18/05/2008

Česky!

Pela primeira vez na vida, cheguei a um país em que não entendia absolutamente nada do idioma local. A Alemanha já tinha sido uma experiência parecida, mas nem tanto, porque, afinal, eu sabia alguma coisinha do tempo de colégio que dava bem para sobreviver e não pagar micos tão grandes.

Na República Tcheca, eu não sabia sequer dar bom dia ou dizer obrigado na língua local. A situação que mais comprovou esse total “analfabetismo” foi um dia em que eu e o Rafael queríamos ir ao banheiro de uma boate e sequer sabíamos qual era o masculino e qual era o feminino, porque só havia duas plaquinhas iguais, com fontes da mesma cor, com duas palavras – algo do tipo “dzeny” e “schnnjklkj@#!”. Qual a solução? Esperar e ver quem entrava e saía de cada um deles... O primeiro até deixou a gente na dúvida, pois era um sujeito meio andrógino... Melhor não arriscar. Esperamos mais um; e esse seguiu confiante a um dos banheiros, e para ele é que fomos.

Boa parte dessas dificuldades mais básicas seria superada se trouxéssemos um guiazinho do tipo Lonely Planet com palavras locais. Só o Rafael tinha um daqueles Guias da Folha e nem nos tocamos de procurar se havia alguma coisa sobre o idioma quando estávamos chegando.

Antes de ir para lá, eu também tinha lido sobre um complicador nessa questão toda da língua: como a Tchecoslováquia era um país comunista até 1989, sob a vigilância constante de Moscou, o inglês não era ensinado em escolas e sequer havia incentivo para que alguém aprendesse essa língua (a não ser que fosse virar espião). Aprender inglês era um claro sinal de que a pessoa estava pensando em fugir para o Ocidente. Na escola, além da língua local, ensinava-se geralmente o russo e o alemão.

Só o pessoal mais novo ou envolvido com turismo é que começou a aprender inglês na década de 1990, e são essas pessoas que tornam as coisas mais fáceis para turistas (ops, mochileiros!) como a gente. O sotaque é bem forte, então é bom sempre prestar atenção para conseguir entender (parecem bêbados tentando falar inglês).

A cidade vive inundada por turistas e, em razão disso, quase todos os menus de restaurantes tem versão em inglês (em muitos casos, italiano e alemão também). Placas explicativas de pontos turísticos e de igrejas, museus, etc., também geralmente estão em mais de um língua. As dificuldades maiores ficam no transporte público (mais de uma vez deixamos de descer na estação certa porque não ouvimos direito o nome da estação – quase todos são meio parecidos e se misturam às demais palavras das frases que são ditas no sistema de som). Para ouvir o que é dito no sistema de metrô, quando o trem parte, clique aqui.

As únicas coisas que aprendi em tcheco são coisas relacionadas ao transporte, como “estação central”, “rua”, “praça”, etc. Vi também que todas as palavras variam se uma coisa é masculina ou feminina, inclusive sobrenomes das pessoas! Por exemplo, um Pavel Ivanov é casado com uma Maria Ivanova... Tem a ponte Carlos (Karlův most) e a rua Carlos (ulica Karlova).

As palavras chegam a ter uns 4 acentos e sinais gráficos, alguns inexistentes nas nossas línguas mais conhecidas, como um acento circunflexo invertido que vai sobre algumas vogais ou sobre letras como “z” e “s”.

Houve uma noite em que pegamos um táxi para voltar ao albergue e o cara simplesmente não sabia porcaria nenhuma em inglês. Depois de treinar muito a pronúncia, consegui mais ou menos dizer para ele o nome da rua em que ficava o albergue: Výstaviště (pronuncia-se algo como “vischtavíschtsche”).

Apesar de tudo que eu disse nesse post, repito sempre que acho muito legal esse desafio adicional de estar em um lugar em que até mesmo pedir água é complicado. Sempre dá certo, de algum jeito ou de outro, e não precisa ficar com vergonha. Até hoje acho graça quando lembro da cena do Rafael tentando comprar barrinhas de cereal e cartões telefônicos num mercadinho ao lado do albergue, cujo atendente era um gurizinho chinês. Ele não sabia nem falar tcheco nem inglês direito, então dá para imaginar o nível da comunicação.

E aí, tá com fome? (Imagino que seja isso que está escrito na placa abaixo, hehehe)

Um comentário:

DaisyDalberto disse...

André, tô achando seu blog mto bom!
é como eu descreveria minhas viagens.
Me matei de rir com esse post.