29/04/2010

Primeira noite no tour

Deviam ser umas 16hs quando deixamos a ilha do pescado, depois de várias tentativas de fazer fotos engraçadinhas brincando no salar.

A saída da ilha do Pescado se faz em direção à margem sudeste do salar de Uyuni, que fica relativamente mais próxima da ilha do que a margem nordeste, por onde havíamos entrado pela manhã, no início do tour.

Assim que saímos do salar, começamos a andar por estradas de chão que, embora pareçam mais trilhas de aventureiros no meio do deserto, são as únicas estradas que existem na região quase totalmente desabitada. Aqui, a paisagem é árida e poeirenta, ao contrário do salar, que tinha pouco pó no ar e até evocava algo de praia.

No caminho, lembro de termos passado por dois sustos. O primeiro foi que uma mulher boliviana, vestida a caráter, apareceu do nada do meio da estrada fazendo sinal para que o motorista parasse, toda esbaforida. Eles trocaram algo num espanhol bem rudimentar, incompreensível para nós, que depois foi explicado como sendo um pedido para que conseguíssemos ajuda para outro veículo que tinha quebrado numa estrada paralela. Não entendemos muito bem se o motorista repassou a responsabilidade à outra caminhonete que vinha logo atrás ou o quê, mas sei que não perdemos muito tempo ali e nem vimos o que tinha de fato acontecido com o outro carro.
O segundo susto foi quando freamos subitamente no meio da estrada, pelo fato de o motorista ter visto quase em cima da hora que havia um fio de luz caído entre dois postes meio tortos, atravessando a estrada. Se o fio fosse resistente e tivéssemos nos chocado, o estrago seria grande, bem na altura do radiador do veículo.

Os estragos na estrada se deviam, em boa parte, aos temporais que tinham acontecido alguns dias antes do nosso passeio. Alojamentos haviam sido destelhados, nuvens de areia e poeira tinham tirado toda a visibilidade e passeios tiveram que ser cancelados pouco antes de chegarmos a Uyuni.

O dia foi escurecendo e já eram mais de 19h30 quando chegamos ao alojamento em um lugarejo identificado com San Juan. Embora fosse um povoado com gente morando – não mais do que umas centenas – esse foi o lugar mais, qual seria a palavra, remoto em que eu já passei a noite. A impressão era de algo totalmente no meio do nada, longe de tudo e de todos – ainda mais do que no alojamento da noite seguinte, nas margens da laguna Colorada.

O alojamento era um prediozinho comprido, de um andar térreo só, com uns 10 ou 12 quartos com tamanho suficiente para duas camas (embora alguns tivessem três), um ao lado do outro, com um corredor na frente e uma única portinha para o pátio de entrada. No final do corredor, havia um banheiro, unissex, com dois vasos sanitários e um chuveiro, além de duas pias.

Graças à tecnologia e à engenhosidade humana, o lugar contava com um grande conforto da vida moderna: aquecimento do chuveiro a gás, pela módica contribuição de 5 bolivianos, por fora do preço da hospedagem, a ser pago ao dono do local, que mora com a família numa casa ao lado, onde também é servida a janta e o café da manhã. Outra possibilidade para o melhor conforto dos hóspedes era pagar mais 5 bolivianos para usar uma tomada de energia elétrica na casa do proprietário e carregar baterias de câmeras digitais ou filmadoras – algo essencial devido ao fato de que o frio extremo faz as baterias descarregarem mais rapidamente.

A preocupação do guia com a hospedagem acabou não fazendo sentido algum naquela noite. Fomos o primeiro grupo a chegar no alojamento e, até umas 23hs, o único. Pudemos escolher os quartos e tomar banho com tranqüilidade, antes da janta. Até emprestamos papel higiênico e mais algumas coisas aos holandeses, que estavam totalmente despreparados para passar a noite num lugar sem aquecimento que chegava a temperaturas de -10°C no meio da madrugada.

A janta foi servida depois de um chá com bolinhos de entrada. Havia milho cozido e uma galinhada. Por fora da janta incluída no passeio, ainda pedimos umas garrafas de vinho, surpreendentemente uns Concha y Toro muito bons em garrafas de litro, maiores do que as usuais de 750ml. O preço, como tudo na Bolívia, era uma barbada.
Houve uma surpresa no meio da janta. Do nada, apareceram três menininhos com instrumentos musicais de sopro e percussão, para tocar e cantar músicas folclóricas ao melhor estilo “índio peruano pedindo dinheiro na praça”. Perguntamos as idades, dada a cara de criancinhas muito pequenas, e nos surpreendemos como eram pequenos e infantis para crianças com idades entre 8 e 12 anos de idade. Até tentamos participar e acompanhar o show particular, mas nem eles e nem nós estávamos com muita vontade de curtir as musiquinhas que tinham como único objetivo nos arrancar alguns trocados. Uns 15 minutos depois eles já estavam indo embora com seu dever cumprido.
Ficamos conversando com o guia, com os holandeses e com a guria de Porto Alegre que formavam o nosso grupo, e até tentamos uma interação com os tímidos donos da casa que serviam a retiravam os pratos. Matamos umas três garrafas de vinho e fomos dormir, tomando coragem para suportar o frio de uma noite que estava com o céu totalmente estrelado, indicativo de ainda mais gelo.

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