05/05/2010

O alojamento "mais frio do mundo"

Qualquer pessoa que leia alguma coisa sobre o tour pelo sudoeste boliviano, passando pelo salar de Uyuni e pelas lagunas altiplânicas, acaba ficando impressionado com os relatos sobre o alojamento em que se passa a noite ao lado da Laguna Colorada. Todos são efusivos em destacar como o lugar é frio (fala-se em temperaturas de até -25°C) e sem estrutura alguma de conforto. Foi por isso que criamos uma expectativa (e até um temor) bastante grande em relação à malfadada segunda noite do circuito sudoeste.

O guia, como na noite anterior, disse que era importante que chegássemos cedo para garantir lugares bons. Não lhe demos tanto ouvido, porque na primeira noite acabamos ficando sozinhos no alojamento que nem foi tão frio assim.

Dessa vez, contudo, foi diferente. Estava ventando bastante e assim que nos aproximamos dos alojamentos vimos que já havia várias caminhonetes com outros grupos. Não demorou muito e recebemos a informação de que o alojamento que estava reservado pelo nosso grupo teve o telhado levantado pelo vento.

Na maior calma do mundo, o guia disse que o melhor era esperar que arrumassem o telhado até o escurecer, e caso isso não fosse possível teríamos de passar a noite dentro da caminhonete.

Nisso, um dos meus amigos tomou as dores do grupo inteiro e exigiu que o guia conseguisse outro alojamento, afinal havia vários naquele lugar. Ele disse que ia tentar e, com a mesma facilidade com que nos comunicou da possibilidade de termos de dormir no carro, disse que tinha encontrado um lugar para dormirmos - um quarto coletivo com 8 camas.

Não pensamos duas vezes e descarregamos as coisas. Cada um colocou as suas coisas numa das camas e não demorou muito para que já estivéssemos tomando conta de uma das mesinhas que havia no corredor. Outros mochileiros já estavam bebendo ou jogando cartas àquela hora, à medida que escurecia. Haveria uma janta mais tarde, por isso também era bom garantir lugar.

Banho foi uma preocupação que não tivemos nessa noite - não havia água quente e por isso nem se cogitava tomar uma ducha naquele lugar.

A luz elétrica tinha hora para acabar: 11h da noite desligariam o gerador e o toque de recolher estaria imposto.

Os mais experientes recomendavam pegar uma cama longe das paredes externas, pois estas estariam mais sujeitas ao frio da madrugada.

Apesar de todos os pesares - que na verdade era o que dava o toque especial ao lugar - conseguimos curtir a noite lá. A janta foi servida e era boa, depois começamos a nos desfazer do estoque de vinho que tínhamos comprado no alojamento do dia anterior, já que sabíamos de antemão que nesse não haveria onde comprar bebida.
Além de aprender uns jogos de carta e umas dancinhas malucas com os holandeses que estavam viajando conosco, ainda nos integramos aos grupos das outras mesas, sendo que a "reunião" acabou durando até a hora de dormir. É claro que, lá pelas tantas, apareceram umas criancinhas, ainda mais novas que as da noite anterior, cantando e tocando músicas folclóricas em troca de alguns bolivianos.

No dia seguinte, o guia falou que acordaríamos às 5h da manhã para pegar a estrada e conhecer os gêiseres Sol de la Mañana antes do sol nascer.


Para dormir, me cobri ainda mais de roupa e cobertas que na noite anterior e não cheguei a passar frio. Desencanei com as dificuldades de se tirar as lentes de contato num lugar sem espelho e com água prestes a congelar e fiquei de óculos. Coloquei as baterias da câmera debaixo do travesseiro e deitei. Outros disseram que quase não conseguiram dormir, mas para mim foi tranquilo. Até levantei para ir ao banheiro no meio da madrugada - claro, com o auxílio de uma lanterna.

Na manhã seguinte, perguntamos como tinha sido a temperatura. Disseram que fez -20°C...

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