08/06/2012

Cádiz


Cádiz é uma cidade peculiar, bem no sul da Espanha, quase no Marrocos. Sempre tive a imagem dela como um lugar tipicamente portuário, com gente meio mal encarada, prédios meio detonados e áreas meio sujas.

A impressão não poderia estar mais equivocada. Conheci Cádiz num passeio de bate e volta a partir de Sevilha (são cerca de 90 minutos de trem de média velocidade, os Altavia, que saem de hora em hora, praticamente, tanto da estação San Bernardo como da Santa Justa) e tirei toda essa imagem em apenas algumas horas.

Geograficamente, a sua posição é muito interessante: ela fica numa ilha que serve de dique natural para uma laguna marítima. Há muito tempo, porém, a ilha foi ligada ao continente por aterros feitos com areia, em cima dos quais foi construída uma ponte ferroviária e autoestradas. Hoje, portanto, o que se vê é uma península ligada ao resto da Espanha por um istmo bem estreitinho. 

Tomando um pouco mais de distância, vê-se que ela está bem na “cabeceira” norte do estreito de Gibraltar, para o lado do Atlântico – razão pela qual, na Antiguidade, mitologicamente era considerada como um dos pilares de Hércules.

Boa parte dessas descrições podem ser observadas na prática por um dos passeios mais interessantes na cidade, que é subir na torre da “nova” catedral, de onde se tem uma visão de 360º a uma altura de mais ou menos uns 50m, depois de uns bons lances de escadarias em caracol. No meio dos sinos da torre, a pessoa pode ir trocando de “janelinha” para ir tendo as vistas da própria cidade, do porto, das cidades que ficam do outro lado da baía (Santa Maria del Puerto) e do mar aberto. A subida custa uns 5 euros, mas vale a pena e dá direito até a explicações na língua do visitante por um sistema de áudio que fica passando na torres.





De cima a cidade é bonita, e de baixo também. Caminhando pelo lugar, achei tudo muito bem cuidado. Prédios históricos bem recuperados, praças e fontes impecáveis, ruas com calçamento tinindo de limpo, boa sinalização turística, enfim, um lugar bem voltado ao turismo. Um que outro camelô (nitidamente imigrante) vendendo bugigangas dava o contraste.

Embora a principal atração da cidade seja o Carnaval, tido como o melhor de toda a Espanha – mas que obviamente só acontece no mês de fevereiro –, muitas pessoas acabam conhecendo a cidade por outras razões: as praias das redondezas (inclusive foi numa delas que nossa compatriota Cicarelli protagonizou seu famoso videozinho, que fez a sua “fama” na internet), a gastronomia (a cidade é famosa pelos pescados) e os aspectos históricos das sucessivas civilizações que ali deixaram suas marcas.

Assim como quase tudo na Andaluzia, Cádiz é o resultado de anos de sucessivas invasões e ocupações. Tudo começou ainda com os fenícios, antes dos romanos. Essa civilização, originária do atual Líbano, usava a cidade como porto e entreposto comercial, tendo estabelecido ali uma de suas colônias.

Há vestígios muito bem conservados desta época em exposição no Museu de Cádiz, que fica na praça mais ao centro da cidade antiga. São principalmente joias femininas, pequenas representações de deuses e bustos de nobres, usados muitas vezes para adornar sepulturas, que foram sendo encontrados por acaso em escavações durante reformas de prédios na cidade.



Na época do Império Romano, em que a cidade passou a ser chamada de Gades (até hoje quem nasce em Cádiz é chamado de gaditano), a cidade seguiu em sua vocação de entreposto comercial, principalmente de especiarias, tecidos orientas e produtos vindos da África, mas também ganhou fama pelos seus bordeis. Ela chegou a ter várias termas romanas, um anfiteatro para lutas de gladiadores e espetáculos com animais, prédios públicos com representações do Imperador Augusto e obras de canalização voltadas à aquicultura e à pequena agricultura.


Dessa época, ainda podem ser vistos no Museu de Cádiz diversos objetos de uso cotidiano, além de armaduras e capacetes do Exército Romano, imagens de deuses e semideuses em tudo quanto é tamanho e restos de produtos que eram comercializados por ali.

Quando os mouros dominaram a península Ibérica, a cidade teve uma significativa redução em importância (porque o comércio passou a ser mais centrado no Mediterrâneo) e em tamanho (a ocupação da cidade se resumiu à Medina, ou seja, a um centro histórico tipicamente árabe ao redor de uma mesquita, deixando de fora das muralhas grandes extensões abandonadas, com construções romanas em ruínas).

Depois da Reconquista, retomou seu crescimento (naturalmente restrito pelo tamanho do espaço geográfico da península) e erigiu diversas igrejas e catedrais, uma delas inclusive aproveitando a antiga mesquita (a chamada catedral antiga, ou catedral medieval). Hoje, a cidade continua compartilhando o mesmo fervor das vizinhas andaluzes em relação a procissões na Semana Santa, quando imagens de santos das diferentes igrejas são conduzidas cerimonialmente até a Catedral).

Além do Museu de Cádiz e da Catedral nova, em cuja torre subi, dei uma rápida olhada nas ruínas do antigo anfiteatro romano (do qual apenas uma parte sobrou, pois a outra foi coberta por muralhas medievais) e na Catedral medieval, que é bem menor e mais escura do que a existente em Córdoba, mas que também tem colunas típicas de mesquitas em seu interior. Como era sexta-feira antes do Domingo de Ramos, já havia bastante coisas ali relacionadas às procissões, e inclusive reuniões de alguma das confrarias religiosas da cidade para os últimos preparativos. O centro histórico também estava recebendo arquibancadas e sendo decorado para as procissões.




Na hora do almoço depois de conhecer o mercado de flores numa das pracinhas da cidade (aquela que fica bem em frente ao Mercado Público), escolhi um restaurante e me atraquei sozinho num prato (feito para 2 pessoas) que reunia demonstrações de vários tipos de pescaditos gaditanos (basicamente tudo que é fruto do mar – calamares, camarões, moluscos, etc. – e diferentes tipos de sardinhas e outros peixes fritos em azeite de oliva com alguma farinha para dar uma crostinha crocante).

Depois de ter conhecido a praça do ayuntamiento, o centro histórico com as catedrais e praças, e almoçado, fui para os lados do Museu já em meio a uma garoazinha fina. Quando saí, a garoa tinha aumentado, mas mesmo assim me arrisquei e segui para o lado oposto da cidade, onde encontrei bonitas praças com vistas legais do porto e do mar... aí, a chuva apertou de vez e decidi que era hora de encerrar o passeio. Eram recém umas 3 da tarde, mas aquela chuva não dava sinal de que pararia e, no caminho, fui obrigado a comprar um guarda-chuva por extorsivos 8 euros para não chegar ainda mais molhado na estação de trens.



Uns 20 minutos depois já estava eu comprando um bilhete de trem para Jerez de la Frontera,  cidade que fica no caminho entre Cádiz e Sevilha e que, se estivesse com clima melhor, seria minha próxima parada.

Desci em Jerez, que é famosa por sediar uma etapa da Formula 1, por ter um centro histórico bem conservado, centros de criação de cavalo andaluz e pela fábricas da bebida chamada xerez, mas a chuva estava ainda mais forte, por isso não tive alternativa senão comprar uma passagem de volta a Sevilha e esperar pelo próximo trem, enquanto tomava um café.

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