama e outras cidades próximas. Declarou-se o lugar "zona saturada de partículas respiráveis e anidro sulfúrico", permitindo-se apenas atividades industriais.

Nós não descemos lá, mas há passeios pela cidade e pela mina disponíveis para turistas.

Cerca de 16km adiante, já estávamos em Calama, destino final daquela viagem de ônibus. Eram cerca de 6hs da manhã quando chegamos. O ônibus não pára numa estação rodoviária, mas na sede da própria empresa. Conversando, descobirmos que Calama não teria propriamente uma estação e que, para seguir viagem, deveríamos procurar as outras empresas de ônibus que fazem os trechos seguintes. Andamos umas 4 ou 6 quadras até achar a região onde havia algumas delas.

Acabamos acertando com uma empresa cujo ônibus para Salta (Argentina) sairia às 10hs da manhã. Segundo a responsável, não havia mais como emitir passagens ali, mas poderíamos embarcar e pagar o preço total na escala que o ônibus faria em San Pedro de Atacama, para pegar mais gente. O preço total (Calama a Salta) era bem salgado: US$ 35, mas não tínhamos muita opção.

Até que chegasse o horário do ônibus, demos umas voltas pelas quadras ao redor da empresa. Como era domingo de manhã, e cedo, tudo estava fechado. Vimos que uma padaria abriria dali a pouco e esperamos para entrar. Compramos alguns pães, atum, alguns doces e tomamos um café.

Acredito que não haja muito o que ver em Calama, pelo que já ouvi de amigos. Parece que até há alguns shoppings com coisas baratas, meio free shop, mas nada além de passeios à mina de Chuquicamata. A cidade é bem plana, no meião do deserto, com quadras bem quadradinhas e nenhum prédio que aparente ter valor histórico.

O ônibus saiu na hora marcada e pouco mais de uma hora depois já estávamos chegando em San Pedro de Atacama. Lá, conseguimos comprar oficialmente a passagem, pagando os 35 dólares.

Curiosamente, a imigração e a aduana chilenas ficam nessa cidade, que está a uns 160km da fronteira argentina. Talvez os chilenos tenham pensado mais no bem-estar de seus funcionários do que na "segurança nacional", já que a fronteira propriamente dita fica no meio do nada, a uns 4200m de altitude. Já os argentinos, estão lá, bem na fronteira.

Aduana Chilena em San Pedro, 160km antes da fronteira de verdade

28/02/2008

Arica

O táxi nos deixou na estação rodoviária internacional de Arica e, assim que percebemos que ali não havia passagens para destinos nacionais, fomos para outro terminal, ao lado, onde estavam as companhias que vendem passagens para cidades mais próximas. Depois de muita pesquisa, acabamos comprando uma passagem para Calama, cidade próxima a San Pedro de Atacama, com saída às 21h30, pela empresa Pullman Bus (que se revelaria uma ótima escolha).

Deixamos as mochilas em um guarda-volumes e só levamos o que seria necessário para passar uma tarde na praia.

Da rodoviária até a orla é pouco mais de 1km, por isso fomos caminhando mesmo. Como já tinha passado do meio-dia, a primeira coisa que fizemos foi encontrar um lugar para almoçar. Acabamos escolhendo uma pizzaria.

Passamos aquela tarde na praia, caminhando para lá e para cá, mais descansando que qualquer outra coisa. Embora seja considerado o balneário com as águas mais quentes do Chile e mesmo sendo janeiro, a água era muito fria para permitir mais do que umas entradinhas rápidas na água, mais para molhar as pernas do que qualquer outra coisa. Não é todo dia que se toma banho no Pacífico, por isso a insistência em pelo menos tentar.

Arica é considerada uma das cidades mais secas do mundo. O deserto do Atacama, ao lado, tem um dos menores índices de precipitação do planeta, havendo pontos que passam até 400 anos sem chuva. A visão que se tem, no horizonte, é a de dunas gigantes de areia, completamente apagadas por uma espécie de névoa seca. Do lado do centro da cidade há uma rocha (Morro de Arica) que se ergue em direção ao mar, cartão postal de Arica. Ali perto, fica também um porto bastante movimentado, que inclusive serve o Peru.

Historicamente, Arica pertencia ao Peru, que perdeu o território para o Chile após a Guerra do Pacífico, mesma na qual a Bolívia perdeu sua saída para o mar, por Antofagasta, também para o Chile. Um sujeito com quem conversamos, dono das duchas nas quais tomamos banho no final da tarde, para nos preparar para a viagem, falava orgulhosamente que ninguém da cidade era louco de querer voltar a ser peruano - e eles que experimentassem tentar retomar a cidade, pois seriam corridos a bala!

A praia, como se vê nas fotos, é bem espalhada, por isso não chega a dar a impressão de que tenha bastante gente. O jeitão não é muito diferente do Brasil, com vendedores de sorvete, de churros e bugigangas passando de tanto em tanto.O espetáculo do dia foi o pôr-do-sol no mar, coisa rara no Brasil, que tem quase toda a costa voltada para o leste.

Estávamos tranqüilos com relação ao horário de nosso ônibus. No entanto, ao conversar com aquele homem que falava sobre o orgulho de ser chileno, ficamos sabendo que não tínhamos ajeitado nossos relógios da forma correta quando passamos na fronteira. Ao invés de apenas uma hora de diferença de fuso, como pensávamos, havia 2 horas de diferença em relação ao Peru, porque o Chile tinha implantado horário de verão. Aí bateu o pavor: tínhamos que estar em meia hora na rodoviária para não perderu o ônibus. Ajeitamos as coisas e pegamos um táxi, mas chegamos a tempo de ainda pegar alguma coisa para comer na própria estação.

LIÇÃO DO DIA: nunca negligencie em verificar qual o fuso horário quando cruza uma fronteira. No Sul e Sudeste, estamos no fuso GMT -3; no MT e MS em GMT -4. Quando é horário de verão no Brasil, soma-se uma hora (Brasília fica GMT -2 e no MS é GMT -3). Na Bolívia, o fuso é igual ao do Mato Grosso no inverno (GMT -4); não há horário de verão. No Peru o fuso é GMT -5, e também não há horário de verão. No Chile é GMT -4, mas tem horário de verão. A Argentina tem seguido o horário de Brasília.

DICA: se você pretende ficar mais algum tempo em Arica, não deixe de visitar o Parque Nacional de Lauca, que fica a pouco mais de 150km da cidade, com agências fazendo esse passeio. Só pelas fotos que aparecem nos sites a respeito, dá para imaginar que legal que deve ser, com todos aqueles vulcões e lagos de altiplano. É também uma das recomendações do Lonely Planet (que hoje eu tenho, mas naquela época não!).o

27/02/2008

De Cusco ao Chile

A viagem entre Cusco e Tacna não começou nada bem. O espaço entre os bancos era mínimo, o ar condicionado parecia que não daria conta do calor e, em alguns minutos, a coisa piorou de vez. Do nada, um sujeito levantou e começou todo um discurso de que tinha perdido o emprego, que tinha não sei quantos filhos e que precisava sobreviver. Em seguida, passou a falar das maravilhas que as suas barrinhas de cereal faziam à saúde. Passou de banco em banco, constrangendo todo mundo a comprar pelo menos uma, salientando os benefícios que uma barrinha feita com técnicas "incas" trariam. Passado o primeiro incômodo, não demorou muito e outro indivíduo se apresentou. Contou uma história parecida e disse que, para viver, tocada violão. Tirou uma viola da mochila e começou a tocar músicas típicas da região, gritando de um jeito bem desafinado. De tanto em tanto, passava com o chapéu, pedindo colaborações. Naquela hora, eu juro que me deu um desespero, pior do que qualquer outra viagem que tínhamos feito... Acho que o cara deve ter ficado mais de meia hora tocando e niguém fez nada. Bom, quando ele terminou, foi como se tirassem o bode da sala: tudo ficou muito bom e consegui dormir um pouco.

No trajeto, só paramos numa cidade chamada Juliaca para pegar mais passageiros e para o lanche (que, como de costume, era feito apenas com vendedores gritando nas janelas e entrando no ônibus para oferecer seus produtos). Pela manhã, bem cedo, por volta das 5hs, chegamos a Arequipa, onde teríamos que trocar de ônibus.

Na minha cabeça, conexão é conexão - a passagem comprada vale até o final do destino. Mas lá, não. Descemos com o motorista, que tirou dinheiro do bolso e comprou outra passagem para nós, em outro ônibus, no qual continuaríamos até Tacna, porque a empresa não seguiria até lá. Vai entender.

Se alguém ficou com curiosidade sobre qual era a empresa de ônibus, aí vai o nome: Cruz del Sur.

Ficamos só cerca de uma hora na estação rodoviária de Arequipa, até que partimos. Na saída, o pouco que vi da cidade foi impressionante: um vulcão nevado ao fundo, dominando a paisagem (depois descobri ser o vulcão Misti). Ta aí uma cidade que merecia uns 2 dias para conhecer; quem já foi disse que é bem legal.

A viagem entre Arequipa e Tacna foi mais tranqüila. Havia menos gente no ônibus, que era um pouco melhor que o anterior. Já descansado, fiquei olhando a paisagem, bem diferente daquela vista até então: era tudo já desértico, só rocha e terra. O trecho é quase todo de descida também, pois Tacna fica no nível do mar. No caminho, a única cidade relativamente importante é Moquegua, que é bem feinha e aparentemente não tem nada para se fazer.

Na rodoviária de Tacna, onde chegamos por volta do meio-dia, informamo-nos sobre como teríamos que proceder para passar a fronteira até Arica. Logo ficamos sabendo que o jeito mais prático (e não tão caro, se você divide entre 4 pessoas) era pegar um táxi até lá. Segundo as informações, não havia ônibus urbano que cruzasse a fronteira. Acabamos acertando com um taxista o preço de 25 soles para nós 3 (cerca de 25 reais, na época). A única foto que tenho do lugar é do estacionamento dos táxis na rodoviária em Tacna, todos uns carrões americanos importados usados. Ao fundo, montanhas de areia e rocha com desenhos que, na maioria, era protestos ou propagandas políticas.

Fizemos o câmbio com o que ainda tínhamos de soles, trocando por pesos chilenos, ali mesmo.

A distância até Arica é bem significativa: entre 50 e 60km. Quase no meio do caminho, a fronteira. Primeiro, fizemos a saída do Peru, sem qualquer problema. Entramos no táxi de novo e, mais um pouco, fizemos a entrada no Chile. Tudo bem profissional, com estrutura de aeroporto, com raio-x e tudo.
A diferença entre um país e outro logo se percebe - o Chile é um país muito mais desenvolvido, com coisas até melhores que no Brasil, mas isso é assunto para outra hora.

Quanto ao Peru, acho que é um país muito legal, embora pessoalmente tenha gostado mais da Bolívia. (As piadinhas são inevitáveis com quem diz que gostou do Peru, mas não tem nada a ver com isso...) Acho que o país não oferece tantos desafios como a Bolívia e que já perdeu a inocência em relação ao turismo. Passa a impressão de não ser tão seguro também. Conheci muito poucos lugares, praticamente só Cusco, por isso prefiro não dar muita opinião. Ainda quero voltar lá um dia, para conhecer Lima, sobrevoar Nazca, fazer outros passeios no Vale Sagrado, conhecer Puno. A maioria dos gringos que está fazendo um mochilão completo pela América do Sul vem descendo desde o Equador pelo litoral do país, só entrando mais para o interior quando vão a Machu Picchu e Arequipa, logo, deve ter algumas coisas legais para ver por lá.

26/02/2008

A volta para Cusco

O trem de retorno saía cedo, lá pelas 5hs da manhã. Não dormimos mais do que umas quatro horas e por isso mesmo já havíamos deixado tudo pronto para acordar e ir direto para a estação.

Ao contrário do trem entre Quijarro e Santa Cruz, este era muito confortável, melhor até do que muita coisa que se vê no Leste Europeu. O preço, relativamente caro, cerca de 4 vezes mais que a passagem normal, faz com que os turistas fiquem separados dos habitantes da região. Há mais de um trem por dia e àquela hora não havia muita gente viajando (para ter acesso aos horários e preços, veja o site da PeruRail).

A viagem é muito bonita, passando por vários túneis, numa estrada de ferro que acompanha o rio Urubamba e as montanhas ao lado. Em 2004, houve um grande deslizamento de terra que deixou a linha interrompida por vários dias. Apesar de tudo, não há como não dormir, em razão do cansaço.

Lá pelas tantas, alguém de nós resolveu ler bem as passagens e conversar com outros turistas. Foi aí que ficamos sabendo que o trem só ia até Ollantaytambo e que, de lá, deveríamos pegar um ônibus até Cusco.

Descemos, juntamente com todo o público e logo procuramos um ônibus. Como de costume, era mais um daqueles que sai quando fica lotado - o que não demorou muito para acontecer. A passagem não era cara: S/.5,00 para cada um.

A viagem durava cerca de uma hora, passando por paisagens muito bonitas também: campos alagadiços com montanhas nevadas ao fundo.

Quando chegamos em Cusco, tratamos logo de fazer o que já contei no post sobre a contratação da Trilha: fomos até a agência e cobramos o valor do trecho de ônibus que não nos disseram que não estaria no pacote. O acertado era trem de retorno a Cusco, não a Ollantaytambo. O dono admitiu o erro e concordou em nos indenizar o valor da passagem. Mochileiro mão-de-vaca é isso aí!

Naquela altura, já tínhamos decidido seguir viagem e não dormir mais em Cusco, se conseguíssemos passagem para a fronteira com o Chile naquele mesmo dia.

Fomos até o hotel onde havíamos deixado parte de nossas coisas antes da trilha para buscá-las. A intenção era acertar mais uma diária naquele mesmo lugar, mas com a condição de que, se viajássemos à noite, pagaríamos só meia diária. O dono não aceitou e por isso fomos para um hotelzinho a uma quadra dali, que prontamente aceitou a proposta, já que estava com lotação baixa.

O Giórgio já estava pensando, desde antes da Trilha, em estender a permanência em Cusco, até mesmo para encontrar outros amigos que chegariam na cidade. Nós nos mantivemos com o propósito de voltar naquele dia e fomos até a rodoviária, de táxi, ver se conseguíamos passagens. Acabamos comprando para o final da tarde (acho que 18hs), com destino a Tacna.

Voltamos para o centro, compramos alguns pães, atum e maionese no mercado e fizemos o almoço do dia. Preparamos também alguns sanduíches para levar na viagem. Por fim, despedimo-nos do Giórgio e aproveitamos as últimas horas na cidade para fazer umas compras, já descendo para a rodoviária com as mochilas, porque sabíamos que havia um centro de artesanato lá perto.

25/02/2008

Descendo até Aguas Calientes

Após decidirmos que já era hora de ir embora das ruínas de Machu Picchu, o Leonardo, o Diego e eu buscamos nossas mochilas no portão de entrada e começamos a descer para Aguas Calientes pela estrada "Hiram Bingham", que é esse zigue-zague que aparece na foto abaixo.
A descida leva quase uma hora e é bastante cansativa para os joelhos, em razão do peso da mochila e do cansaço. Para ir mais rápido, o melhor é cortar caminho pelo meio da vegetação, entre uma reta e outra. Na maior parte do trecho, formaram-se trilhas no mato, havendo inclusive escadas para as partes mais íngremes.

Chegando lá embaixo, às margens do Rio Urubamba, há uma grande placa de boas vindas ao Parque Nacional onde fica Machu Picchu. Para atravessar o rio, há duas pontes - uma para veículos, pela qual passam os ônibus que sobem até as ruínas levando os turistas que chegam de trem, e outra para pedestres (foto).
Depois da ponte, segue-se pela estradinha costeando o rio por cerca de 3km, até o povoado de Aguas Calientes.

Esse povoado tem o nome oficial de "Municipalidad Districtal de Machu Picchu", mas é conhecido pelo nome "Aguas Calientes" tanto para não confundir com as ruínas propriamente ditas como pelo fato de que, na cidadezinha, há um balneário de águas termais. Foi formado logo em seguida à redescoberta de Machu Picchu para servir como base de apoio para os trabalhos no sítio e como ponto final da ferrovia que vem de Cusco.

O rio faz muito barulho ao longo de quase toda a estrada e ao lado da própria cidade, tornando o lugar muito diferente de qualquer outro que já vi.

As poucas casas que existem no local espremem-se entre altas montanhas, o rio barulhento e a estrada de ferro que corta o povoado. Praticamente não há carros, pois não há estrada dali para outros lugares - só ferrovia. A "rua" mais importante da cidade, com vários restaurantes, cibers e albergues é justamente a linha do trem. Quando algum passa, o povo abre caminho e depois retoma os trilhos como se fosse só um ônibus que tinha passado.
Conforme combinado anteriormente, encontramos o guia e o resto do grupo num restaurante ao lado do rio, para recebermos a indicação do hotel onde ficaríamos e as passagens de trens.

Aproveitamos para almoçar. Tudo é muito caro no lugar. Lembro que pagamos uns 30 reais por uma pizza feita num forno acendido com jornal, depois de muita dificuldade. A pizza ficou a desejar, mas não havia muita opção àquela hora da tarde.

Fomos com o guia até a estação de trem para comprar as passagens. Estrangeiros estão proibidos de usar o trem até Cusco pagando o preço que os locais pagam. Tem que mostrar identificação e pagar o preço de turista para viajar no trem. No caso, isso já estava incluso no pacote da Trilha, por isso precisávamos só acompanhar o guia e emitir as passagens. (Mais informações no site de turismo da cidade, clicando aqui.)

Em seguida, fomos para o hotel. Ficava bem numa esquina da praça central (e única) da cidade. Os quartos tinham o tamanho mínimo para que coubessem quatro camas. Chegava a ser difícil passar de um lado para o outro, mas tinha um aspecto bem limpo.

Deixamos as coisas, pegamos uma mochila menor e fomos até as águas termais, sobre as quais já tínhamos nos informado com os locais. Para chegar lá, basta atravessar a praça e tomar uma rua que sobe em direção às montanhas. Alguns metros depois, vê se a entrada, à esquerda, para os baños termales.

Pagamos algo em torno de R$5,00 para entrar. Ao contrário do que imaginávamos, o lugar praticamente não é freqüentado por turistas (pelo menos naquele dia). Vale muito a pena, para relaxar. É bem legal a sensação de estar em piscinas de pedra quentinhas com montanhas cheias de neblina ao redor, inclusive com riachos de água (provavelmente gelada) fazendo barulho. Há algumas bem quentes mesmo. Só tem que tomar cuidado para não baixar demais a pressão e para não se resfriar quando sair da água.

Depois de algumas horas lá, voltamos para o centrinho da cidade e tiramos um tempo para comprar presentes nas banquinhas que se estendem ao longo da estradinha de entrada na cidade, as quais tínhamos visto quando chegamos a pé.

À noite, jantamos num restaurante que vimos quando fomos para os banhos termais e depois passamos naquela "rua" da foto para telefonar para casa e para parar num barzinho.

Na hora de voltar para o hotel, a surpresa: sabe-se lá por que motivo, um helicóptero trazendo uma autoridade pousou na praça central. Depois de uns discursos, começou a distribuição de comida grátis para o povão e um bailão de rua. Ficamos ali só curtindo o festerê. Não demorou muito para já começarmos a ver os primeiros caindo de bêbados.

Como o hotel era ao lado da praça e a janela do quarto dava diretamente para ela, não tinha como dormir com o barulho do baile. Só depois de algum tempo, ajudados pelo cansaço e pela boa sensação de dormir numa cama de verdade depois de 3 dias acampando, conseguimos pegar no sono.

24/02/2008

Machu Picchu


Não é meu objetivo tratar aqui de detalhes sobre as ruínas da cidadela de Machu Picchu, informações que podem ser facilmente obtidas na internet, como por exemplo no verbete daquele sítio no Wikipedia. Também acho que muito do que se vê e se aprende só tem importância para quem esteve lá.

Algumas coisas, no entanto, acho interessante comentar.

A primeira que me vem à cabeça é que, ao contrário do que imaginamos aqui no Brasil, aquele "c" na palavra "Picchu" não é mudo na pronúncia correta do nome das ruínas. Os locais falam "Mátchu Píktchu".

Outra coisa que não imaginamos, a não ser depois de lermos mais a respeito ou de ouvir a informação dos guias, é que a cidade não é tão antiga quanto se pensa. Estima-se que tenha sido construída por volta de 1450, ou seja, apenas 50 anos antes da chegada dos espanhóis. Nesse ponto, embora seja uma das coisas mais legais para se conhecer no mundo, nem se compara em antigüidade com as Pirâmides do Egito, o Coliseu Romano, a Muralha da China ou mesmo muitas catedrais da Europa.

O que desperta o interesse sobre o lugar é justamente o mistério que o envolve. Ninguém sabe com certeza absoluta para que servia a cidade, sendo que tudo o que se diz são especulações históricas baseadas em pesquisas feitas posteriormente. Os incas não usavam a escrita e boa parte da tradição oral se perdeu com a dominação espanhola e a matança de milhares de indígenas. É surpreendente que o lugar tenha permanecido escondido por mais de 400 anos, até que tenha sido revelado ao mundo oficialmente apenas em 1911, por um explorador americano Hiram Bingham, precedido apenas por uns arrendatários de terras vizinhas.

Voltando à nossa visita a Machu Picchu, o que tenho que dizer é que, embora a experiência de vê-la à distância, ainda vazia, tenha sido muito boa, o mesmo não posso dizer dos momentos que se seguiram à abertura dos portões de acesso às ruínas. Toda aquela tranqüilidade e contemplação de 4 dias de Trilha meio que se desfaz, de uma hora para a outra, com a visão de centenas de pessoas enfileiradas, seguindo uns guiazinhos com uma bandeirinha na mão, fazendo barulho e soltando expressões de admiração pela primeira visão que tiveram do lugar.

São na maioria japoneses e americanos, um pessoal bem mais velho, atrolhados de máquinas super-modernas, fazendo um espalhafato para cada foto de grupo que tiram, preocupadíssimos em não se perder dos demais integrantes. Fica aquela impressão de que tudo aquilo ali está se tornando um pouco de Disneylândia. Conversando com outros amigos que já foram para lá, a impressão parece ser meio generalizada.

Acho que a sensação que tive talvez tenha sido maximizada justamente por causa da relativa distância da civilização que se fica na trilha e do choque que o retorno a ela causa.

Mas, depois daquele "ruim" inicial, a gente acaba absorvido pelo lugar e pela vontade de explorar cada cantinho. Como já disse no post anterior, é muito bom acompanhar alguém que explique as coisas mais importantes, para não deixar passar em branco muito do que Machu Picchu tem a revelar.

Acredito que tenhamos passado umas 5 ou 6 horas lá. Tem que guardar uma boa disposição depois de todos aqueles dias de caminhada para subir e descer os terraços que compõem a cidade. A altitude não é tão grande para quem já se acostumou a ela (cerca de 2400m acima do nível do mar), mas mesmo assim não pode ser ignorada. Lembro que um dos guris teve sangramento no nariz enquanto estava lá - sintoma da puna.

Pelo cansaço, não fiz a subida ao Huayna Picchu, montanha que fica bem no meio da cidade (só o Giórgio fez do nosso grupo). Para ir até lá, a pessoa tem que deixar dados pessoas e contatos, por ser muito perigoso o caminho até lá em cima. Há limitações de horário também: não se pode começar a subida depois das 16hs, para que que não escureça antes da descida e da saída do parque. Não há como acampar dentro do sítio histórico e logo que chega a noite as pessoas devem ir embora.

Após conhecermos as ruínas, estava combinado um encontro em Aguas Calientes, num restaurante, para a definição do hotel do pernoite naquele povoado e para a entrega dos tickets de retorno a Cusco (por trem).

22/02/2008

A entrada em Machu Picchu

A visão que se tem de Machu Picchu logo depois de descer do alto da montanha chamada Machu Picchu, na parte final da Trilha Inca, é espetacular. O caminho de pedras vai costeando a montanha oposta à cidade e, de tanto em tanto, tem partes mais largas que funcionam como verdadeiros mirantes da cidade. Nesse ponto é que tirei a foto abaixo, que inclusive já usei no post sobre meu primeiro mochilão.

A sensação de estar ali é muito boa. É sensação de objetivo alcançado, de "dever cumprido", de que tudo deu certo, apesar da nossa inexperiência. Não tem como não lembrar as horas no trem entre Quijarro e Sta Cruz, tudo que fizemos em La Paz, a correria para pegar o ônibus para Cusco... A cidade ainda vazia lá embaixo e o dia de sol mostram que acertamos mesmo em ter feito tudo da forma como fizemos.

Não tenho bem certeza, mas acho que essa visão mais de cima (que na minha opinião é a melhor) não é acessível por quem entra direto na cidade, sem fazer a trilha. O ponto em que os que fazem a Trilha se misturam aos que vieram direto é mais abaixo.

Antes de chegar nesse ponto de confluência, onde há um controle de ingressos para a entrada nas ruínas, passamos pelos terraços que servem de caminho até a Ponte Inca, outra das atrações locais. Lá havia várias lhamas pastando. Pudemos chegar bem perto delas, inclusive tocar, para tirar fotos.

Depois, descemos os grandes degraus dos terraços que havia mais abaixo, até o posto de controle de ingressos, onde também pudemos deixar guardadas as mochilas para conhecer as ruínas.

O combinado era de que logo depois que os portões de acesso às ruínas se abrissem nos reuníssemos para conhecê-las de perto com as explicações do Epifanio. Depois, teríamos todo o tempo livre para conhecer as partes que quiséssemos e descer para Aguas Calientes quando desse vontade. E assim fizemos.

É muito bom ter alguém explicando as coisas numa hora dessas, senão muita coisa passa despercebida. Detalhes como o significado da pedra de Intihuatana, dos templos existentes em determinadas partes da cidadela, da forma como as pedras eram cortadas e encaixadas, por que tipo de pessoas eram ocupados cada tipo de habitação são conhecidos só quando se tem alguém ensinando.

4º Dia na Trilha Inca

Antes mesmo que o sol nascesse, já estávamos de pé. Tínhamos sido avisados na noite anterior que deveríamos acordar por volta das 4h30 para tomar café e começar a caminhada às 5hs, quando abriria o último posto de controle da Trilha, em Wiñay Wayna.

Às 8hs, os portões de Machu Picchu se abrem para os que vêm de trem até Aguas Calientes e sobem de ônibus até as ruínas. São centenas de pessoas, a maioria em grupos de 30 a 60 pessoas, que invadem o lugar e tornam a experiência bem menos atraente.

O objetivo é chegar antes deles e aproveitar ao máximo Machu Picchu enquanto ela é só dos mochileiros que vêm pela Trilha.

Ainda estava bem escuro. Foi a única vez em que tivemos que usar lanternas para caminhar. Ao contrário dos outros dias, a concentração de gente era bem grande, quase uma fila indiana de pessoas apressadas para chegar o quanto antes a Machu Picchu. A fila já estava formada em frente ao posto de controle, que efetivamente abriu às 5hs em ponto. Creio que, por cerca de uma hora, mantivemos um ritmo muito mais rápido do que o dos outros dias, seguindo a multidão. Apenas alguns ficavam para trás, para descansar, ou pela dificuldade em descer e subir degraus mais elevados.

Uma subida mais forte precede o Portal do Sol, de onde se tem a primeira visão da montanha que há atrás de Machu Picchu. Na verdade, a montanha chamada Machu Picchu ("montanha velha" em quechua) é justamente esta em que fica o Portal do Sol. A da cidade de Machu Picchu se chama Huayna Picchu ("montanha jovem" em quechua).

O guia já tinha advertido que, embora a visão do Portal do Sol fosse muito boa, ela seria melhor ainda na medida em que se fosse descendo. Portanto, era melhor não gastar todo o filme (é, na época quase ninguém tinha máquina digital) batendo foto ali.

A noite, que estava coberta pela névoa, foi revelando aos poucos o que seria o melhor dia de sol da trilha. Por volta das 7hs, chegamos ao Portal do Sol e pudemos ver os primeiros raios clareando Machu Picchu, bem como o Rio Urubamba, lá embaixo.

21/02/2008

3º Dia na Trilha Inca

Acordamos um pouco mais tarde na manhã do terceiro dia de trilha, por volta das 8hs. O café da manhã já estava servido e em seguida estávamos caminhando novamente.

O terceiro dia se destaca por uma forte subida no início, até o Paso de los Venados; depois, um trecho sinuoso, mas relativamente plano, finalizando com uma forte descida.

A primeiva visão que se tem do dia é parecida com aquela que se teve do Warmiwañuska: o acampamento de Pacaymayo lá embaixo, em meio às montanhas, com riachos descendo em vários pontos, como na foto ao lado.

No alto dessa primeira subida, há um pequeno conjunto de ruínas chamado de Runkurakai. O guia explica que se tratava de um ponto de apoio para os viajantes incas que percorriam aquele caminho.

A Trilha Inca, na verdade, aproveita trechos de 3 caminhos incas que ligavam pontos do Vale Sagrado a Cusco, capital do Império. Como não havia qualquer tipo de veículo e não eram usadas carroças - apenas lhamas -, a largura da trilha era apenas o suficiente para uma pessoa ou um animal passar.

Das ruínas de Runkurakai, já se vê o Paso de los Venados, que tem alguns laguinhos, como o da foto abaixo. Em dias mais frios, esses lagos congelam. Quem acorda mais cedo, às vezes vê veados tomando água no lugar; daí o nome.

Logo depois do Passo, começa um trecho bem sinuoso, com escadarias alternando com trechos de pedra mais planos. Há até alguns arcos de pedra que se tem que passar por dentro, como pequenos túneis de partes em que há inclinação negativa das montanhas.

Não demora muito tempo e já se chega a Sayaqmarca, outro conjunto de ruínas. Estas tinham finalidades religiosas (culto ao Sol), além de também servir de abrigo a viajantes. Há traços que permitem observar rudimentos de encanamentos d'água e a forma como as paredes eram construídas para evitar desmoronamentos em caso de terremotos.

O trecho mais próximo a Sayaqmarca é um dos mais perigosos da trilha, em razão da sua pequena largura nesse ponto. A chuva fininha não ajudava muito.

Em seguida, fizemos a parada para o almoço, com uma longa pausa para fazer a digestão.

Retomando a caminhada, passamos por muitos trechos com escadarias. Não há praticamente nenhuma parte de chão batido nesse trajeto, é só pedra mesmo, num trecho que costeia montanhas e chega a dar vertigem. Há uma longa subida, mas lenta e gradual.

O próximo conjunto de ruínas que aparece é Phuyupatamarca, maior e mais completo do que os anteriores. Esse tinha finalidades quase que exclusivamente religiosas e acaba sendo o lugar onde o guia explica bastante sobre a religião inca, que cultuava especialmente o Sol, a Serpente, o Puma e o Condor.

Nessas ruínas, podem ser vistos grandes canais de água passando por praticamente todos os cômodos das habitações, bem como alguns terraços para plantio de hortas e ervas medicinais.

Depois dessas ruínas, o tempo firmou. Começou, então um trecho de fortes descidas, por escadarias que exigiam tanto dos joelhos como aquelas do dia anterior.

A vegetação começa a reaparecer mais exuberante à medida que se desce. Há um ponto em que novamente se avista o Rio Urubamba e a estrada de ferro, bem lá embaixo. Uma sensação de que já se está chegando perto de Machu Picchu é inevitável, dada a semelhança da paisagem com aquela que geralmente se vê nos cartões postais daquele lugar.

Um pouco antes de chegarmos lá, o guia já tinha avisado que haveria uma bifurcação. De um lado, se poderia descer até as ruínas de Wiñay Wayna (detalhe na foto abaixo). Do outro, para o acampamento de mesmo nome, onde seria dormida a terceira noite.

A descida até o acampamento é de chão batido, em ziguezague. Não faz parte da Trilha propriamente dita, mas foi feito para ter acesso ao lugar onde há uma certa infra-estrutura para acampar. O ziguezague pode ser evitado cortando pelo meio, através da vegetação.

Ao chegarmos, conseguimos finalmente tomar banho, depois de uma longa fila de espera.

É o acampamento mais lotado e as barracas acabam ficando bem próximas umas das outras. Há um restaurantezinho e inclusive um bar, que tem até cerveja, coisa que não víamos a 3 dias. O preço faz jus à distância: cerca de R$ 6,00 cada long neck, já naquela época.

A janta da noite, por ser a última e a primeira do ano-novo, seria especial, segundo o guia. Acabou sendo a mais sem graça: chuchu recheado com carne moída. Um vinhozinho de caixinha tetrapac para descer.

Nessa noite, também foi o momento de fazer uma caixinha para dar gorjeta aos porteadores.

Logo formos dormir, pois a idéia era sair bem cedinho para Machu Picchu.

20/02/2008

2º Dia na Trilha Inca

O segundo dia, segundo o guia, seria o mais puxado. A maior parte do tempo seria gasta em subidas até o Passo de Warmiwañuska ("Mulher Morta", em quechua), ponto mais alto da Trilha, com 4.215m de altitude. Justamente em razão do maior esforço, seria o dia de menor tempor de caminhada. A previsão era de que no início da tarde já estaríamos no próximo acampamento.

Levantamos cedo. Cerca de 5hs da manhã, chamaram-nos para o café da manhã. O dia amanheceu chuvoso, e assim continuou até a tarde.

Nesse dia, é fundamental que a pessoa mantenha o seu próprio ritmo, sem tentar acompanhar quem vai mais rápido ou muito menos os porteadores, que ultrapassam os turistas numa velocidade invejável. Creio que eu e o Diego tenhamos levado umas 4hs subindo até o passo naquele dia. O Leonardo vinha uma meia hora atrás. O Giórgio chegou uma hora antes de nós.

A paisagem vai mudando à medida que se sobe. De uma vegetação abundante, passa-se para vegetação rasteira, com pequenas árvores. É muito bonito ver nascentes de rios formadas a partir de neve derretida escorrendo aos pouquinhos montanha abaixo, ainda mais quando a pessoa lembra que tudo aquilo ali vai virar o Rio Amazonas milhares de km adiante.

O frio também aumentava. Como não saiu sol durante toda a caminhada, a sensação mais freqüente era de frio na parte da frente do corpo, exposta ao vento e à garoa, e calor nas costas, com suor causado pela mochila e pela capa de chuva.

Meus calçados foram lentamente ficando encharcados pelo lado de fora, até que comecei a sentir um pouco de água na parte da frente do pé, entre os dedos. Aí o desconforto aumentou,

As 4hs de subida alternam escadarias e trilhas de pedra relativamente inclinadas. Nesse trecho, quase tudo é original mesmo, do tempo dos incas. Só algumas pedras que rolaram por um motivo ou outro foram recuperadas.

Aproveitávamos o momento em que se tinha que dar passagem para camponeses com suas lhamas para recuar um pouco para o lado da trilha e descansar, tomando água. É fundamental curtir a paisagem, uma das mais interessantes da Trilha, porque é a mais próxima de montanhas altas.

Ao chegarmos no Warmiwañuska propriamente dito, tivemos a visão espetacular do outro lado das montanhas. Lá embaixo, o segundo acampamento. Há um marco que indica a altitude e uma área mais plana, que separa as montanhas ao lado do passo.

Ao contrário do que eu imaginava até então, a descida até Pacaymayo se revelou mais dolorida do que a subida. É mais de uma hora descendo escadarias de pedra, com degraus de uma altura que te obrigam a pular até o próximo. O impacto sobre os joelhos e tornozelos foi o mais sofrido da trilha, maximizado pela mochila e pelo cansaço das 4hs anteriores de subida. A visão do acampamento lá embaixo estimula a querer fazer esse trecho ligeiro, para chegar logo. Foi o pedaço da trilha em que mais vi gente caindo, portanto é bom tomar cuidado.

Conversei bastante com o Epifanio (guia) nesse dia, já que ele vinha num ritmo parecido com o nosso. Ele devia ter mais ou menos uns 50 anos. Contou bastante sobre o trabalho dele, como fazia para aprender inglês, como era caro morar em Cusco, falou sobre a história e os mistérios que envolvem o fim dos Incas. Era um sujeito muito agradável de se conversar, que passava uma tranqüilidade que se espera num lugar como aquele. Foi com ele também que descobri, pela primeira vez, como o Brasil é visto como um país imperialista pelos vizinhos sul-americanos. Entre os locais, eles só conversam em quechua, então não tem nunca como saber o que estão falando.

Chegamos no acampamento por volta das 14hs. Havia banheiros no local, mas com água gelada. O almoço já estava pronto quando aparecemos por lá.

A vista do acampamento era muito bonita, cheia de riachos escorrendo do alto das montanhas ao redor. Na foto, uma vista para a parte de cima:


A neblina ia e vinha, tornando o lugar ainda mais bonito. Havia bastante vegetação para baixo, mas muito pouca para cima, marcando o contraste. Mais para o fim da tarde, fizemos um lanche e, lá pelas 21hs, a janta. Era dia 31 de dezembro, e foi a primeira virada de ano que não vi passar, porque já estava dormindo. Não preciso nem dizer que ninguém estava soltando fogos no meio daquele lugar.

1º Dia na Trilha Inca

Conforme combinado, por volta das 7hs da manhã uma van da agência que nos levaria a Machu Picchu veio nos buscar no hotel. Eu e o Leonardo já estávamos melhor, apesar dos problemas no fígado horas antes.

Fomos de van até os arredores de Ollantaytambo, alguns metros antes do km82, onde entraríamos na Trilha.

Visão do trem que vai a Machu Picchu e do Urubamba, na entrada da Trilha

Naquele local, serviram o que seria o almoço do dia: massa com molho vermelho e sopa com ovo. Foi também a oportunidade para conhecermos o pessoal que faria parte de nosso grupo pelos próximos dias. Além de nós 4, havia uma equatoriana, um casal de belgas, um português e 3 franceses (não me lembro se 2 não eram suíços). O guia se chamava Epifanio e ficamos felizes ao perceber que foi a mesma pessoa que nos abordou na praça no dia anterior para vender o pacote. Havia ainda uns 4 porteadores - pessoal que carrega e monta as barracas e que faz a comida.

Logo depois do almoço, entramos na trilha. Há um controle dos ingressos, previamente comprados pela agência, que são então carimbados. O pessoal checa os nomes, e nesse hora que tivemos que nos valer dos nomes europeus com os quais estávamos fazendo a trilha.

Na frente do posto de controle da entrada, há uma ponte pênsil de madeira sobre o rio Urubamba, um afluente distante do Amazonas.

O primeiro dia é relativamente tranqüilo. A maior parte dos trechos são quase planos, costeando montanhas com bastante vegetação; é um bom começo. O solo é de chão batido, quase não há pedras e, se bem me lembro, também não havia praticamente nenhuma escadaria a subir ou descer nesse dia.


A chuva vinha e voltava, obrigando a parar para colocar e tirar a capa da mochila e do corpo. Teve um momento que era tão forte que paramos perto de umas casinhas, que são mais freqüentes nesse ponto da Trilha do que em qualquer outro.

As únicas ruínas que vimos nesse primeiro dia foram as de Llaqtapata, de longe (foto da esq, abaixo). Elas ficam próximas à entrada pelo km88 e eram utilizadas pelos incas para plantações de milho.


Chegamos no primeiro acampamento do dia por volta das 19hs, já estava escurecendo. Havia lanche nos esperando - chá, biscoitos e pipocas. Avisaram que dali 2hs serviriam a janta, como de fato o fizeram.

Montaram uma barraca de 4 pessoas para nós. O tamanho até que era bom, não dava tanto aperto. Banho, como já disse no post anterior, não tinha onde tomar.

19/02/2008

Preparativos para a Trilha Inca

No post de hoje, vou tratar de alguns preparativos que acho que são importantes para fazer a Trilha Inca, nos moldes em que a percorremos.
  • BAGAGEM: para fazer a Trilha, quanto menos bagagem melhor. Não tem como levar apenas uma mochilinha pequena, porque afinal de contas são 4 dias longe da cidade. De outro lado, é loucura carregar todo aquele peso que você vem trazendo desde o Brasil em 4 dias de caminhada, com altitudes que variam de 2.400 a 4.000m acima do nível do mar. Assim, a melhor coisa a fazer é deixar parte de suas coisas em Cusco. A maioria dos hotéis e albergues fornece esse serviço de graça mesmo, desde que você tenha se hospedado lá antes da Trilha ou tenha reserva para depois dela. Aproveite para deixar na cidade coisas como presentes, roupas que você usa para sair à noite, potes grandes de shampoo, etc. Leve só o básico: roupas para 4 dias de caminhada, tênis resistente ou bota para trekking, capa de chuva para você, capa de chuva para a mochila, saco de dormir (informe-se se eles fornecem o isolante ou "aislante", como chamam por lá), cantil de água, itens de higiene pessoal em pequenas quantidades, máquina fotográfica, remédios, lanchinhos, etc. Como eu disse no post anterior, barraca e comida, eles fornecem.

  • PREPARO FÍSICO: na Trilha, você vai ver gente de todas as idades - de gurizões de 15 anos a velhos europeus de mais de 60 andando com cajados - bem como gente de todos os portes físicos - de magrelos a gordinhos. O importante é manter o seu ritmo, para não ter problemas. Evite chegar de avião direto a Cusco e fazer a trilha em seguida, porque seu corpo precisa estar adaptado à altitude há pelo menos 4 dias. Nós estávamos há mais de 6 dias em altitudes até mesmo maiores, como as da Bolívia, por isso não tivemos tanto problema. As caminhadas, na trilha de 4 dias, duram de 6 a 10 horas por dia; o resto é visitação de ruínas, refeições e descansos. Objetivamente, não é tanta distância: cerca de 57km; o problema é o sobe e desce e a altitude. Há muitas escadarias e não se pode esquecer que é você mais o peso da mochila que você leva. Eu estava numa época bem sedentária antes de viajar. A única coisa que fazia era ir e voltar a pé do meu estágio, que ficava a cerca de 1,5km de casa. Uns 20 dias antes da viagem, porém, comecei a fazer caminhadas matinais de até 9km, inclusive usando os calçados que levaria na Trilha, para acostumar os pés a eles. Antes de viajar, faça uma revisão no dentista, para ver se não tem algum problema latente que pode vir à tona com a altitude. Se você tem muito problema de joelho, talvez a Trilha não seja recomendável, porque as escadarias, especialmente nas descidas que às vezes duram mais de uma hora, exigem muito deles. Para quem tem problema de coração ou pressão alta, é bom consultar um médico antes - afinal, lá você não terá atendimento a não ser que um helicóptero se enfie no meio do mato; isso se alguém conseguir chamá-lo.

  • ALIMENTAÇÃO E HIDRATAÇÃO: a alimentação, como eu disse, está incluída nos pacotes vendidos para a Trilha, e geralmente é bem farta. Eles privilegiam sopas bem consistentes, carnes cozidas com vegetais e cafés da manhã com pães, torradas, sempre com café e chás à disposição. Os horários foram bem distribuídos na nossa, de forma que não chegávamos a sentir fome entre uma e outra. Entretanto, vale levar barrinhas de cereal ou frutas para comer no caminho, se der vontade. Evite comidas muito pesadas nos dias anteriores, para chegar bem. É importante manter-se hidratado, pois geralmente você sua bastante nas costas, onde fica a mochila. Na frente, com o friozinho da montanha, você acaba ficando mais seco. Para não carregar litros e litros de água nas suas costas, o jeito é recolher água de fontes naturais e riachos ao longo do caminho, sempre bem gelada, colocando uma pílula de cloro no cantil e deixando agir por meia hora antes de beber. Não tivemos nenhum problema com esse procedimento.

  • CLIMA: o clima de montanha traz alterações bruscas de temperaturas e condições climáticas em questão de minutos. Dizem que em janeiro é mais quente e chove mais e que em julho a chance de chuva é bem menor, mas pode até haver neve. No nosso primeiro dia, devemos ter tirado e colocado a capa de chuva pelo menos umas 4 vezes. No segundo dia, choveu fininho o tempo inteiro. No terceiro dia, que começou chuvoso, à tarde quase nos queimamos com o sol forte. As temperaturas variavam junto com o sol. Quando havia neblina, caíam para 5°C, mas a sensação térmica parecia mais alta - tanto pela umidade menor do que a brasileira como pelo fato de se estar com o corpo aquecido pela caminhada. No sol extremo, passava de 20°C. Eu geralmente andava de bermuda e de camiseta, mas com um casaquinho esportivo por cima. Capa de chuva, sempre num lugar de fácil alcance. No segundo dia, que é o mais frio, usei calça. À noite, tem que ter um blusão de lã mais um casaco para agüentar o frio e para dormir confortável.

  • HIGIENE: não havia lugar para tomar banho no primeiro acampamento, em Huayllabamba. No segundo acampamento (Pacaymayo), só havia banheiros com água gelada. No terceiro acampamento (Wiñaywaina) sim, haviam uns 2 ou 3 chuveiros para homens, com longas filas para o banho. No quarto dia, você já dorme em Aguascalientes, num hotel ou albergue. Nós passamos sem tomar banho até a terceira noite, onde havia chuveiro quente. Tinha lido que na montanha seu corpo se comporta diferente, que não sente tanta necessidade de banho, e não tinha acreditado, mas hoje concordo. Não foi tão traumático assim. Quanto às suas necessidades, ou é no mato mesmo ou numas patentes em algumas casinhas ao longo do caminho - senão, só nos banheiros de acampamentos. Leve papel!

  • OUTROS CUIDADOS: tente manter suas coisas secas o máximo possível. Não tem como não acabar passando um pouco d'água para dentro de seus calçados, da sua barraca ou de partes da mochila em dias de chuva mais intensa. Para cuidar da bagagem, o ideal é enrolar cada 2 ou 3 peças de roupa em saquinhos plásticos, de modo a separá-los dos demais, tanto para não misturar roupa suja com limpa como para não molhar tudo de uma vez se algo acontecer. O mesmo deve ser feito com documentos. Para cuidar dos pés, troque sempre as meias e, se necessário, use esparadrapos enrolados nos dedos e talco. Depois que os pés molham, começam a atritar mais com o calçado e acabam formando bolhas. Na barraca, cuide bem onde coloca suas coisas e jamais deixe de colocar o isolante debaixo do saco de dormir. Evite encostar suas coisas na lona externa da barraca, pois é o primeiro lugar que molha. Não deixe nada do lado de fora da barraca à noite, pois é bem provável que roubem enquanto você dorme. Leve baterias de máquina fotográfica suficientemente carregadas para os 4 dias, pois dificilmente você conseguirá tomadas disponíveis e tempo para carregá-las.

18/02/2008

Contratando a Trilha Inca

Originalmente, pensávamos que percorrer a Trilha Inca até Machu Picchu era uma coisa para fazer por conta própria. Daí é que surgiram os planos de levar barracas, utensílios para comida, entre outros equipamentos de camping. Alguns meses antes de viajarmos, porém, descobrimos através do site Machu Picchu - Nas asas do condor (link ao lado, nos recomendados) que a coisa já não era mais bem assim.

Desde que o Presidente Alejandro Toledo assumiu, tornou-se obrigatório o acompanhamento de um guia de uma agência credenciada. Com o risco de desmoronamento progressivo das ruínas da cidade, o número total de visitantes passou a ser restringido também, exigindo-se identificação individual dos turistas, tanto para conhecer a cidade propriamente dita (com acesso por ônibus) como para fazer a Trilha. Os lugares para acampar também estão pré-definidos, sendo vedado, por exemplo, dormir em lugares onde há ruínas.

Hoje, as regras atualizadas para a Trilha Inca podem ser obtidas de forma muito fácil, através do site do Instituto Nacional de Cultura de Cusco.

Ali se descobre que, independentemente do preço que as agências propuserem, existem taxas mínimas a serem pagas, como a entrada para o Parque Nacional de Machu Picchu e a tarifa de ingresso à Trilha, com preços variando conformne a origem da pessoa (nacional ou estrangeiro), se é adulto ou estudante (com carteira da ISIC).

No menu "Sistemas Reservas RCI" descobre-se com antecedência se há ou não lugares disponíveis para os dias que se deseja fazer a Trilha. São 500 pessoas autorizadas a entrar na trilha por dia, qualquer que seja a rota percorrida.

Apenas agências credenciadas podem oferecer o serviço, mas a variedade encontrada em Cusco é tão grande que nem se sabe, direito, quem é que se está contratando e quem é que vai efetivamente fazer a Trilha com você.

A Trilha Inca também não é única. Há diferentes rotas dentro do parque nacional que podem ser feitas. As 2 mais tradicionais são aquelas que começam no km82 e no km88 da ferrovia Cusco-Machu Picchu, passando por Huayllabamba. Mais recentemente, passou-se a vender rotas passando pelo Salkantay, que é um dos picos nevados mais altos da região. Nós percorremos a Rota que entra pelo km82 (Piscacucho), com pernoites em Huayllabamba, Pacaymayo e Wiñay Wayna.

As opções também variam conforme o número de dias que se quer para percorrer a trilha. Nós fizemos em 4 dias, acampando 3 noites, mas há que acampe em apenas 1 ou 2 noites - aí evidentemente os preços baixam um pouco. Nossa opção levou em conta, primeiro, o fato de ter mais tempo para tirar fotos e conhecer as outras ruínas que existem no caminho, antes de Machu Picchu, e em segundo lugar, o esforço físico que se exige numa Trilha mais rápida.

Na verdade, não fizemos opções exatas antes de compreender como funcionavam as coisas, perguntando nas agências de turismo. Percorremos várias, e aos poucos percebemos que pouca coisa variava, até porque muitas pareciam só fachada para operadores maiores.

As ruas pelas quais se procuram agências são como as da foto abaixo - não se assuste!

Já estávamos conformados com a idéia de ter que esperar pelo menos 3 dias em Cusco até sairmos, porque a informação era a de que esse era o tempo mínimo que levava para encaminhar a documentação, inclusive com desconto para estudante. Na época, os preços variavam em média entre 180 e 130 dólares pela trilha de 4 dias.

Lá pelas tantas, estávamos sentados na Plaza de Armas e um sujeito se apresentou como guia de turismo e perguntou se não tínhamos interesse em ir no dia seguinte para a Trilha. Perguntamos como e ele disse que, como era corriqueiro na região, a agência dele comprava entradas a mais para a Trilha em nome de turistas que já tinham ido outras vezes e vendiam de última hora.

Desconfiamos, mas decidimos averiguar se tinha como arriscar. Fomos até a agência e conversamos com o pessoal, que nos garantiu que poderíamos fazer a Trilha numa boa com nomes de outras pessoas. Se alguma coisa acontecesse, o máximo que fariam seria multar a agência, jamais mandar o turista de volta.

Negociamos bastante o preço e acabamos fechando por US$ 135 para cada um.

O pacote incluía deslocamento de van até a entrada da trilha, 3 pernoites em barracas para 4 pessoas montadas e desmontadas pelo pessoal da agência, café da manhã, almoço, lanche e janta todos os dias de trilha, entrada no Parque Nacional, pernoite em hotel de Aguascalientes (depois de Machu Picchu) e retorno de trem até Cusco. A barraca, o isolante térmico e os utensílios de comida eram por conta deles; nós tínhamos que levar só o saco de dormir e coisas de uso pessoal.

Já antecipo que tudo o que foi prometido foi cumprido. Um único problema que surgiu foi que não estava incluído o trecho de ônibus entre Ollantaytambo (onde parava o trem que vinha de Aguascalientes) e Cusco, mas quando chegamos na cidade reclamamos e eles nos indenizaram o preço dessa passagem extra (cerca de R$ 5 por pessoa).

E assim foi. Chegamos em Cusco num dia e no dia seguinte estávamos fazendo a Trilha, sem qualquer reserva. Eu viajei com o nome de um inglês, outro também, e outros 2 com nomes noruegueses.

OBSERVAÇÕES: hoje em dia, não recomendo que ninguém faça o que fizemos, porque parece que a coisa está mais profissional e há mais controle. O ideal é reservar com antecedência, usando internet e telefone, para não pagar mico em Cusco. Nada como viajar tranqüilo e em seu próprio nome.

Pesquise bastante. Há muita oferta e os serviços são parecidos.

Outra dica é negociar muito. Seja chato. Diga que brasileiro é tudo pobre e não tem como pagar tanto, que você está num grupo grande, que viu preços mais baratos, que não está tão afim assim, etc. Vale a pena. No nosso grupo, descobrimos que dois belgas pagaram US$ 275 cada um para ter o mesmo serviço que nós (e eles ainda insistiram em levar a própria barraca). Na média, o pessoal pagou cerca de US$ 180, enquanto que nós ríamos à toa com aqueles US$ 135.

Seja generoso na gorjeta aos porteadores no último dia de viagem. Você vai aprender a valorizar o trabalho dos caras, que fazem todo o "serviço sujo" com uma rapidez incrível naquelas altitudes. É um pessoal muito humilde, mas muito trabalhador, que fica apenas com alguns trocados do que as agências faturam.

17/02/2008

Um pouco mais sobre Cusco

Em Cusco, tem-se realmente a sensação de estar num lugar com importância turística mundial. Há mochileiros de todas as partes do mundo, especialmente europeus de países mais ao norte (Alemanha, Inglaterra, países da Escandinávia), americanos, argentinos e brasileiros.

Exatamente em razão disso, nota-se mais profissionalismo nas agências de turismo e nos serviços, quando se faz alguma comparação com a Bolívia. Os preços, também, já não são baratos quanto na primeira parte da viagem, mas nada que assuste.

Há muita coisa para ver e fazer em Cusco. Depois de passar pelo menos um dia vasculhando o centro, sem maiores compromissos, bem como conhecendo mercados de artesanato, lojas de produtos de lã de lhama e museus, o ideal é fazer passeios de um turno inteiro a ruínas próximas à cidade, como Sacsayhuamán (logo acima da cidade, com ruínas que revelam pedras encaixadas de maneira ainda mais perfeita do que em Machu Picchu) e Ollantaytambo.

À noite, também há opções, a maioria pertinho da Plaza de Armas e dos albergues de mochileiros. A mais famosa é, sem dúvida, a Mama África, discoteca mais tradicional dos mochileiros que vão a Machu Picchu.

Nós, no entanto, estávamos com um objetivo definido: fazer o quanto antes a Trilha Inca. Em razão disso, aproveitamos pouco a cidade, tendo apenas passeado no centro, pela manhã e em parte da tarde.

No final da tarde, compramos alguns itens que faltavam para cada um e fechamos a Trilha para o dia seguinte (conto mais no próximo post).

À noite, o efeito do restaurante mexicano sobre o qual eu tinha falado se manifestou: uma dor de fígado, com vômitos, dor de cabeça e cansaço. Não consegui sequer sair naquela noite, tendo ficado sozinho no quarto. Os demais foram para o centrinho e conheceram os barzinhos do lugar.

Lá pelo meio da madrugada, o Leonardo também voltou passando mal. Às 5hs da manhã, fomos nós 2 até uma farmácia que funcionava 24hs, no início da Avenida El Sol (mesma que desce para a rodoviária) comprar remédio, já que em 3hs estaríamos a caminho da Trilha.

Chegando em Cusco

Cuzco (na grafia mais usada) ou Cusco (na grafia oficial do Peru) é a cidade base para quem quer fazer a Trilha Inca ou simplesmente conhecer Machu Picchu.

Há um aeroporto internacional que recebe milhares de turistas todos os anos e lojas que vendem todo tipo de equipamento. Brinca-se que uma pessoa pode sair do serviço só com um terno e chegar na cidade no dia seguinte que encontrará tudo que precisar para fazer a Trilha Inca.

Nós chegamos na cidade por volta das 5hs da manhã, enquanto ainda estava amanhecendo. Apesar do frio que passamos no ônibus (que tinha banheiro, mas não fazia paradas para lanche), conseguimos dormir o suficiente.

Depois de alguns minutos pensando o que fazer, decidimos aceitar uma das muitas ofertas de táxi grátis até o centro, para conhecer albergues, sem compromisso. Acabamos não ficando com o primeiro, que era realmente muito ruinzinho. Com toda a bagagem, caminhamos umas boas quadras e passamos por pelo menos 4 albergues e hotéis até nos decidirmos pelo Carlos V, na Calle Teqsecocha, por cerca de R$18,00 por pessoa em quarto quádruplo. Como a maioria dos locais para se hospedar, era um casarão colonial de 2 ou 3 pisos, com piso de tabuão e grandes janelas nos quartos que dão para a rua.

Dica: ao procurar hotéis, não se assuste com a bandeira hasteada na frente da maioria deles, exatamente igual ao do Movimento Gay. Trata-se, na verdade, da bandeira de Cusco.

Depois de descansar um pouco e de arranjar uma lavanderia ao lado do hotel, saímos para dar umas voltas.

Cusco tem ruas pequenas e estreitas, que geralmente mudam de nome a cada quadra. Para não se perder, o melhor é adotar a Plaza de Armas como referencial.

A praça não tem como não ser vista: há 2 enormes igrejas, a Catedral de Cusco e a Igreja da Companhia de Jesus, com um belo jardim com chafariz em frente.

A impressão que se tem da cidade é completamente diferente daquela com a qual já estávamos acostumados na Bolívia: ruas muito limpas, total ausência de barraquinhas de vendedores (só alguns ambulantes oferecendo coisas enquanto caminham), trânsito bem mais organizado, policiamento mais presente. A justificativa que conseguimos é a de que a cidade é Patrimônio da Humanidade da UNESCO e que, para não perder o título, tem que preservar tudo bonitinho. E realmente, a cidade faz jus ao título. Os prédios são muito bem preservados, há muitos casarões de estilo colonial espanhol, várias igrejas além daquelas situadas na praça, museus, restaurantes em prédios antigos, etc. Dos incas, só algumas pedras - os espanhóis destruíram tudo em 1532.

Naquele primeiro momento, optamos por ficar ali ao redor do centro. Conhecemos o interior das igrejas e as ruas tidas como as mais antigas da cidade (entre elas, a Calle Hatun Rumiyuq), com fundações dos prédios feitas aproveitando as ruínas da capital do Império Inca que tinha sede no local.

No almoço, fomos até um restaurante mexicano - o que se comprovaria uma péssima escolha horas mais tarde...