02/06/2012

Córdoba, Andaluzia


Córdoba (não confundir com a cidade de mesmo nome situada no meio da Argentina) é uma das cidades mais interessantes que acabei conhecendo na Espanha, meio que despretensiosamente, no primeiro dia em que cheguei ao país, agora no mês de março de 2012, já que tinha que me virar sozinho enquanto meu anfitrião estava tendo aulas durante a semana.

A cidade foi a capital dos mouros, no auge do período histórico em que eles dominaram a Península Ibérica, entre os séculos VIII e XII. Toda a região ocupada pelos atuais Portugal e  Espanha, com exceção da região das Astúrias, esteve sob o domínio desse povo, que era muçulmano, mas tolerava a existência de judeus e de cristãos não convertidos.

Antes disso, Córdoba fez parte da província romana da Bética (que tinha como cidades mais importantes Sevilha e Cádiz) e, entre uma coisa e outra, foi parte do Reino Visigodo. Depois do período mouro, foi reconquistada pelos reis cristãos espanhóis e, desde então faz parte da Espanha, como a conhecemos.

Isso tudo pode ser visto na cidade pelos vários marcos históricos, legados pelas diferentes civilizações que ali passaram.

Um exemplo deixado pela primeira fase histórica da cidade é a Ponte Romana que atravessa o rio Guadalquivir na altura da cidade histórica. Embora esteja bastante modificada por obras de restauração realizadas ao longo dos séculos, a ponte ainda conserva os arcos típicos das construções daquela época. Na extremidade oposta há torres que nitidamente foram acrescentadas em período medieval e, no meio, estátuas de anjos (que até me lembraram a Ponte Carlos, de Praga), que devem ser de época posterior ao Renascimento.

Os arredores da ponte ganham vida no final da tarde, quando os locais aproveitam para correr nas margens do rio, além de ir por cima e por baixo da ponte, bem como a passear com os filhos e com os cachorros. Alguns músicos, com violinos, flautas e violões fazem exibições nas cabeceiras e no meio da ponte, para ganhar alguns trocados de quem passa.


A vista do centro histórico é ainda mais bonita do outro lado dessa ponte, como pude demonstrar com essa foto acima, feita no final de tarde.

A umas duas quadras a leste do ponto mais central da parte antiga de Córdoba, ficam as ruínas de um antigo Templo Romano, do qual basicamente só se veem as fundações e algumas colunas.


No dia em que passei por lá, havia algumas obras de recuperação do redor e, com as colocações de arquibancadas para a Semana Santa, que se aproximava, nem consegui chegar muito perto. Mesmo assim, acredito que não valha muito a pena se deslocar até lá, se a pessoa tem pouco tempo na cidade.

Da época em que a cidade foi dominada pelos visigodos (uma das tribos germânicas bárbaras que contribuiu para a queda do Império Romano), resta pouca coisa. O exemplo mais visível está dentro daquela que é a principal atração de Córdoba – a Mesquita-Catedral.

A Mesquita-Catedral recebe esse nome por ter sido as duas coisas, em diferentes fases da história da cidade. Ainda no Império Romano, mas possivelmente já na fase em que o cristianismo tinha tomado a maior parte da população, uma catedral teria sido erigida no local, com o objetivo de ser o maior centro religioso local. Logo depois, quando a Hispânia caiu nas mãos dos bárbaros e deixou de ser considerada parte do Império Romano, os visigodos, que ali se instalaram, fizeram ampliações e melhoraram o interior do lugar.

Numa visita à Mesquita-Catedral, os traços dos visigodos podem ser vistos logo na entrada, que é justamente a parte mais antiga: há um buraco no solo que mostra uma parte mais antiga, mais baixa que o chão atual, onde há vestígios da catedral visigoda. Além disso, há pedaços do altar em pedra que existia no local, com esculturas incrustadas neles de homens santos e nobres locais – parecidas com algumas que se vê em túmulos daquela época.



A Mesquita-Catedral passou por sua fase como mesquita a partir do século VIII, quando os mouros rapidamente conquistaram toda a região e se apropriaram dos principais prédios das cidades. A catedral visigoda foi então transformada numa grande mesquita, com um pátio externo para as abluções e uma grande parte interna, cheia de colunas interligadas por arcos que, segundo se explica, tinham a intenção de parecer um palmeiral.


Nessa época, todas as representações de seres humanos e santos foram destruídas ou escondidas e passou-se a decorar as paredes com motivos abstratos e com caligrafia árabe. O altar foi destruído e foi criado um nicho para orações voltado para Meca numa das paredes, que é justamente o ponto mais bonito da mesquita, ainda preservado.

Progressivamente, cada Califa que governava o Estado Andaluz formado nessa época foi ampliando a mesquita, até o ponto de dominar o tamanho de uma quadra urbana das grandes, como ainda é atualmente. O espaço coberto, todo sustentado por mais de 1100 colunas, é praticamente vazio, sendo apenas um lugar para que os homens pudessem rezar ajoelhados e escutar as preces de um sacerdote muçulmano, que falava a partir de um púlpito, ainda existente.

Do lado de fora, no pátio, foram plantadas laranjeiras e construída uma grande torre, de onde o muezim fazia o chamado para as orações (hoje a torre abriga um sino cristão, mas ainda está em pé e muito bem conservada).



Não foi muito depois da época das Cruzadas que a mesquita virou catedral novamente. Os reis de Castela e Leão foram os condutores da chamada Reconquista e já por volta do século XIII Córdoba havia sido tomada dos mouros, que transferiram sua capital para Granada, de onde só seriam expulsos em no final do século XV. Assim, como mais uma prova da retomada do poder, a mesquita foi toda adaptada para passar a ser usada como catedral. Criou-se um gigantesco altar no meio da mesquita, colocou-se o sino na torre e se fizeram algumas capelas nas paredes laterais. Com o passar dos anos, foi acrescentado um coro, sacristias, etc.




O resultado foi uma das catedrais mais diferentes que existem no mundo católico, pois a estrutura continua sendo toda tipicamente muçulmana. As colunas continuam ornadas com detalhes em vermelho, as inscrições em caligrafia árabe continuam nas paredes e os aspectos arquitetônicos são inegavelmente os mesmos que se vê em lugares como o Marrocos.

Desde o final do século XX, a Mesquita-Catedral foi tombada como patrimônio da humanidade pela UNESCO e hoje continua sendo uma das maravilhas da Espanha, sempre cheia de turistas, de grupos escolares e de fieis fazendo visitas.

A entrada na Mesquita-Catedral é cobrada, exceto nos horários de missa, geralmente pela manhã. Para entrar, o acesso é feito pela rua oposta ao rio, na parte mais alta, onde fica o pátio externo.

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