17/02/2010

Uyuni

Lá pelas 10 horas da noite, pegamos no sono e não vimos mais nada no trem. Assustados, no entanto, fomos acordados algumas horas depois, com a movimentação das pessoas e conversas altas, dando a entender que já estávamos chegando em Uyuni. Olhei no relógio e era 1 da manhã, por isso cheguei a suspeitar que não seria verdade. O trem só deveria chegar em Uyuni à 1h30 e, pelo que sabíamos, já vinha com um atraso de 45 minutos, pelo menos.

Os vidros estavam congelados, por isso não dava para olhar para fora direito. Alguns minutos depois, o trem efetivamente parou e realmente estávamos em Uyuni.

Como as mochilas haviam sido despachadas para um vagão de bagagem e como li que era bom não dar bobeira nessa hora - sob pena de ficarmos sem elas - tratei de descer ligeiro do trem enquanto os guris ainda se arrumavam para dar jeito de encontrá-las.

Com um frio que calculo ser de -10°C, aquela bobeira de quem recém acordou e aquela movimentação toda, a cena que vi parecia de guerra. Um trem semi-congelado parando numa estação em plena madrugada, com várias "cholas" correndo para pegar suas coisas e mochileiros perdidos aqui e ali. Quando abriram o vagão de bagagens, uma cena que me lembrou aquele filme, "Dr. Jivago": havia pessoas dormindo, quase congeladas, no meio das bagagens.

Peguei as três mochilas e logo depois os guris já estavam ao meu redor. Quando o trem se foi, as coisas se acalmaram e pudemos checar se estávamos todos bem agasalhados. Não demorou muito e uma local se apresentou como sendo a pessoa que nos levaria ao nosso hotel, contratado em Villazón.

Tudo era muito previsível. Como já tinha lido, ela estava nos levando para um hotel diferente do contratado. Insisti e quase briguei que queríamos ir para o nosso hotel reservado, chamado "Sajama", mas ela nos convenceu de que o nosso ("Daison", esse da foto) era mais perto e mais confortável.
Se era mais confortável, nunca saberei, mas de fato era ao lado da estação. Demorou um pouco até que o sujeito encarregado da portaria acordasse para abrir a porta, mas assim que entramos encontramos um quarto com três boas camas, carpete, banheiro individual com água quente e nada para nos queixarmos. Bom, poderia ter um box para não molhar tudo a cada banho, mas isso era pedir demais.

Revezamo-nos no banheiro para tomar banho e em meia hora já estávamos prontos para dormir. O frio lá fora era congelante, mas dentro do quarto todos conseguimos dormir bem.

Na manhã seguinte, com o céu azul e o clima ainda mais frio, saímos para encontrar a agência contratada ao lado do hotel, a qual nos providenciaria o café da manhã - que não era servido no hotel. Ela nos levou até uns restaurantezinhos na "alameda central" de Uyuni e falou com umas pessoas, repassando-lhes algo que seria um voucher para nossa refeição.

Comemos a céu aberto um farto café da manhã, com frutas, pães típicos, chá de coca e café, e até encontramos o argentino do trem com quem fizemos amizade.

Depois, demos jeito de encontrar o único caixa automático de Uyuni, que só abriria às 9h da manhã, mas que meia hora antes já tinha gente na fila esperando. Eu confesso que não acreditava que, pela primeira vez na vida, veria bolivianos (o dinheiro local) saindo de um caixa automático com ligação direto à minha conta, mas isso de fato aconteceu, depois de uns 20 minutos de espera. Sacamos o dinheiro necessário para os três dias de tour e nos pusemos a caminhar pelo centrinho de Uyuni.
Uyuni só existe por causa do trem e do Salar. O lugar é realmente insólito. A 3.700m de altitude, longe de tudo e de todos, com temperatura e vento extremos quase o ano inteiro, o lugarzinho tem menos de 20mil habitantes e muito pouco a oferecer, a não ser pelo fato de ser o ponto de partida para o Salar que leva o nome da cidade.

Existem algumas construções vagamente inspiradas pela presença dos ingleses que andaram explorando recursos minerais na região no passado e, basicamente, monumentos em homenagem aos trens do país. O mais pitoresco é uma torrezinha com relógio bem no centro da cidade e um prédio vermelho ao seu lado.
As árvores não tinham nenhuma folha, por ser inverno. O único movimento era o das "cholas" montando suas banquinhas de comércio informal e a ida e vinda de mochileiros comprando suprimentos para os três dias de tour.
Fizemos a nossa parte também. Pesquisamos se valia a pena comprar sacos de dormir, mas acabamos deixando para a sorte essse trabalho - arriscamos os sacos oferecidos no tour. Compramos mais uma proteção para o pescoço, já que os cachecóis não estavam surtindo muito efeito naquela temperatura. Compramos ainda bastante água mineral, chocolates e umas bolachinhas.

Com essas idas e vindas, tiramos algumas fotos da cidade, que são essas que aparecem aqui no post.

Um comentário:

Bianca Felske Avila disse...

Estou procurando coisas sobre o Salar e achei teu blog adorei. O mais interessante que também sou de Santa Maria/RS, mas moro em SP já faz algum tempo... eh vida pequena.... vou ver se consigo fazer o salar ainda neste semestre!