21/09/2010

As 2 guerras de Mostar

Esquina de duas das ruas mais importantes de Mostar, em julho de 2010

Mostar é a cidade mais turística da Bósnia-Herzegovina, desde a época da antiga Iugoslávia. Antigamente, isso se justificava principalmente por seu centro histórico bem preservado e pela Ponte Velha (Stari Most), declarada Patrimônio da Humanidade pela UNESCO. Com a guerra do início dos anos 1990, porém, a cidade foi quase completamente arruinada, mas mesmo assim voltou a ser o lugar mais visitado do país. Seja por causa da Stari Most, reconstruída em 2004, seja em razão das supostas aparições da Virgem Maria na vizinha Medjugorije, seja por causa das marcas aparentes da guerra que estão por todos os lados.


Mostar foi muito mais castigada do que Sarajevo na guerra e ainda tem um caminho muito mais longo para se livrar de todas as suas marcas.

A pergunta que todo mundo faz – sobre o motivo pelo qual a cidade foi tão severamente atingida – é respondida pelos locais de um modo simples e direto: é que não foi só uma guerra, foram duas.

A primeira guerra, que demoliu a maior parte da cidade, foi travada entre dois lados bem definidos: os sérvios do Exército Popular Iugoslavo (que era contra a independência da Bósnia-Herzegovina da Federação Iugoslava) versus muçulmanos e croatas, que juntos lutavam para expulsar o exército federal do país, numa união de esforços temporária.

Imagens da guerra nos anos 1990, expostas num museu de Mostar

Os primeiros bombardeios dos sérvios contra a cidade começaram em 12 de abril de 1992. Em junho do mesmo ano, os croatas e os muçulmanos conseguiram expulsar o Exército Iugoslavo para fora da cidade, mas eles ficaram nos arredores, bombardeando a cidade de longe, principalmente a partir das montanhas que cercam a cidade. Foram 18 meses de cerco. Nesse período, foram destruídas 14 mesquitas, a catedral católica, um mosteiro franciscano com uma biblioteca de mais de 50 mil títulos e outras dezenas de prédios onde funcionavam instituições civis.

Quando os sérvios haviam perdido o controle da maior parte do país, os croatas se voltaram contra os muçulmanos, para assegurar a independência de uma República Croata da Herzeg-Bósnia, que futuramente poderia ser anexada à própria Croácia.

Nessa segunda guerra, os croatas impuseram um cerco de 8 meses a Mostar. Nesse período, a cidade estava dividida em uma parte oriental, onde se concentrava o Exército da Bósnia, de maioria muçulmana, e uma parte ocidental, onde estava a Frente de Defesa Croata (os muçulmanos que moravam desse lado foram expulsos para o outro). Com o cerco, os croatas cortaram o acesso de comida e de ajuda internacional a Mostar e exigiam, pelo rádio, que todos os muçulmanos se rendessem com uma bandeirinha branca na janela de casa.

O saldo dessa segunda guerra foi a destruição quase completa do lado oriental de Mostar (quase tudo que há lá hoje foi reconstruído de 15 anos para cá), estupros em massa de muçulmanas e execuções em massa. Foi nessa guerra, por culpa dos croatas, que a Stari Most foi demolida (os iugoslavos haviam destruído todas as outras, menos essa ponte).

Só em fevereiro de 1994 a guerra oficialmente acabou, com o Acordo de Dayton.
Prédio ainda habitado, Mostar, julho de 2010

Nenhum comentário: