30/12/2008

Berlin - Copa, Muro e Knut

Nossa terceira manhã em Berlin começou cedo, com um bom café da manhã e um tempo aberto, igual ao da primeira manhã de passeios.

Como não tivemos tempo suficiente para fazê-lo na volta de Potsdam, como planejado, decidimos ir visitar o Estádio Olímpico de Berlin por primeiro.

O estádio, que também foi a sede da final da Copa de 2006, tem muita história. Foi nele que se realizou a mais polêmica Olimpíada de todos os tempos. Os nazistas tiraram proveito político dos jogos pela primeira vez na história, naquela ocasião, mas o fato que mais foi lembrado após o término da competição foi a recusa do líder nazista em entregara medalha de ouro ao negro americano Jesse Owens, vencedor dos 100m rasos contra as expectativas dos alemães.
A visitação não é gratuita - paga-se uma taxinha de alguns euros para entrar no estádio como visitante, tendo acesso às arquibancadas e ao local onde ficava a tocha olímpica. Pode-se ver ainda outros elementos do estádio, como um pesado sino de bronze, e placas comemorativas. O interessante é que todas as menções a Hitler foram apagadas ou disfarçadas. Suásticas nazistas, por exemplo, receberam apliques de solda que as transformaram em quadrados. As placas com menção ao então ditador foram retiradas, restando apenas as que indicam os vencedores de cada modalidade.

O estádio abriga uma lojinha do Hertha Berlin, time que o usa como sede. Aproveitamos para comprar algumas camisetas e outros badulaques por ali.

Na entrada (e saída) do estádio, há dois pilares bastante altos que servem de base para cabos que sustentam anéis olímpicos - muito massa. A estação de S-Bahn ao lado foi super ampliada para o movimento da Copa de 2006, mas hoje parece meio abandonada.

Do estádio nos dirigimos à estação Warschauer Strasse, a mais próxima do maior trecho do Muro de Berlin ainda em pé. Nesse trecho, ao longo do rio Spree, o resto do muro original tem uma extensão de pouco mais de 1km e serve de galeria para grafiteiros. O lugar ficou até conhecido como "East Side Gallery". Nenhuma das pichações é original da época, porque do lado oriental as pessoas não podiam se aproximar do muro - havia uma zona proibida de cerca de 30m, guarnecida por vigias, arames e outras defesas, na qual a pessoa podia ser prontamente abatida caso ingressasse indevidamente.
É estranho estar perto de um "objeto" como aquele, tão famoso e que significou tanta coisa para a cidade. Hoje, fica meio deslocado ao lado de uma movimentada avenida, cheio de partes destruídas e com alguns turistas lá e cá brincando de escalá-lo...
Logo ao lado da estação por onde chegamos para a visita, fica a ponte de Oberbaum, essa com as torres avermelhadas, que ficou famosa por servir de ponto de negociação para a troca de presos políticos por espiães presos pelo adversário.
Do muro, voltamos para o albergue para ajeitar umas coisas e nos preparar para a parte da tarde. Começaríamos pelo zoológico e depois nos dividiríamos: eu e o Diego iríamos até a Polônia, para um passeio rápido, e os demais ficariam na cidade, para ir no Museu Egípcio e fazer o que mais desse tempo.

Chegamos em frente ao zoológico e tratamos, primeiro, de arranjar alguma coisa para comer. Lancheria é o que não falta naquela parte que é o centrão de Berlin Ocidental. Em seguida, fomos para a fila do zoológico comprar os ingressos. O Rafael e o irmão dele não quiseram, por isso saíram fazer compras no Sony Center, que fica ali pertinho.

Nosso objetivo no zoológico era ver o Knut, o ursinho polar órfão que, na época, era a atração mais comentada da cidade. Pagamos uns bons 11 euros para isso, assim como outros milhões de pessoas que fizeram a mesma visita enquanto o urso estava lá.
As aparições do Knut duravam pouco mais de uma hora e ocorriam duas vezes por dia. O tratador (recentemente encontrado morto) saía com o bichinho para uma área aberta, com rochas e água, de onde crianças, turistas e a imprensa podiam vê-lo brincando para lá e para cá.

Como era muita gente, havia uma fila e grupos iam passando até o local, onde ficavam por cerca de 20min, para então dar lugar às próximas centenas de pessoas.

Até hoje brincamos que, naquela época, ir a Berlin e não ver o Knut era como ir a Roma e não ver o Papa!
Além dos ursos polares, o zôo de Berlin tem muitos outros animais, de tudo quanto é canto, sendo digno de uma visita - mesmo sem o Knut. Vimos hienas, elefantes, flamingos, águias americanas, pandas, rinocerontes e mais um monte de animais e ambientes muito bem cuidados, num dos zoológicos urbanos mais antigos do mundo.

28/12/2008

Potsdam

De Oranienburg, sem parar em Berlin, fomos a Potsdam, no extremo sul da linha de S-Bahn em que vínhamos.

Potsdam, embora seja a capital de outro estado alemão (Brandenburg), fica na região metropolitana de Berlin, por isso a ligação por transporte público. É como se Goiânia fosse um pouco mais perto de Brasília.

A cidade tem vida própria, governo próprio e, na sua parte mais central, nada que chame muito a atenção. O motivo que nos levou até lá foi o fato de que era nessa cidade em que se encontravam quase todos os maiores castelos da época em que a Alemanha era uma monarquia. Em outras palavras, Potsdam era para Berlin mais ou menos o que Petrópolis era para o Rio de Janeiro.

Há castelos espalhados por vários pontos da cidade, mas a maior parte deles (e os mais bonitos) estão concentrados numa área de parque bem legal para caminhadas ou passeios de bicicleta. Não se engane pelo mapa – o troço é grande mesmo e tem até ônibus circulando entre um ponto e outro.

Paga-se uma taxa para entrar nessa área de parque e mais um ingresso para cada castelo que se queira conhecer por dentro. Combinamos de só olhar geral por fora, até porque, senão, não haveria tempo para tudo.

Da estação central de Postdam até a entrada desse parque deve-se pegar um ônibus urbano. É longe e há várias subidas no caminho até lá. O passeio já serve como city tour, já que se podem ver várias casas chiques, dos tempos do Império, por todos os lados.

À medida que fomos andando, percebemos que havia uma concentração de policiais acima do normal. Só depois é que conseguimos entender que, naquele mesmo dia, estava acontecendo na cidade um encontro do G-7, o grupo dos países mais ricos do mundo. Por coincidência, o Lula tinha sido convidado e estava lá, representando o Brasil. Mas não vimos ninguém conhecido, só barreiras e mais barreiras de Polizei.

O evento acabou atrasando os ônibus também (sentimos isso na volta, depois de uma espera de mais de 45 minutos), por questões de segurança.

Começamos nossa caminhada por entre os castelos por trás do mais famoso de todos, o castelo de Sans Souci – esse amarelinho da foto.

A partir dele, inicia-se uma escadaria toda ornamentada com plantas, que desce até um chafariz central. Logo depois, há uma ponte sobre um riacho cheio de patinhos e rodeado de árvores nobres. O efeito de ver o conjunto à distância é muito bacana, vai ficando melhor à medida em que a pessoa vai se afastando.

Dali, seguimos para um castelinho menor, alaranjado, que servia de quarto de hóspedes, e em cujo lado há um moinho igual aos da Holanda. Depois de uns túneis verdes e labirintos, chegamos a uma casa de chá em estilo chinês, toda dourada.

À distância, vimos outros palácios que não tivemos disposição para nos aproximar. Seguimos rumo ao maior de todos, o Neues Palais. Ali sim conseguimos ver a diferença entre uma coisa conservada e outra não. Potsdam era parte da Alemanha comunista e, nessa época, todos esses palácios ficaram largados às traças. Como metade já estava restaurada, deu para comparar direitinho o “antes” e o “depois” das obras.

Dali, seguimos em direção a um prédio que funcionava como observatório dos reis e príncipes e, já perto do final, a uma Orangerie (que aprendi ser um tipo de prédio que funciona como uma estufa para criação de plantas cítricas que morreriam no inverno alemão).

Em todos os lugares, percebia-se a falta de algumas estátuas e elementos, possivelmente roubados ou destruídos nos anos de descuido que antecederam a reunificação. Mas, também, sempre alguma obra e uma placa explicando quanto estava sendo investido na reforma.

No final do dia, podres de cansados, ainda tivemos que esperar uma longa demora do ônibus que nos levaria até a estação central de trem. Várias pessoas estavam na mesma situação. Para a nossa sorte, esperamos uma parada antes daquela em que a maioria das pessoas estava concentrada, o que nos garantiu lugares para sentar.

Chegamos no albergue já relativamente tarde e tratamos de ir até uma pizzaria de turco ao lado para comer alguma coisa. Pizzas inteiras a menos de 2 euros, com ingredientes frescos e feitas na frente do cliente. Ah, Alemanha.... Não preciso dizer que, depois, demos uma passadinha no bar para uma weissbier, né.

26/12/2008

Sachsenhausen

O dia seguinte amanheceu nublado e friozinho. Tomamos nosso café da manhã e nos largamos para Ostkreuz, onde compramos um ticket de passagem que incluía a zona C. Nossos planos para esse dia eram de visitar o campo de concentração de Sachsenhausen, que fica na cidade de Oranienburg, a uns 35km de Berlin, e, pela tarde, ir a Potsdam.

Oranienburg fica longe mesmo. Com todas as paradas do S-Bahn, levamos quase uma hora para chegar até lá. Deu para ver bastante floresta no caminho – isso para os que não caíram no sono durante a viagem com o trem quase vazio.

Chegamos na estação de trem, ponto final do S-Bahn, e começamos a seguir as plaquinhas que indicavam a direção correta. A presença de outras pessoas, inclusive excursões de colégio, seguindo no mesmo caminho, deu-nos a garantia de que não estávamos indo para o lugar errado.

Oranienburg é uma cidade bem pequenina e até sonolenta. Não se vê movimento algum, a não ser o dos turistas indo até o campo, que fica bem longe da estação. Acredito que haja mais ou menos algo entre 1,5km e 2km de caminhada, passando por bairros residenciais.

O que existe em Sachsenhausen, na verdade, é um memorial, mais ou menos como o de Dachau, que eu conheci no ano anterior, na Baviera. Associações judaicas e o próprio governo restauraram partes que ainda existiam do campo de concentração e abriram ao público como forma de homenagem às vítimas que ali morreram.

As diferenças entre o que eu vi em Dachau e o que vi em Sachsenhausen, no entanto, foram grandes. O primeiro fica no estado mais rico da Alemanha (Baviera) e o segundo foi negligenciado por muito tempo pelo governo comunista da DDR. O local foi utilizado, inclusive, como prisão para dissidentes pelos soviéticos, logo depois da guerra. Tudo isso faz dele um lugar bem mais mal cuidado, sem tantos elementos originais.

Os fornos onde os corpos eram queimados, por exemplo, estão todos praticamente destruídos. Naquele campo, os prisioneiros eram mortos através de fuzilamento no paredão – talvez a parte mais bem conservada e emocionante do lugar.

Os alojamentos, em menor número do que Dachau, tinham interior semelhante. Há um prédio que mostra, também, como era o campo na época que funcionava como prisão soviética. Na entrada, há um centro de informações com recortes de jornal de época e objetos nazistas, que conta um pouco da história.

A parte mais inteira, no entanto, só vimos no final: as salas de necropsia, onde também se faziam experiências científicas com os presos.


O clima pesado que os campos de concentração sempre têm só ficou ainda mais típico naquele dia cinzento e frio que fazia.

Levamos algo entre 3 e 4 horas visitando Sachsenhausen. Como cada um tinha seu ritmo, marcamos de nos encontrar na saída. Voltamos a pé até a estação, não sem antes parar no caminho e entrar num supermercado para ver se havia algo pronto que valesse a pena comer. Compramos só uns chocolates e acabamos almoçando nas lancherias de fast food da estação (mesmo num lugar que aparentemente tem menos de 50 mil habitantes havia McDonald’s!).

25/12/2008

FELIZ NATAL!

FELIZ NATAL A TODOS QUE ME ACOMPANHAM AQUI NO BLOG!!!

24/12/2008

Berlin - a divisão

A escolha de descansar naquela tarde, enquanto chovia, revelou-se acertada. Por volta das 18hs, o tempo já havia melhorado e estávamos descansados para conhecer uma das atrações mais conhecidas da cidade: o Checkpoint Charlie, com o seu museu.

Checkpoint Charlie era, na verdade, o posto de controle “C”, no alfabeto aeronáutico. Era o único ponto de passagem entre Berlin Ocidental e Berlin Oriental para estrangeiros não residentes em Berlim e para diplomatas. Os cidadãos locais podiam passar de um lado para o outro através de outros diversos postos de controle ao redor do muro – alguns eram destinados só para cargas, outros só para cidadãos do leste, outros só para fins médicos, e por aí vai.

Checkpoint Charlie acabou sendo o mais famoso porque era justamente a porta de entrada dos turistas que queriam conhecer o “lado de lá”. Também acabou ficando famoso por causa de algumas fugas e tentativas de fuga usando credenciais diplomáticas falsas.

Nesse posto de controle, dizia-se, estava a mais perfeita figura da Guerra Fria: de um lado, soldados americanos, integrantes da Força de Ocupação da Alemanha Ocidental; de outro, soldados comunistas, da DDR. Algumas vezes, por ameaças de invasão, tanques e armas chegavam a ficar apontados um para o outro nesse posto, que hoje nada mais é do que uma barraquinha com uns sacos de areia em formato de trincheira no meio de uma rua próxima ao centro de Berlin.

O lugar é conhecido também porque ainda hoje se vendem carimbos da DDR. O turista paga uns euros e ganha uma carimbada no passaporte, para brincar que esteve na Alemanha Oriental. Há também uma famosa placa, avisando que o pedestre deve tomar cuidado porque está deixando o Setor Americano (a original não existe mais).

O museu Haus am Checkpoint Charlie é particular e cobra um preço bem salgado, quando comparado a outras atrações. Ele conta a história da divisão da cidade, dando detalhes da construção e da demolição do muro, mas centrando a narrativa nas experiências individuais de quem fugiu e de quem morreu tentando fugir do Leste para o Oeste. São fotos, filmes de curta duração, objetos e inclusive veículos dispostos de uma forma meio caótica retratando as formas mais absurdas possíveis de tentativas de fuga – desde caixões em que as pessoas se fingiam de mortos, a túneis, barcos para fugir pelo rio ou balões de ar quente.

Eu esperava um pouco mais do lugar, mas mesmo assim recomendo uma visita.

Na saída, demos umas voltas ainda pela região para ficar brincando de leste-oeste, mas como já estava tarde, voltamos para o albergue. Novamente não nos animamos a sair, já que era terça (e dizem ser esse o dia mais fraco na noite berlinense). Aproveitamos novamente para ficar no bar do albergue.

Foi lá que conhecemos uma figura daquelas... Um brasileiro que se dizia Oficial de Justiça, aparentemente sempre bêbado, que já tinha falado conosco na noite anterior, insistiu que todos fôssemos tirar uma foto com ele, com uma bandeira grande do Brasil na frente. Ele dizia, todo empolgado, que nunca ninguém tinha feito isso e que seria muito legal. Queria, inclusive, que fôssemos acordar o Marcelo, que àquela hora já devia estar no quinto sono.

Depois da questão se tornar inevitável, conseguimos convencer o cara a tirar a foto em outro lugar que não no bar, para não pagarmos ainda mais mico. Fomos para a entrada do albergue e tiramos ali mesmo, acalmando assim o nosso “empolgado” amigo.

22/12/2008

Berlin - continuando

Após o almoço, chamou-nos a atenção umas lojinhas vendendo bugigangas da antiga Alemanha Oriental. Entramos, olhamos de tudo um pouco, mas compramos muito pouca coisa. Eu aproveitei para levar uma camiseta bem legal, que uso até hoje para sair, mas que não tem a ver com comunismo. O que mais se vende nessas lojinhas são chaveirinhos com um símbolo da nostalgia que os alemães orientais têm da sua pátria comunista: a silhueta do homenzinho verde de chapéu que indicava a passagem dos pedestres no semáforo.

Ali perto vimos uma loja da Ferrari. Sim, uma concessionária da Ferrari em pleno centro de Berlin, com três “máquinas” à mostra. Embora a vontade fosse de levar algo um pouco maior, contentei-me em comprar só mais uma camiseta oficial – tão legal que o Rafael acabou comprando uma igual, hehehe.

Entramos ainda numa concessionária da Volkswagen do outro lado da rua, só para dar uma olhada nos lançamentos. Até que fiquei feliz de ver que aqui no Brasil, pelo menos nessa marca, temos quase os mesmos carros sendo vendidos, ao mesmo tempo em que lá na Europa, e não com anos de atraso, como na maioria das vezes acontece.

Um pouco mais para baixo e já estávamos, de novo, em frente ao Portão de Brandemburgo. Àquela hora, já estava apinhado de turistas. O tempo também começou a dar sinais de que mudaria, com umas nuvens bem negras no horizonte começando a se aproximar.

Dessa vez, pegamos a direção sul e andamos duas quadras, até o Memorial dos Judeus Mortos na Europa, a polêmica obra entitulada "Topografia do Terror", que colocou dezenas de pilares de concreto enfileirados num labirinto que tem como objetivo fazer a pessoa se sentir perdida ou sozinha quando ingressa no seu interior.

A obra ocupa uma quadra inteira e é aberta ao público, como uma praça normal. Ela tem, ainda, a peculiaridade de ter sido construída no mesmo lugar em que ficava o prédio da Chancelaria de Hitler, antes do final da Guerra. O lugar é realmente impressionante e diferente de tudo que já vi. A toda hora eu escutava gente conversando sobre o significado de tudo aquilo.

Áquela hora, a coisa já estava preta (no céu). Fomos andando em direção ao Parlamento e, com a proximidade do temporal, decidimos pegar o ônibus da linha 100 (que todo mundo recomenda, porque passa na maioria dos pontos turísticos) para ver um pouco da cidade a partir de um lugar protegido contra a chuva que se anunciava.

Tomamos o ônibus no sentido que leva ao lado ocidental da cidade. Já estava bem cheio (todo mundo deve ter tido a mesma idéia), mas logo conseguimos lugares para sentar. Fomos cruzando todo o Tiergarten e nos preparamos para umas fotos relâmpago do castelo de Bellevue e do famoso obelisco dourado com um anjo em cima que fica no centro do parque (Siegessäule), no meio de uma rótula.

Eu nem sabia que ficava no caminho, mas de repente se apresentou ao meu lado aquela famosa igreja parcialmente destruída na Guerra, que foi transformada em um memorial, sem que se tenha consertado a torre principal, propositalmente. Era a Igreja Memorial do Kaiser Guilherme, da qual temos apenas essa foto meio sem graça, já que não voltamos mais até lá.

Com o ônibus se aproximando do final de sua linha, na estação do Zôo, e a chuva começando, decidimos descer e pegar o metrô de volta para o albergue, para dar uma descansada e, quem sabe, voltar a fazer alguma coisa mais tarde, quando a chuva parasse.

Observação: a estação do Zôo é famosa no mundo inteiro por causa de um filme (baseado num livro) ao qual já fiz referência aqui no blog: Christiane F, 14 anos, drogada e prostituída. Em alemão, o nome dessa obra é “Wir Kinder von Bahnhof Zoo”, ou seja, “Nós crianças da estação do Zôo”. Era lá que menores de idade se reuniam para se drogar à noite, para praticar pequenos furtos e até mesmo se prostituir, no final dos anos 70 até o início dos 80. O lugar era também “o centro” de Berlin Ocidental.

20/12/2008

Berlin - Museumsinsel e parte histórica

Depois do lanchinho da manhã, seguimos nossa caminhada para a praça que fica logo ao lado da torre da TV. Ao redor dela estão a St Marienkirche, a Rotes Rathaus (Prefeitura Vermelha) e a fonte de Netuno.

O que mais gostei, no entanto, foi uma que eu havia esquecido que existia naquela parte da cidade: duas estátuas bem grandinhas de Marx e Engels. Pelo lustro do joelho de Marx, dá para ver que muita gente tira foto sentada no colinho do pai do comunismo...

Umas duas quadras mais pro lado, chega-se à igreja de Nikolaikirche. Ao redor dela, havia dezenas de bichinhos de pelúcia do símbolo da cidade: o urso.

Alguns passos para baixo e demos de cara com o rio que serpenteia a parte central de Berlin, o Spree. Seguindo por ele, em direção à ponte da Unter den Linden, passamos pelo Palast der Republik, antiga sede do governo da DDR (República Democrática Alemã, vulgo “Alemanha Oriental”). O prédio está sendo demolido, porque, logo depois da reunificação alemã, engenheiros e técnicos constataram que o asbesto que havia sido utilizado na construção era tóxico e poderia causar doenças nos pulmões de quem trabalhasse muito tempo lá dentro. Ademais, as normas européias atuais proíbem a utilização desse material na construção civil.

Avistamos a catedral de Berlin (Berliner Dom) pelo lado, e só à medida que fomos dando a volta até a parte da frente é que percebemos como o prédio é bonito e impressionante. As cúpulas esverdeadas, com detalhes em dourado, o tamanho das torres e – como não poderia deixar de ser – marcas de balas e explosões por todas as paredes exteriores.

Era meio-dia em ponto quando demos uma espiada para dentro, mas fomos desencorajados a entrar porque estava acontecendo uma missa lá dentro. Nessas horas, costuma-se pedir aos turistas que não perturbem os fiéis.

Um pouquinho para trás da catedral fica a Alte Galerie, um prédio ao final de uma colunata toda marcada pela guerra. Na frente, o Aegyptensmuseum, ou Museu Egípcio, que na época estava com uma grande amostra sobre a rainha Nefertite.

Descendo a Unter den Linden, demos ainda uma rápida passada pelo memorial das vítimas e dos órfãos da guerra – um local todo de mármore, aberto ao público, com apenas algumas inscrições e uma estátua demonstrando os sofrimentos dos conflitos.

Alguns passos adiante e já estávamos na Universidade de Humboldt, em frente à qual fica a Bebelplatz – a praça onde os nazistas promoveram a famosa queima de livros numa fogueira a céu aberto, no meio da noite. A biblioteca de onde a maioria deles foi tirada fica logo ao lado, em frente à faculdade de direito. Estudantes podem ser vistos entrando e saindo a toda hora, mostrando que o lugar funciona efetivamente.

Já tendo passado das 13h, a fome apertou e paramos num restaurante que oferecia um menu turístico a um preço bem convidativo. Paramos ali mesmo, em plena Unter den Linden, pedimos um chopp de litro para cada um e só então percebemos como era bom e barato estar em Berlin.

18/12/2008

Berlin - primeiras andanças

Naquela primeira noite em que chegamos ao albergue, apenas tomamos um banho, arrumamos nossas coisas no armário e descemos para conhecer o barzinho do hotel. Era segunda-feira, final de feriadão, e dificilmente encontraríamos algo que valesse a pena na rua.

Aproveitamos a cerveja boa e barata (dias depois chegaríamos à conclusão de que, por ser mais barata que água, tomamos praticamente só cerveja enquanto estivemos na cidade) e dormimos.

Na manhã seguinte, depois do café, fomos de S-Bahn até a estação mais próxima ao Portão de Brandemburgo (Brandeburger Tor), que sai no meio do canteiro da avenida Unter den Linden (“sob as limeiras”), a mais famosa da antiga Berlin Oriental.

O dia estava impecável: quase nenhuma nuvem no céu, pouco vento, clima agradável em torno de uns 18°C. Bem diferente daqueles dois primeiros na Dinamarca...

Como ainda era cedo, havia poucos turistas no local, que é o mais famoso cartão-postal da cidade e símbolo da reunificação alemã. Além de conferir atentamente os detalhes dos seus adornos, o lugar só serve para tirar fotos mesmo, não havendo nenhuma atividade em especial – pelo menos quando estivemos lá.

A pouco mais de uma quadra dali, em direção ao norte, fica o prédio do Bundestag, o parlamento alemão, aquele famoso pelo incêndio provocado pelos nazistas e imputado aos comunistas, no processo que levou Hitler a assumir o poder total sobre o país. Naquela hora, ainda não havia visitação na parte interna, por isso deixamos para conhecer o interior do prédio outra hora, inclusive para bater fotos melhores, já que o sol da manhã estava bem atrás do prédio, fazendo uma sombra.

Empolgados com o fato de ainda haver pouco movimento nas ruas, decidimos ir até a torre de televisão (Fernsehturm) para pegar o elevador até a sua parte mais alta. Tomamos um metrô até a Alexsanderplatz (que por sinal estava toda em obras, por isso não tivemos muito o que ver por ali) e nos dirigimos até a torre.

O preço para subir até o topo estava em uns 8 euros. Não havia fila nenhuma e em dois minutos já estávamos dentro do elevador. O interessante é que, à medida que se sobe, vai sendo anunciada a velocidade e a altitude em que se está. O troço é muito rápido mesmo (e olhe que foi construído pelos comunistas ainda nos anos 70).

Lá em cima, há um restaurante e uma lancheria, além da área de observação. São janelas inclinadas que facilitam a visão para baixo, permitindo uma visão de quase toda a cidade. Os 360° da torre têm janelas, podendo-se dar a volta completa para ver tudo.


Quando descemos da torre, já passava um pouco das 10h da manhã e, por mais que a galera tivesse mandado ver no café da manhã, bateu a fome. Paramos numa barraquinha de cachorro-quente e nos atracamos naqueles bratwurst (salsichão vermelho) e weisswurst (salsichão branco) em que a salsicha é maior do que o pão e no qual quase não há molho – só o tempero da mostarda alemã ou de um catchup picante. Não parece, mas é muito bom – só quem já comeu é que sabe.

17/12/2008

Berlin - um pouco de história

Para aproveitar bem um passeio por Berlin, é preciso fazer o dever de casa. Todo mundo, por menor interesse que tenha pela cidade, deve dar uma lida em alguma coisa para entender como funcionava a questão do Muro de Berlin, por que a cidade foi dividida, quais eram os setores mais ou menos e por que as pessoas tentavam fugir de um lado para o outro.

Não precisa ir muito longe para tudo isso. Basta dar uma conferida no que existe sobre essa questão (em bom português) no Wikipédia, em verbetes como Berlim, Muro de Berlim, etc. Se souber inglês, melhor ainda, pois as informações são mais completas.

Eu confesso que, no início do nosso planejamento da viagem, não sabia direito o que havia para ser visto em Berlin. Acho até que só a incluímos porque ficava mais ou menos no caminho entre Copenhague e Amsterdam e porque ainda não tínhamos conhecido a capital da Alemanha, embora estivéssemos estado em Munique no ano anterior.

Como não havia achado nada demais em Munique, em matéria de turismo, estava também um pouco desconfiado sobre a existência de coisas realmente interessantes para se ver na cidade.

Foi para tirar essa má vontade que comecei a me informar, primeiro no guia de viagem que comprei para aquele mochilão (o Let’s Go! Western Europe) e depois na internet. Complementei ainda com alguns filmes com histórias envolvendo a cidade e cheguei lá doido para conhecer muita coisa.

Quatro dias, como vou demonstrar nos posts sobre a cidade que vou escrevendo nas próximas semanas, acabaram sendo pouco. Fizemos muitos passeios fora da cidade, nos arredores, e acabamos não podendo conhecer muitas coisa. Se estivéssemos viajando só de trem entre uma cidade e outra e ainda não tivéssemos pago o próximo albergue, certamente teria ficado mais tempo por lá...

Essa questão de entender a história da cidade é essencial, porque o lugar não tem todas aquelas belezas fáceis de gostar que se pode ver em outras cidades grandes da Europa. Berlin é diferente. Há muitos espaços abertos, muita coisa em construção, muita coisa velha mal cuidada, mas tudo respira história.

Em que outro lugar se podem ver marcas de tiro ainda da 2ª Guerra Mundial em praticamente todos os principais monumentos? Que outro lugar do mundo teve seus vizinhos separados, do dia para a noite, por um muro que “prendeu” para o seu lado de dentro ¾ da área da cidade? Onde mais se pode encontrar uma cidade que teve suas linhas de metrô e de trem cortadas pela metade, em razão de que, dali em diante, seriam duas cidades separadas e praticamente incomunicáveis?

Não pretendo ficar aqui contando o que pode ser lido nessas fontes que indiquei (até porque foi dali que tirei a minha informação), mas insisto para que, se alguém for para lá, “estude” um pouquinho antes para ter a mesma recompensa e admiração que eu tive em relação aos meus dias em Berlin.

15/12/2008

Berlin - Ostkreuz e o albergue

Foi muito engraçada a reação de espanto da gurizada quando descemos na estação de Ostkreuz, a mais próxima do albergue onde nos hospedaríamos.

O lugar parecia que não via uma reforma havia, pelo menos, uns 80 anos. O estilo da estação era bem daqueles do início do século passado, com banquinhos de madeira, a maior parte das passarelas todas descobertas, nada de tecnologia e bastante sujeira. Para completar, ao lado da estação destacava-se um reservatório d’água de metal gigante, todo escurecido pela ferrugem, que à primeira vista parecia mais uma guarita de observação de uma prisão. Inevitável não lembrar de um campo de concentração ou de filmes da 2ª Guerra...

Definitivamente, estávamos no que antes era Berlin Oriental – só que parecia que a unificação com o outro lado ainda não trouxe seus efeitos benéficos àquela parte da cidade. O fato de estar escurecendo só contribuiu para o clima sombrio do lugar.

Ostkreuz significa “Cruz do Leste”. Nessa estação, construída em forma de cruz, passam as duas linhas circulares de S-Bahn (em sentido horário e anti-horário) e mais uma importante linha no sentido leste-oeste, em ambas as direções. Era a estação mais movimentada de Berlin Oriental e sempre foi uma das mais importantes desde que criaram o sistema de transporte público na cidade, ainda antes do período das guerras e da divisão da cidade.

Depois de tentarmos nos localizar, ou seja, de achar qual a saída que dava para a rua que tínhamos que seguir, fomos saindo do prédio da estação e passamos por umas casas abandonadas, logo ao lado, bem como por uns carrinhos de cachorro-quente e refrigerantes. Mais alguns passos e tínhamos de passar por baixo de um viaduto, sob o qual havia uns três ou quatro punks (verdadeiros, não de boutique) com seus cachorrões ao redor.

Como vimos que o pessoal passava por ali sem ser incomodado, seguimos em frente, com uma sensação de estarmos num lugar mais ou menos igual a Christiania, o bairro hippie de Copenhague que conhecêramos naquele mesmo dia, só que mais cedo.

Passado o viaduto, demos de cara com uma ruazinha meio suja, cheia de lancherias de kebab, pizzas e barzinhos vagabundos. À medida que fomos caminhando, porém, as coisas melhoraram e, dali uns 50 metros, já parecia que estávamos num bairro universitário de qualquer cidade grande.

Friedrichshain, o bairro onde ficamos, era do lado oriental de Berlin. Cheio de prédios parecidos construídos na era comunista, acabou atraindo estudantes no período após a unificação, em razão do baixíssimo preço dos aluguéis e da proximidade do centro da cidade. Hoje, em razão da população majoritariamente jovem da vizinhança, o local tornou-se uma das melhores opções para sair à noite e para se hospedar. Há dezenas e dezenas de barzinhos, boates, mercadinhos, farmácias, lojinhas, fazendo do bairro um lugar bem aconchegante, apesar da má impressão inicial.

Ao contrário de Kreuzberg, que se tornou moradia de imigrantes (legais e ilegais) e lugar preferido dos punks, é tranqüilo andar até mesmo à noite por Friedrichshain.

O albergue para onde fomos era da rede alemã A&O. Como eu e o Rafael havíamos gostado muito do A&O de Praga, no ano anterior, não tivemos dúvida em escolher um deles para nossas quatro noites em Berlin. Existem três A&O na cidade: um em Mitte, no centrão de Berlin Oriental; um na Kurfurstendamm, em frente ao Zoo, no centrão de Berlin Ocidental e o nosso, em Friedrichshain.

Confesso que esperava mais do lugar, em alguns aspectos. O prédio parecia um internato gigante, com uma cara bem “institucional”. A pior coisa, no entanto, era o grande número de adolescentes e pré-adolescentes no lugar, muitos deles inclusive viajando em excursões de colégio, o que dava aquele imaginável barulho nos corredores a qualquer hora do dia e da noite.

Os pontos positivos, no entanto, eram muitos também. Os quartos eram enormes (ficamos num quarto de 8 pessoas), com banheiros privativos, com lockers gigantes (que permitiam inclusive organizar e separar as coisas, já que tinham prateleiras internas) – tudo muito limpo e organizado. O barzinho que havia na entrada era o melhor em que já estive num albergue. Era separado do prédio dos dormitórios, para não fazer barulho, vendia chopp a 1 euro e alguns centavos, tinha mesinhas de sinuca e sofás, tudo num ambiente muito legal e que estimula a interação com outros viajantes. O café da manhã, servido no andar subterrâneo do prédio de quartos, também era muito bom – mas isso não é novidade em se tratando de albergues alemães.

O preço da diária, como tudo mais em Berlin, estava abaixo da média do que se paga em outras capitais européias. Havia ainda cartões baratos para internet e telefone à venda na recepção – que, para completar a história, contava com uma atendente brasileira.