31/01/2013

Batalha

Uma estradinha de pouco mais de 35 km - que me tomou cerca de uma hora para percorrer, já que era estreita, cheia de curvas, subidas e rótulas - nos levou de Fátima a Batalha, a menor cidade que conheci naquela segunda viagem a Portugal. 

Com uma população de cerca de 15 mil habitantes, Batalha, assim como Alcobaça, só é famosa em razão de um desproporcionalmente grande mosteiro que nela fica situado. Nesse caso, trata-se do Mosteiro de Santa Maria da Vitória, ou simplesmente Mosteiro da Batalha.

Assim como outros tantos mosteiros portugueses, o Mosteiro da Batalha foi construído em agradecimento à vitória numa batalha, nesse caso a de Aljubarrota, em que portugueses aliados a ingleses derrotaram invasores espanhóis, no ano de 1385.



O mosteiro pertencia à Ordem Dominicana e foi construído em estilo gótico português, ou manuelino. É muito mais cheio de detalhes do que o de Alcobaça, que tem um aspecto mais austero e clássico. Há uma riqueza de detalhes que nunca vi em qualquer outro convento, muito mais do que no Mosteiro dos Jerônimos, por exemplo, com uma grandiosidade que me lembrou a Abadia de Westminster, na Inglaterra. 

Juntamente com o Castelo de Óbidos, o Mosteiro de Alcobaça, o Mosteiro dos Jerônimos (em Lisboa), a Torre de Belém, o Palácio da Pena (em Sintra) e o Castelo de Guimarães, o Mosteiro da Batalha forma parte das 7 Maravilhas de Portugal, que foram de certa forma o tema dessa segunda viagem que fiz ao país (só está faltando o Castelo de Guimarães, que fica a norte do Porto e portanto meio fora de mão).

Teoricamente, cobra-se um ingresso para visitar o local, mas simplesmente não achamos a bilheteria e, quando vimos, estávamos lá dentro, começando a conhecer a parte interna da igreja, que dá acesso livre ao claustro e às capelas inacabadas. Como ninguém nos cobrou nada, seguimos adiante. 




A parte mais bonita de tudo, sem dúvida, é o claustro, que tem fontes trabalhadas e janelas em estilo manuelino. 

Numa grande sala, que antigamente era um refeitório, logo ao lado, está um museu de guerra, com placas em homenagem ao soldado desconhecido português, além de presentes de Chefes de Estado que visitaram o país e lembranças de famílias que perderam parentes nas guerras. O lugar equivale ao Hotel des Invalides de Paris, guardadas as devidas proporções. 


Outro ponto interessante da visita são as capelas inacabadas, onde está o túmulo do Rei D. João I, e que deveria ter sido o panteão nacional onde seriam enterrados todos os reis portugueses, mas que, como o nome do lugar já sugere, não chegou a ser finalizado (não há cobertura, apenas paredes no lugar).



Quando saímos do passeio, já passava das 13hs, e antes de seguir viagem para Tomar, nosso próximo destino, almoçamos por ali mesmo, num dos vários restaurantes que existem ao redor do mosteiro, no centrinho histórico da cidade.

29/01/2013

Fátima

Depois de uma viagem bastante tranquila nos trechos entre Sintra e Óbidos, Óbidos-Alcobaça e Alcobaça-Nazaré, passei um sufoco bastante grande no último pedaço de estrada que me separava do hotel onde passaríamos a noite. O trânsito ao redor da cidade de Leiria estava infernal, talvez porque fosse horário de saída do trabalho, mas certamente a situação ficou pior em razão de inúmeras obras e desvios no anel rodoviário que liga as autoestradas que eu precisava pegar.

Chegamos em Fátima já tarde, por volta das 21hs, com tudo escuro. Tive dificuldades em encontrar o hotel que havia reservado pelo Booking, o Santa Maria, em boa parte por causa de vias de mão única que não apareciam no meu GPS e por outras tantas obras - estas dentro da cidade - que impediam o livre acesso a algumas ruas e avenidas. 

Quando finalmente encontramos o lugar e fizemos o check in, tivemos a grata surpresa de ver que a escolha tinha sido ideal. O hotel era novinho (o site é http://www.hotelstmaria.com/) e o custo benefício era excelente. Pagamos cerca de 70 euros a diária por um quarto espaçoso, com café incluído, um restaurante muito bom para se jantar, estacionamento gratuito e tudo de muito bom gosto. Acho que foi o maior banheiro em que já estive num hotel europeu. A janta, ali embaixo mesmo, também foi ótima, tanto que repetimos no dia seguinte. O plano de usar a cidade como base para explorar a região tinha se mostrado uma boa, porque dificilmente encontraríamos algum lugar parecido nas cidades menores ao redor, onde ficam os mosteiros e castelos que queríamos conhecer. 


O motivo para Fátima, uma cidade de apenas 11 mil habitantes, ter hotéis tão bons é óbvio: a cidade é um dos mais importantes centros de peregrinação cristã do mundo, por ter sido exatamente ali, em 1917, que ocorreram as aparições de Nossa Sra. de Fátima aos três pastorezinhos portugueses, dos quais a única sobrevivente de longa data foi a Irmã Lúcia, hoje também já morta. 

Milhares e milhares de pessoas fazem passeios de bate e volta de Lisboa à cidade e outros tantos milhares ficam por ali alguns dias, especialmente perto do dia 13, que é quando ocorriam as aparições, iniciadas no mês de maio e repetidas por seis vezes até outubro. 

Aproveitamos o início da manhã e o final da tarde no dia seguinte para conhecer o Santuário de Fátima, que fica a menos de 200m do hotel em que nos hospedamos. Logo na entrada que usamos, vimos o pedaço do Muro de Berlim que foi trazido para lá, como um símbolo da queda do comunismo, que está relacionada com a atuação do Papa João Paulo II e com os segredos de Fátima. 


O santuário é muito grande, cheio de espaço abertos (aliás, com muito pouca sombra) e há sempre pessoas pagando promessas de joelhos ao longo de toda a sua extensão. É comum, ainda, que as pessoas levem velas no formato da parte do corpo em relação à qual pediram alguma graça, para queimar no santuário.

Falando em velas, há tantas delas que essa se tornou uma das principais preocupações da organização do lugar. Há avisos sobre como acender as velas, onde deixar e pedidos para que as pessoas compreendam que não há espaços para todos queimarem as suas até o final. As áreas onde elas ficam depositadas viraram grandes fornos, cujo calor atinge as filas ao seu redor.

A Capelinha da Aparição, onde ficava a árvore sobre a qual Nsa. Sra. aparecia para os "pastorinhos", hoje fica dentro de outra bem maior, mais ou menos no centro do santuário. No lugar de maior destaque, fica a Basílica, que é ladeada por colunas que lembram a praça de São Pedro. No extremo oposto, está a Capela da Santíssima Trindade, uma construção bem mais recente e de linhas modernas. Nos subterrâneos, há ainda outras várias capelas. O dia inteiro (inclusive à noite) há missas e grupos de orações em todos os lugares (os quartos da frente do nosso hotel, por isso, tinham vedação especial nos vidros, porque os cantos e se ouvem por toda a cidade).





Tudo ali é gratuito, mas existem lugares para fazer doações. Não lembro de ter visto nenhum bar ou café dentro do santuário e há vedações expressas para o comércio de itens religiosos, que são vendidos só em lojas do centro da cidade. Há placas pedindo silêncio e respeito por todos os cantos também. Não conheço Aparecida, mas acredito que seja um pouco parecido (embora tenha achado que não estava tão cheio de gente). Com certeza, mais tranquilo do que o Vaticano.

A região onde Fátima está situada é muito quente no verão e, mesmo no mês de outubro, em que estávamos, sentia-se muito o sol forte na cabeça - por isso a dica mesmo é aproveitar o começo ou o final do dia para circular por ali. 


28/01/2013

LUTO por Santa Maria


No post de hoje, não poderia deixar de registrar o nosso "11 de setembro": a tragédia da Boate Kiss, aqui em Santa Maria. Como homenagem, reproduzo o texto do Fabrício Carpinejar sobre a sensação que teve ao saber da notícia:

Morri em Santa Maria hoje. Quem não morreu? Morri na Rua dos Andradas, 1925. Numa ladeira encrespada de fumaça.
A fumaça nunca foi tão negra no Rio Grande do Sul. Nunca uma nuvem foi tão nefasta.
Nem as tempestades mais mórbidas e elétricas desejam sua companhia. Seguirá sozinha, avulsa, página arrancada de um mapa.
A fumaça corrompeu o céu para sempre. O azul é cinza, anoitecemos em 27 de janeiro de 2013.
As chamas se acalmaram às 5h30, mas a morte nunca mais será controlada.
Morri porque tenho uma filha adolescente que demora a voltar para casa.
Morri porque já entrei em uma boate pensando como sairia dali em caso de incêndio.
Morri porque prefiro ficar perto do palco para ouvir melhor a banda.
Morri porque já confundi a porta de banheiro com a de emergência.
Morri porque jamais o fogo pede desculpas quando passa.
Morri porque já fui de algum jeito todos que morreram.
Morri sufocado de excesso de morte; como acordar de novo?
O prédio não aterrissou da manhã, como um avião desgovernado na pista.
A saída era uma só e o medo vinha de todos os lados.
Os adolescentes não vão acordar na hora do almoço. Não vão se lembrar de nada. Ou entender como se distanciaram de repente do futuro.
Mais de duzentos e quarenta jovens sem o último beijo da mãe, do pai, dos irmãos.
Os telefones ainda tocam no peito das vítimas estendidas no Ginásio Municipal.
As famílias ainda procuram suas crianças. As crianças universitárias estão eternamente no silencioso.
Ninguém tem coragem de atender e avisar o que aconteceu.
As palavras perderam o sentido.

26/01/2013

Países que não exigem visto de brasileiros


É cada vez menor o número de países que exigem visto de turistas brasileiros. Com o crescimento econômico do país entre os anos de 2004 e 2008, de certa forma o Brasil ganhou fama internacionalmente como um país de turistas gastadores e ávidos por conhecer outras culturas. Mesmo com a crise de 2008 e, agora, de 2012 (em que o dólar, querendo ou não, passou de R$ 1,60 para R$ 2,05), os brasileiros continuam gastando cada vez mais no exterior. Tudo isso leva, obviamente, a uma pressão dos grupos empresariais ligados ao setor de turismo dos destinos preferidos dos brasileiros para que os governos locais minimizem as exigências na hora da imigração.

Diminuiu, também, a ideia de que o brasileiro é um imigrante ilegal em potencial. Essa percepção mudou radicalmente em países do sul da Europa, como Portugal e Itália, e mesmo na Espanha, apesar de alguns problemas diplomáticos persistentes. Na Flórida e em Nova York, da mesma forma, brasileiro é visto como cliente, e não como ameaça aos empregos locais.

Em alguns posts ao longo desses últimos anos, tenho destacado mudanças no regime de vistos de alguns países. Registrei, por exemplo, a abolição de vistos para a Ucrânia (http://demochilao.blogspot.com.br/2012/01/ucrania-agora-sem-visto.html), o acordo de supressão de vistos para a Rússia (http://demochilao.blogspot.com.br/2010/07/russia-sem-visto-para-turista.html), a implementação do processo de autorização eletrônica de viagem para a Austrália (http://demochilao.blogspot.com.br/2012/02/visto-australiano-agora-pela-internet.html) e a desnecessidade de visto mexicano para quem já tem visto dos EUA (http://demochilao.blogspot.com.br/2010/05/visto-americano-agora-vale-para-o.html).

Sem dúvida alguma, o fato de um país exigir ou não visto pesa na hora de montar um roteiro, principalmente em se tratando de um mochileiro com orçamento apertado.

Não faz muito tempo, descobri que na Wikipedia em inglês, na página http://en.wikipedia.org/wiki/Visa_requirements_for_Brazilian_citizens, existe um arquivo de domínio público em que um mapa-mundi está colorido de acordo com as exigências de visto para brasieiros. De certa forma, ele retrata muito bem as regiões do globo onde somos bem-vindos sem essa burocracia toda e onde não somos:


No mapa, a cor cinza significa que o visto é exigido; a cor vermelha é o próprio Brasil; a cor verde mostra países vizinhos onde se pode ir sem nem precisar tirar passaporte, levando a carteira de identidade; a cor azul escuro mostra os países que não exigem visto; o azul claro são países que dão visto na chegada ao aeroporto, pagando uma taxa; e os verde-petróleo são aqueles que exigem a autorização eletrônica prévia.

No mapa, como se vê, os grandes destinos que ainda exigem visto continuam sendo os EUA, o Canadá, a China, a Índia, o Japão, os países da Ásia Central, boa parte do Oriente Médio e quase toda a África, com exceção dos países mais desenvolvidos na área turística (Marrocos, Tunísia, Egito, África do Sul, Quênia, Namíbia, Tanzânia, etc.).

Por mais que os EUA digam que estão perto de suprimir essa exigência, porque a recusa de vistos a brasileiros já está próxima de 3%, sinceramente não acredito na medida em médio ou curto prazo. A anunciada abertura de um Consulado em Porto Alegre, com previsão de emissão de pelo menos 1000 vistos por dia, é um forte indicativo disso. Ora, se estão pensando em abolir os vistos, porque gastar milhões de dólares para fazer um consulado novo no Rio Grande do Sul? Com o Canadá, por força de acordos comerciais e de imigração com aquele país, não deve ser diferente.

Da mesma forma, ninguém deve esperar a abolição de visto para a Índia ou para a China num horizonte próximo, simplesmente porque esses países exigem visto até mesmo dos países mais ricos do mundo. O mesmo vale para a Ásia Central e para países mais fechados do Oriente Médio e da África e, curiosamente, para a Bielorrússia. Ingleses, escandinavos, alemães; todos eles continuam tendo que tirar vistos para esses lugares – logo não seremos nós que quebraremos a regra (muito embora o fato de brasileiros e argentinos poderem entrar sem visto na Rússia contrarie essa “regra”).

De outro lado, acredito que, num futuro não muito distante, estejamos com acordo de supressão de visto valendo para alguns lugares específicos:

- Sérvia: ele já foi assinado há alguns anos, ainda faltando apenas a publicação dos decretos nos dois países. Quando entrar em vigor, o acordo vai “liberar a passagem” pelo meio dos Bálcãs, porque hoje muita gente conhece a Croácia, a Bósnia e Montenegro, ou a Bulgária e a Romênia, mas são poucos os que se prestam a fazer visto para esse país.

- Japão: o país não exige visto da maioria dos países “ricos”, como os da Europa e da América do Norte, e ainda dispensa gente como argentinos, turcos e mexicanos dessa exigência. Da mesma forma, a Coreia do Sul já dispensa o visto para nós. Ou seja, a única justificativa para essa exigência parece ser o receio de imigração ilegal de decasséguis, o que não se explica mais hoje em dia. Ou alguém acredita que mexicanos e argentinos são turistas mais gastadores que brasileiros?

O que eu quero dizer com tudo isso?

É simples: se você está adiando uma viagem a algum país que exige visto, esperando que logo deixe de existir essa burocracia, pense bem nas possibilidades que há de ela efetivamente deixar de existir. Não adie, portanto, viagens à China, à Índia ou aos EUA e ao Canadá, porque acho que você vai ter que esperar sentado. No mais, há um mundo inteiro por aí que nos recebe bem – então, porque não valorizar esses países?

24/01/2013

Nazaré


Para finalizar o dia, que começou com a chegada a Óbidos e passou por Alcobaça, aproveitei as últimas horas de sol (já passava das 19h, mas ainda era dia claro) e andei mais meia hora até Nazaré, a cidade litorânea mais próxima de Alcobaça.

Não sabia o que esperar de Nazaré e sequer a tinha colocado nos planos daquela viagem de carro pelo país, mais tive uma daquelas gratas surpresas que se tem em viagens, quando se decide ir ao léu para algum lugar diferente, sem grandes pretensões.

A cidade é simplesmente muito charmosinha. Ela tem duas partes: uma baixa, com uma praia tipicamente europeia, com um calçadão, prédios do início do século XX em quase toda a orla, mar tranquilinho, e uma parte alta, com cara de Nordeste, igrejas barrocas, comércio informal, etc. Entre uma e outra, um penhasco de mais de 100m de altura.



Para subir da parte baixa, onde tomamos um sorvete e demos uma caminhada de fim de tarde pela praia, para a parte alta, onde conhecemos a igreja matriz e apreciamos as vistas dos mirantes, pode-se usar uma espécie de funicular ou, de carro, dar a volta por ruas mais para a parte de trás da cidade.

Lá de cima, a vista é impressionante: o mar calminho e esverdeado, com a luz suave do fim do dia e uma leve névoa no ar, com centenas de casinhas brancas de telhados bem vermelhos, enfileiradinhas. Uma das imagens mais bonitas, para mim, naquela viagem.





Reza a lenda fundadora da cidade que em 1182 um nobre que servia como prefeito de uma cidade próxima estava caçando um veado, a cavalo, e que quando o perseguia, subitamente se viu envolto numa densa névoa que vinha do mar. Quando percebeu, seu cavalo estava correndo diretamente para o precipício da falésia sobre o mar, mas invocou o nome de Nossa Sra. de Nazaré e se salvou, conseguindo parar o cavalo no “Bico do Milagre”, uma pedra digna do Rei Leão bem na ponta de uma das falésias.

Bom, depois de umas duas horinhas na cidade, segui viagem, pegando a autoestrada em direção a Leiria e depois descendo a Fátima, onde ficaríamos hospedados. Apesar de não ter muito interesse no Santuário de Fátima propriamente, escolhi ficar na cidade pela excelente relação custo-benefício dos hotéis que existem por ali, todos muito novos e de alto padrão. Decidi usar a cidade como base para as visitas a outros lugares menores que faria no dia seguinte (Batalha e Tomar), das quais falarei nos próximos posts. 

22/01/2013

Alcobaça


Alcobaça é uma cidadezinha a cerca de meia hora de Óbidos, com menos de 20 mil habitantes, mas com uma cara de cidade normal, com vida própria. O motivo pelo qual as pessoas a visitam se resume a um só: o mosteiro que leva o seu nome.

O mosteiro de Alcobaça é considerado como a primeira obra gótica de Portugal e (mais uma vez colando da Wikipedia), foi mandado erguer por volta de 1147. Dá para entender bem a história do lugar durante a visita, na primeira sala ao lado da igreja principal, onde existem murais de azulejos por todas as paredes, contando as razoes pelas quais se fez um prédio tão grande naquele lugarejo no meio do nada.


Basicamente, o mosteiro é o pagamento de uma promessa de D. Afonso Henriques, o primeiro rei de Portugal, depois de ter vencido uma das inúmeras batalhas que travou. Para isso, ele chamou monges beneditinos, da região de Cluny, na França, para ocupar o lugar.

Na igreja principal, próximo do altar, estão os túmulos de dois importantes personagens da história portuguesa: o rei D. Pedro e D Inês de Castro, sua amada. Muitos já devem ter ouvido a expressão “Inês é morta”, e é dessa Inês que estão falando. D. Pedro queria se casar com D. Inês, mas seu pai não deixou, por influencia da corte, que a considerava filha de um inimigo do país. Para evitar o namoro e o casamento, acabaram matando D. Inês, mas mesmo assim, depois que assumiu o trono, D. Pedro teria determinado que o cadáver da amada fosse tratado como rainha, obrigando a corte a beijar sua mão, mesmo morta.

Além dos túmulos, a igreja impressiona pela grandeza. As colunas são muito, muito altas, e a nave central bastante extensa. (Do lado de foram paradoxalmente, a fachada é barroca, contrastando com o interior gótico.)

A parte mais interessante é o mosteiro em si, onde estão os quartos dos monges, a sala capitular, o pátio do claustro, os refeitórios e as surpreendentes cozinhas. A arquitetura das salas e dos quartos (hoje vazios) lembram bastante prédios franceses, como a Conciergerie, de Paris.








Para quem já leu livros como “O Nome da Rosa”, ou curte história medieval, visitar um lugar assim é uma aula. Dá para imaginar os caras mexendo caldeirões de comida naqueles “fogões” enormes. É surpreendente também o modo como se trazia água pura de fora para dentro do mosteiro e a forma como eram dados os restos aos pobres que vinham ao convento pedinchar.

No salão do refeitório, num estilo meio Harry Potter, dá para imaginar os monges comendo enquanto outros faziam leituras, orações ou cânticos dos púlpitos elevados ao lado de colunas.

Gostei muito do lugar, mas confesso que não é para todo mundo. Se não curte história e também não conhece nada da época medieval, de monges e cavaleiros e tudo mais, o melhor é encontrar outros lugares em Portugal para conhecer. 

20/01/2013

Óbidos


Depois de duas noites em Sintra, já na segunda vez em que estive em Portugal, segui de carro alugado para a região mais central do país, ao norte de Lisboa.

A primeira parada que fiz, cerca de duas horas depois de sair de Sintra, foi a pequena cidade amuralhada de Óbidos, considerada uma das mais bem conservadas vilas medievais do país.

A região onde fica Óbidos não tem belezas naturais nem remotamente parecidas com aquelas no entorno de Sintra – são apenas planícies de pastagens e de plantações, sem nada de água por perto. No entanto, a cidade conserva bem aquela cara de cidade medieval, por estar quase inteira dentro de muralhas, com apenas um aqueduto saindo de lá de dentro (claro, hoje em dia há também estacionamentos e auto estradas ao seu redor).

As casas da cidade são tipicamente portuguesas, todas branquinhas e com telhados avermelhados. Os guias da Lonely Planet a descrevem como uma “caixinha de joias”. Pelo potencial turístico do lugar, tudo foi tombado e hoje é conservado com bastante flores. Praticamente não há mais vida “normal” por ali, já que quase tudo são lojas de souvenires e restaurantes para turistas.  As igrejas estão quase sempre vazias e as antigas prisões e prédios públicos servem quase somente a propósitos turísticos. Há até um “pelourinho”, parecido com o de Salvador.







O castelo de Óbidos, aliás, foi o primeiro de Portugal a ser cedido para a construção de um empreendimento privado de hotelaria. É possível, assim, se hospedar num castelo de verdade. De outro lado, visitantes comuns têm que se contentar apenas com a vista externa do castelo.

É possível caminhar no alto das muralhas que cercam quase toda a cidade gratuitamente, subindo por escadas existentes a cada 150m, aproximadamente, sem nenhum custo (sim, porque há cidades que cobram pelo passeio nas muralhas, como Dubrovnik).

Seguindo uma recomendação da Viagem e Turismo, almoçamos num restaurante de comida típica bem no centro da cidade, chamado Alcaide. Matei a vontade de comer um polvo feito na brasa, com azeite português dos mais puros.

Um passeio pela cidade, no entanto, não toma mais do que umas 4 horas, e como tudo é meio “fake”, para turista ver, acho que não há muito fundamento em dormir por ali. O que mais vi são ônibus de excursão, em rota entre Lisboa e o centro/norte do país, passando apenas algumas horas entre as 10h da manhã e as 14h da tarde, para conhecer. Assim, pegamos o carro umas duas horas depois do almoço e seguimos viagem para o próximo destino daquele dia: o Mosteiro de Alcobaça.

18/01/2013

Quinta da Regaleira e Palácio Nacional de Sintra


Outros dois lugares que merecem a visita de quem vai até Sintra são a Quinta da Regaleira e o Palácio Nacional de Sintra. Contrariamente aos outros dois castelos, de que falei no último post, esses dois ficam bem próximos ao centro histórico da Vila e podem ser visitados a pé a partir da praça central.

O Palácio Nacional de Sintra fica exatamente na praça central e não impressiona muito pela sua fachada externa, que é bem sem graça. Alguns dias da semana, como por exemplo domingo, a entrada é gratuita, e não se leva mais do que uns 40 minutos a uma hora para conhecer tudo ali por dentro.


O tal palácio tem cerca de 500 anos de idade e pertenceu à família real portuguesa desde o início. O que torna a visita a esse lugar interessante é o fato de que ele conserva muitos dos azulejos e tetos originais, que são bem típicos da Idade Média e das influências que os árabes tiveram no país. Contrariamente ao Palácio da Pena, que tem um ar romântico e tecnólogas típicas do século XIX, o Palácio de Sintra é bastante rústico no seu interior, com cadeiras de madeira pesada, móveis bem mais toscos e uma cozinha que mais parece a de um mosteiro medieval – as chaminés são impressionantemente grandes e são um dos pontos mais interessantes de se conhecer.







À medida que se vai passando pelas inúmeras salas do castelo, vai-se chegando a algumas partes mais novas e sofisticadas, com tetos ornados em ouro e paredes cobertas de azulejos, com desenhos abstratos e, em alguns casos, cenas históricas (a Sala dos Brasões é o ponto alto nesse quesito). Há também alguns jardins, inacessíveis aos visitantes, mais visíveis das janelas dos quartos e dos salões.

Uns 800m do centro, seguindo por uma avenida na direção oposta à estrada que sobe para a Pena, fica a Quinta da Regaleira que, contrariando os outros três lugares de que falei, sempre foi propriedade particular.

A Quinta foi comprada por um brasileiro chamado Antônio Augusto Carvalho Monteiro, que enriqueceu graças à produção de café e ao comércio de pedras preciosas, no ano de 1892. O novo dono decidiu transformar o lugar numa espécie de “parque de diversões” para adultos, transformando a casa principal num prédio de inspiração gótica (para isso contratou um italiano) e os jardins numa série de túneis secretos, poços, lagos e monumentos de inspiração mitológica e maçônica.




A Quinta da Regaleira é repleta de símbolos místicos e mitológicos por todos os cantos. O folheto que se entrega na entrada propõe uma caminhada pelos jardins dentro de um esquema do tipo “jornada mística”, em que se vai passando por deuses gregos e romanos, capelas cristãs e até mesmo um poço iniciático maçônico.

A casa principal em si tem um aspecto externo digno da Família Adams, mas por dentro parece mais com uma mansão inglesa, com troféus de caça, bibliotecas e salas de música cuidadosamente preservadas.




Um dica que dou a quem quiser conhecer o lugar (e que fez falta da primeira vez em que lá estive) é levar uma lanterna, para poder conhecer os caminhos subterrâneos “secretos” que vão de algumas entradas por cavernas a entradas subterrâneas de alguns pequenos prédios existentes ao longo dos jardins. Nem todos têm iluminação e ficam completamente escuros, mesmo no início da tarde.

Enfim, mesmo com mais de 100 anos de existência, a intenção do dono do lugar de entreter adultos continua sendo correspondida.