11/05/2008

Uma longa viagem de trem

O percurso entre München e Praga foi o primeiro grande trecho que fizemos por terra no nosso mochilão. Todos os outros haviam sido percorridos de avião, em alguns poucos minutos, ou pouco mais de uma hora.

Para poupar o máximo possível, nem cogitamos de pegar um trem de categoria mais alta, como Eurostar (nem sei se existe entre as duas cidades). Pegamos um Intercity mesmo, sendo que nos primeiros trechos estava mais para trem Regional.

O Rafael estava super nervoso a respeito das conexões. Conforme os bilhetes, tínhamos 4 minutos para trocar de trem em Schwandorf e depois uns 7 minutos para uma nova troca em Regensburg (mais tarde descobriríamos que havia ainda mais uma conexão nos subúrbios de Praga). Eu tentava tranqüilizar dizendo que era assim mesmo e que, em se tratanto de Alemanha, não poderíamos esperar outra coisa que não pontualidade absoluta.

E dito e feito: fizemos as uas conexões numa boa, funcionando como um reloginho.

O inesperado ficou por conta de um problema de super-aquecimento na locomotiva da frente do trem, que o fez parar no meio do mato. Pelos avisos no alto-falante, foi dito algo incompreensível, explicando o atraso, terminando com algo do tipo "sem previsão de retorno". Tive que perguntar a alguém o que estava acontecendo para entender.

Uns 15 minutos depois, o trem começou a andar de novo, mas dali cerca de meia hora parou mais um pouco, pelo mesmo problema. Mais 15 minutos e, depois de um tanto, nova parada. Dessa vez a coisa foi mais demorada. Acho que ficamos cerca de 1 hora parados. A maioria do pessoal inclusive desceu do trem. Nos trilhos em sentido contrário, veio um pessoal do apoio para fazer os reparos, que dessa vez foram definitivos.

É, até na Alemanha problemas técnicos existem!

Os trens não eram dos melhores também. Os dois primeiros, até Regensburg, eram daqueles com o bancão de couro, com dois lugares, de frente para outro com dois lugares - o vagão inteiro assim. O terceiro já era mais novo, com algumas cabines com seis lugares, três de frente para outros três, e alguns vagões com bancos no estilo de ônibus, alguns isolados, outros de par em frente de outro par.

Por sugestão da própria vendedora, que disse que não haveria muito movimento, compramos só a passagem e não fizemos reservas de bancos. Efetivamente, não fez muita falta. Embora num primeiro momento achássemos que ficaríamos de pé em parte da viagem, foi só andar um pouco até outros vagões que acabamos encontrando lugares relativamente bons.

Uma dica para quem nunca andou nesse tipo de trem e está em 2 ou 4 pessoas: prefira reservar ou sentar em bancos um de frente para o outro, ao invés de um ao lado do outro. Se não fizer assim, não há como espichar as pernas. Se o seu conhecido é que está no banco da frente, facilita cada um espichar para um lado, e aí fica mais tranqüilo para até dar uma dormidinha.

Na fronteira entre a Alemanha e a República Tcheca, pelo menos teoricamente, deveriam ter carimbado a nossa saída do Espaço Schengen e a entrada na República Tcheca, mas nem isso aconteceu. Só trocou a tripulação e os policiais na fronteira, como de praxe, mas o único controle efetuado foi o dos tickets de passagem.

São cerca de 300km entre as duas cidades, mas a viagem toda, que estava prevista para umas 5hs e meia, acabou levando cerca de 7hs.

No caminho, não há muita coisa interessante para ver. Na Alemanha, o que mais se vê são bosques de pinheiros e alguns campos. As cidadezinhas por onde passamos, pareciam quase abandonadas de tão pequeninas.

No lado tcheco, há alguns rios acompanhando os trilhos em boa parte do percurso. A viagem fica um pouco mais interessante, até pela curiosidade que desperta o fato de se estar entrando, pela primeira vez na vida, num país do lado "de lá" da antiga cortina de ferro comunista.

O trem passa bem pelo meio de Plzen, uma das três maiores cidades do país, mas a parada não chega a possibilitar uma descida. O nome já sugere pelo que o lugar é famoso (os alemães a chamam de Pilsen!).

O contraste com a Alemanha é perceptível. Na Rep. Tcheca, há muita coisa um pouco mais mal conservada, alguns prédios grandões com cara de decadentes. Não há mais aquela sensação de assepsia absoluta que se tem no lado alemão, também.

Já estava escurecendo quando entramos na região metropolitana de Praga. Depois de algumas paradas em cidades do subúrbio, um pouco antes de Vysehrad, o trem anunciou (em inglês, inclusive!) que era a última parada e que os passageiros com destino à estação central de Praga tinham que trocar de trem - coisa que não sabíamos e que não estava prevista.

Chegamos na estação central (Hlávni Nádrazí) de Praga (Praha) e a diferença foi percebida imediatamente. A estação era toda antigona. Os placares com horários de chegada e partida não eram digitais, mas daqueles que giram uma plaquinhas com as letras. Havia muita gente no desembarque oferecendo táxi, hospedagem, restaurantes e passeios. Alguns mendigos, nos cantos, também dava um ar bem diferente daquele visto até então na Europa.

Como a República Tcheca ainda não usa o euro, a nossa primeira preocupação foi encontrar caixas automáticos para sacar alguma coisa. Procuramos muito e nada. Decidimos perguntar e achamos um, mas estava sem dinheiro. Depois de alguma hesitação, o Rafael decidiu trocar 100 dólares de uma reserva de emergência numa casa de câmbio. Deu cerca de 2.000 coroas.

Viramos as costas para sair da casa de câmbio e vimos outro caixa automático - este operando! Aproveitamos e tiramos mais um pouco. O Rafael queria mais 2.000 e foi digitando - eu ainda falei: "Tche, põe um valor quebrado senão vai sair nota muito grande!"

Dito e feito: ele pôs 2.000 e a máquina liberou uma única nota de 2.000!

Eu tirei 1.900 e consegui algumas bem menores.

O câmbio, na época, estava muito fácil para brasileiros: R$1 igual a 10 coroas tchecas.

Já com algum dinheiro, tratamos de arranjar algo para comer ali mesmo. Pegamos uns tipos de cachorro quente muito ruins, achando que seriam parecidos com os de Munique. Nem agüentamos comer inteiros.

Em seguida, tratamos de achar algum lugar mapas da cidade e folhetos turísticos, para então encarar o metrô até o albergue. Mas isso é assunto para amanhã...

O símbolo de Praga, numa tampa de esgoto!

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