31/05/2012

De volta à Espanha


Embora a Espanha tenha sido o primeiro país que conheci na Europa, ainda em setembro de 2006, e um dos que, sem dúvida alguma, mais gostei, de todos pelos quais passei, ainda não tinha merecido uma nova visita minha até o mês de março de 2012. Nesse período todo, já tinha estado mais de uma vez em Portugal, na Alemanha, em Paris, em Amsterdam e na Itália, por exemplo, mas nunca voltado a solo espanhol.

No final daquele mês, aproveitei a oportunidade de ter um amigo bastante próximo, o Harold (que inclusive participou do mochilão pelos Bálcãs), morando lá para fazer um mestrado numa faculdade local, e voltar a visitar o país. Fui sem grandes objetivos turísticos, mais pela visita ao amigo do que para qualquer outra coisa, mas sabia que o simples fato de estar numa região como a Andaluzia já me traria boas experiências.

Como a Semana Santa, na Espanha, é um feriadão de ponta a ponta, ele teria vários dias para fazermos juntos alguns passeios por lugares mais distantes. As aulas terminariam na sexta, antes do domingo de Ramos, e só voltariam na segunda, depois da Páscoa, totalizando 8 dias de folga. Decidimos, depois de analisar vários possíveis roteiros, que iríamos para o Marrocos passar 5 dias a partir da segunda-feira da Semana Santa, aproveitando um voo recém inaugurado da RyanAir ligando Sevilha e Marrakesh sem escalas, com apenas 1h10 de duração. Com esses 5 dias fora, eu ainda teria três dias úteis na semana anterior para conhecer  a Andaluzia sozinho, enquanto ele assistia às aulas, mais o sábado e o domingo para curtir Sevilha com ele e com mais um terceiro amigo, o Achilles, que chegaria naquele mesmo final de semana para ir ao Marrocos conosco.

Eu cheguei a Sevilha na quarta-feira da semana antes da Semana Santa, num voo vindo de Lisboa, com a TAP. Tinha feito a imigração, sem problema algum, em Portugal, e embarquei pontualmente no minúsculo avião de 26 passageiros que liga a capital portuguesa à capital andaluz umas duas vezes por dia.

O Harold foi me esperar no aeroporto e, depois de um trajeto de cerca de meia hora de ônibus urbano, já estávamos no centro de Sevilha, onde ele tinha um apartamento alugado para seu período de 6 meses no país. Embora não estivesse dentro do “casco” histórico, o lugar era muito bem localizado logisticamente: está a meio caminho entre duas estações de da única linha de metrô da cidade (a estação San Bernardo, que também é estação de trem regional e Altavia, e a estação Prado de San Sebastian); a poucos passos de uma parada do bonde elétrico novinho folha que leva para dentro do centro histórico da cidade, com terminal no Archivo de Índias, em frente à Catedral de Sevilha; a uma quadra do terminal de ônibus do Prado de San Sebastian e a apenas 15 minutos de caminhada das principais atrações turísticas da cidade.

Depois de abrir a mochila e tomar um banho, para tirar a nhaca da viagem, saímos para almoçar ali por perto, num horário que para os espanhóis ainda é muito cedo: cerca de 13h30. O normal, por lá, é almoçar às 15h. A janta é degustada por volta das 22h30 e, no dia seguinte o café da manhã (quando existe) sai lá pelas 11h. Praticamente conseguíamos manter o fuso horário brasileiro para efeitos de refeições, mesmo estando num fuso de 4 horas a mais que no Brasil.

Já nesse primeiro dia, ele foi me passando suas impressões da cidade e da região, que seriam confirmadas nos dias seguintes: um lugar relativamente pequeno (Sevilha tem apenas 700 mil habitantes), com muito senso de comunidade e de poucos imigrantes, ainda desconhecido da maioria dos brasileiros (que ficam apenas em Barcelona, Madrid e Ibiza), mas que guarda o melhor de quase todos os estereótipos espanhóis: as melhores tapas, as melhores touradas, o melhor flamenco, os legados muçulmanos e ciganos na Espanha, as maiores procissões religiosas e uma vontade impressionante de curtir a vida na rua, tomando chopp a qualquer hora do dia, em pé, nas centenas de barzinhos espalhadas pelo centro histórico. De quebra, a cidade está a uma ou duas horas de trem de praias que ficam lotadas de turistas europeus em busca de sol (praias ao redor de Málaga, Cádiz, Alicante, etc.) e a duas horas da estação de esqui mais meridional da Europa, na Sierra Nevada, ao lado de Granada.

 Arquitetura árabe nos palácios
 Uma banda chegando na frente da Arena de Touros
 Uma dançarina de flamenco durante apresentação
Um nazareno vestido para procissão na Semana Santa

Assim como a Baviera representa a Alemanha em todos os seus traços mais típicos (turisticamente falando) e a Sicília representa a Itália, a Andaluzia (e Sevilha, especificamente) representa a Espanha, embora isso valha tanto para o bem como para o mal. Ela tem o melhor do que o país tem a oferecer a turistas, mas também tem taxas de desemprego que são das mais altas do país, uma pobreza econômica que só não é pior que a da região da Estremadura e um calor que, no verão, torna insuportável a vida de alguém que pretenda ficar batendo perna para aproveitar ao máximo as atrações turísticas, pois frequentemente chega aos 45ºC, principalmente quando sopra uma onda de calor dos desertos africanos.

Por isso tudo, o lugar é melhor visitado em estações intermediárias, entre os meses de março e maio, e de setembro a novembro, e com um ritmo que permita viver as experiências que a cidade oferece. Exatamente por essa razão, uma viagem completa pela Andaluzia exige um planejamento que coloque a Semana Santa, ou a Feria de Abril, ou a temporada de touradas no roteiro (ou uma temporada de praia). O lugar não é mais bonito ou mais fotogênico que muitos outros que existem na Europa, mas é um lugar para se viver essas experiências tipicamente espanholas como nenhum outro.

Se não for para lá com essa mentalidade, de viver as experiências, é possível que o visitante volte dizendo apenas que é um lugar muito seco, sem grande atrativos naturais, com palácios que depois de um tempo parecem todos muito iguais (a arquitetura mudéjar e muçulmana se revela nos detalhes), com serviços meio ineficientes. Se a pessoa não gosta de flamenco ou tem ojeriza a touradas, então, voltará indignada, porque isso está profundamente arraigado na cultura local.

Já antecipo, porém, que para o meu gosto, Sevilha é um dos melhores lugares para se passar alguns meses na Europa que eu já conheci.

3 comentários:

Vitor Zanni disse...

Oi, André. Meu nome é Iara, sou professora de História da Arte e buscando imagens de arquitetura islâmica vim parar aqui no seu blog.
Gostei muito!
Tenho uns amigos com quem viajei a Paris há dois anos e pretendemos continuar a conhecer a Europa aos poucos, mesmo porque a grana e o trabalho não permitem que seja de uma vez só.
Capturei a imagem do palácio em Sevilha, mas não há outras referências sobre o que se trata, mas pode deixar que darei o crédito do fotógrafo.
Abraço,

iara com i disse...

Oi, André. Meu nome é Iara, sou professora de História da Arte e buscando imagens de arquitetura islâmica vim parar aqui no seu blog.
Gostei muito!
Tenho uns amigos com quem viajei a Paris há dois anos e pretendemos continuar a conhecer a Europa aos poucos, mesmo porque a grana e o trabalho não permitem que seja de uma vez só.
Capturei a imagem do palácio em Sevilha, mas não há outras referências sobre o que se trata, mas pode deixar que darei o crédito do fotógrafo.
Abraço!

André Augusto Cella disse...

Aquele é o Alcázar de Sevilla. Nos próximos dias postarei mais sobre a cidade.