21/05/2008

Por que tudo é tão "perfeitinho"?


A impressão que se tem (muita gente acha a mesma coisa) é que a República Tcheca parece mais com a “Europa” que temos na cabeça do que a própria Europa Ocidental. No imaginário de quem nunca foi para lá, tudo é lindo e maravilhoso, a população é quase 100% branquinha e de olhos azuis, tudo é antigo, mas bem conservado, etc. e tal.

E não é isso o que se vê quando se chega em Paris, Londres, Barcelona ou Berlim, só para citar alguns exemplos de cidades mais famosas. É mais provável que você acabe comprando mais lanchinhos e usando mais táxis de pessoas que falam árabe, ou um francês ou inglês com sotaque de africano. Da mesma forma, muita coisa que se vê são catedrais e igrejas que foram completamente reconstruídas depois de uma guerra, bem como alguns problemas sociais que, guardadas as devidas proporções, também temos aqui no Brasil (mendigos, sem-teto, greves freqüentes, etc.).

Na República Tcheca, pelo menos em Praga, não. É diferente. Ali tudo é bonitinho, perfeitinho, com exceção da estação de trem (que parece saída de um filme sobre o comunismo), dos bairros mais suburbanos (idem) e da avenidona onde, à noite, ficam entregando panfletos para entrar em zonas ou boates de strip tease.

Uma primeira explicação para tudo parecer mais bonito é o fato de que Praga não foi destruída na 2ª Guerra, como a maioria das cidades alemãs e muitas outras dos países vizinhos. Assim como a Suíça (que é o país mais perfeitinho da Europa, na minha opinião), a República Tcheca conservou muita coisa como era nos séculos passados, e só foi ajeitando cada vez mais.

Uma outra explicação é a relativa estagnação econômica do país (comparada com Alemanha, Escandinávia, Espanha) e o próprio comunismo, que jamais fizeram do lugar uma atração de primeira linha para imigrantes de países mais pobres, como Turquia, Marrocos, Nigéria, Senegal ou China. No tempo do comunismo, aliás, acho que nem se podia imigrar para lá! Essa falta de dinamismo econômico deixou o país, do ponto de vista da tecnologia, mas atrasado que os vizinhos também, o que favorece o turista que quer ver coisas mais históricas.

Outra questão que explica a relativamente baixa taxa de imigração para lá é o fato de o país nunca ter tido nenhuma colônia na América, África ou Ásia. A tendência do imigrante é aproveitar as facilidades da língua e até mesmo de cidadania dos países que foram as metrópoles dos seus países de origem, enquanto ainda eram colônias.

Isso tudo contribuiu para o país preservar muito mais as características da velha Europa, que são as que temos na cabeça antes de ir para lá. Tanto que hoje, países que recém saíram da “cortina de ferro” exploram essa imagem com slogans como “A Europa, como ela costumava ser”, usado pela Eslováquia, ou “O Mediterrâneo, como ele costumava ser”, usado pela Croácia para promover suas praias.

Uma pena é que tudo isso está acabando, e numa velocidade impressionante.

A República Tcheca era um dos destinos mais baratos que havia, uma das melhores relações custo benefício. A cotação da moeda favorecia muito isso. Entretanto, nos últimos anos está cada vez mais cheia de turistas e, com a demanda subindo, os preços vão junto. Daqui a alguns anos, a exemplo de vizinhos como a Eslovênia e a Eslováquia, a República Tcheca também deve aderir ao Euro, e aí sim, adeus preços baixos. Da mesma forma, tudo tente a se equalizar no aspecto da tecnologia, da circulação de trabalhadores e de riqueza, afinal o país já está a mais de quatro anos dentro da União Européia.

Até pouco tempo atrás, era quase uma aventura viajar pelo Leste Europeu. Hoje, é um dos destinos da moda (Praga já é uma Disneylândia, já disse e repito). Nem visto mais precisa para ir para a grande maioria dos países. Brasileiros, hoje, só precisam de visto prévio para ir à Sérvia, Bósnia, Macedônia, Montenegro, Moldávia, Ucrânia, Bielorússia e Rússia, além dos países do Cáucaso. De resto, é só apresentar o passaporte. Os pacotões de viagens de trem (Eurail, etc) já cobrem boa parte dos países do leste e cada vez mais há vôos de companhias low fare voando para lá, especialmente a partir de Londres e Berlin. Tem gente que até brinca que existe uma divisão de era entre o “Antes da Ryanair” ou “Antes da Easyjet” e o “Depois” dessas companhias.

Portanto, corra enquanto ainda é tempo!

4 comentários:

Anônimo disse...

Oi André!
Se estou na Italia, posso ir a Praga, sem nenhuma burocracia? Só com passaporte?
Abraço

André Augusto Cella disse...

Sim, é como viajar dentro do país...

Gabriela Moura disse...

a população ser branquinha de olhos azuis é oq faz parecer perfeitinho?
tipo, essa impressão é oq faz parte do esteriotipo de perfeição?

André Augusto Cella disse...

"No imaginário de quem nunca foi para lá, tudo é lindo e maravilhoso, a população é quase 100% branquinha e de olhos azuis, tudo é antigo, mas bem conservado, etc. e tal."
Essa foi a minha frase. A maldade pode estar nos olhos de quem lê...