29/01/2010

La Quiaca

Apesar de o dono da pousada ter alertado que o taxista poderia não vir no horário marcado por causa do sono e do frio e que, nesse caso, o jeito seria ir à pé naquela escuridão, um gurizão apareceu com o táxi bem na hora em que estávamos prontos para seguir sozinhos.
Comovidos com aquele esforço de trabalhar de madrugada, naquele frio, deixamos o dobro do preço da corrida para o magrão: 10 pesos. Ele ficou muito agradecido e nós ainda mais comovidos pela alegria do cara em receber cerca de 5 reais.
O ônibus atrasou só uns 10 minutos e chegou quase cheio, vindo de Salta. Embarcamos e, num caso raro para mim, consegui dormir a viagem inteira. Acordei por volta das 7h e pouco, já no portal indicando “Bienvenidos a La Quiaca”, numa paisagem completamente desértica e mais plana, embora com uma altitude de 3.400m.
La Quiaca é o equivalente argentino do Oiapoque, guardadas as devidas proporções. É a cidade mais ao norte do país e já tem muito mais cara de Bolívia do que de Argentina. Tem uns 15 mil habitantes e vive do comércio de bens de consumo com o lado boliviano (Villazón), que vende roupas e eletrônicos. Apesar dos pesares, é bem ajeitadinha e oferece opções boas para que precisa dormir e comer na região.
Acordei os guris e nos preparamos para descer. Sabíamos que a fronteira com a Bolívia só abriria por volta das 8hs, por isso tínhamos que achar algum lugar para tomar o café da manhã.
Quando fomos descer do ônibus, sentimos o drama da situação: a porta não abria porque estava congelada. Meu Deus! Do lado de fora, perguntamos que temperatura estava e, embora não houvesse nenhum termômetro para confirmar, nos disseram que fazia uns 10°C abaixo de zero.
Na rodoviária, havia apenas cholas dormindo agasalhadas nos bancos e no chão; aparentemente nenhum restaurante ou café aberto. Tivemos a idéia, então, de ir para o Hotel de Turismo e lá pagar por um café decente. Fomos de táxi, embora fossem apenas umas quatro quadras da estação.
Chegando no hotel, tivemos uma grata surpresa. O lugar era muito bem cuidado e até parecia ter menos de 20 anos. Perguntei ao recepcionista se podíamos pagar só por um café da manhã e, depois de conversar com o gerente, me respondeu que custaria 7 pesos. Entramos com nossas coisas e pudemos relaxar ao calor da calefação. Usamos os banheiros e logo em seguida nos chamaram para dizer que o café estava posto no salão principal, que até lareira tinha.
Enquanto comíamos, ficamos vendo um jornal na TV, algo equivalente ao Bom-Dia Brasil, que mostrava a onda de frio que assolava o país, de Ushuaia a La Quiaca, literalmente. Havia nevado até mesmo em Buenos Aires, o que é um evento raro, embora tenha ocorrido ano retrasado também. Mendoza e Córdoba estava debaixo de quase um metro de neve.
Ficamos umas duas horas no hotel, aproveitando o café e o calor. Depois, fomos caminhando até a fronteira, bem agasalhados e com máquinas de fotografia a postos para registrar as placas indicando o inusitado local.

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